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Abaixo, transcrevemos parte do Prólogo do livro Laguna antes de 1880 do Pe. João Leonir Dall’Alba:

                                         PRÓLOGO


Foi por acaso. Tendo-me proposto recolher material para fundamentar a história de Orleans, outrora território lagunense, fui coletando documentos. Como em outras vezes, a fortuna me acompanhou, fui dando com documentos inéditos e manuscritos antigos. No arquivo do Museu Conde D’Eu, de Orleans, foram se avolumando, especialmente as fotocópias. Após a descoberta do manuscrito do Dr. Francisco Isidoro Rodrigues da Costa vi que não poderia inserir tamanha abundância em monografia de história local. Fui consultar a bibliografia  lagunense para ver se de fato eram inéditos os manuscritos. Eram, confirmaram os escritores locais. Não, não os conheciam. Instaram para que fossem publicados.

O interesse não é só de Laguna. Os municípios todos do sul catarinense e o próprio Rio Grande vão encontrar páginas relativas à sua história mais antiga neste documentário. Daí também meu crescente interesse em ver publicados estes marcos escritos de nossa história. Afinal, nós do sul, éramos Laguna.

Não, não é uma história a mais da Cidade Juliana. Mesmo porque ainda não se escreveu a história de Laguna. Ensaios, monografias, memórias. Meu fito é publicar mais estes documentos básicos para a história do Sul do Brasil.


Laguna: muita história nas suas águas não deixam que seja esquecida!



Lamentei não mais ter encontrado o arquivo da Câmara, com os documentos da gloriosa história da Laguna. De vez em quando há algo no arquivo da Comarca. Dizem que todas as revoluções brasileiras, passando por Laguna, carregavam um pouco de seus documentos. Há livros de “Vereanças” em mãos de particulares no Rio Grande do Sul. Não se localizam mais os livros do Tombo da Matriz. Cada historiador parece guardar documentos preciosos. Seria preciso que todos colaborassem e se reunisse tudo num arquivo. Ao menos que se fizesse um levantamento e um catálogo dos documentos de Laguna. Será o primeiro passo para a execução da grande obra que ainda não foi realizada. A monumental história da Laguna. E a história do Brasil exige isto. Certo, que primeiro se organize o arquivo do Estado. Já é tempo Há dezenas de estudantes em cursos de graduação e pós-graduação a serem incentivados para esta grande empresa. Esperamos estar contribuindo para isto, agora que nos aproximamos do terceiro centenário da fundação da célula máter da brasilidade do sul.

......

Orleans, 29 de julho de 1976 - Pe. João Leonir Dall’Alba



Do mesmo livro, transcrevemos abaixo:


                        SÍNTESE DA HISTÓRIA DA LAGUNA



O Tratado que dividia as terras entre Portugal e a Espanha.


Baseados no Tratado de Tordesilhas, os Portugueses não consideraram terras suas ou não deram importância par a estreita faixa de terras da que fora Capitania de Sant’Ana de Pero Lopes. Ibiaçá era o nome com que o nativo a designava. Nunca tendo sido ocupada, ficou por século e meio à mercê dos navegantes que nela reabasteciam seus navios. Os fazendeiros vicentistas aproveitaram-se para, em sucessivas razias, escravizar talvez diversas dezenas de milhares de índios Patos, Carijós de índole muito mansa, ocupantes das praias e margens das lagoas. Diante da sanha dos escravagistas, não valeu a boa vontade dos missionários Franciscanos e Jesuítas que fizeram diversas tentativas de fixar Missões nestas terras.

“Por ser muito do gosto do Rei de Portugal D. Pedro II”, o Paulista Capitão Domingos de Brito Peixoto, com seus filhos Sebastião de Brito Guerra e Francisco de Brito Peixoto, “depois de muitos trabalhos, percas e despesas”, funda a Vila de Santo Antônio dos Anjos da Laguna. Ano? Talvez em 1676. Talvez em 1684.


O Marco de Tordesilhas passa extatamente em Laguna.



Após uma guerra de conquista aos aborígenes, agricultura e pesca transformaram-na um próspero centro de comércio. Depois iniciou a exploração e colonização das terras do Sul, ainda sob as ordens de Francisco de Brito Peixoto e de seu cunhado João de Magalhães. Eles é que tomam posse em nome do Império Português, de grande parte do Continente de São Pedro do Rio Grande, fundando Viamão, São José do Norte e outras cidades litorâneas. A conquista do Rio Grande para o mundo lusitano foi sua maior façanha. “Ad Meridiem Duxi” é o lema que orgulha Laguna. “Conduzi para o Sul”.

Em 1714 Laguna torna-se município, mas sua sede só é elevada à categoria de Vila em 20 de janeiro de 1720, quando o Ouvidor Rafael Pires Pardinho dá-lhe a legislação necessária.

Em 1735 morre o imortal bandeirante Francisco de Brito Peixoto. Fundara cidades, conquistara o Rio Grande para o Brasil.

Posto avançado da conquista portuguesa, é à Laguna que cabe reabastecer as sucessivas armadas enviadas a defender a Colônia do Sacramento. Em 1735 foi tão severo o recrutamento de víveres e homens que ficou na miséria e quase despovoada.

Em 1742 Laguna, que fazia parte do Governo de São Paulo, é integrada ao do Rio de Janeiro.


Em 29 de julho de 1839, aderindo aos Farroupilhas, a Câmara Municipal proclama a República Catarinense. Laguna é elevada à categoria de cidade: Cidade Juliana, Capital provisória da nação catarinense.

Durante uns meses de paz, o chefe da esquadra, Giuseppe Garibaldi, o “herói dos dois Mundos”, entabula o famoso romance com Anita Garibaldi que seguirá, como autêntica heroína, o guerreiro Corso em sua turbulenta vida de lutador pelos ideais republicanos.

Mas a República não funcionava. Os idealistas sulinos não encontraram na cidade pessoal preparado para assumir as responsabilidades da nova nação. Isolada, sem apoio do exterior, nem da República dos Farroupilhas, seu entusiasmo foi arrefecendo. Os Lagunenses começaram a sentir o peso dos desatinos dos revoltosos sulinos. Canabarro, como chefe do exército, absorve ditatorialmente os poderes e ordena massacres e assassínios contra os opositores. Imaruí, por sua ordem, é horrivelmente saqueada em 7 de novembro.

Atacados por terra e por mar, já sem o apoio dos Catarinenses, os Farroupilhas, com enormes perdas, são obrigados a retirar-se para os campos de Lages. No dia 15 de novembro finda a efêmera República da cidade Juliana. Exatamente 50 anos depois os ideais republicanos triunfariam no Brasil inteiro.

Laguna, quase destruída, levará muitos anos antes de recompor-se.

Os Lagunenses, que já haviam guerreado com o gentio, que já haviam defendido a Colônia do Sacramento, que haviam emparelhado suas lanças com os bravos Farroupilhas em épicas batalhas pela liberdade, souberam acorrer em defesa da Pátria quando sua integridade foi ameaçada pelos sonhos de Solano Lopes. Vinte e um voluntários apresentaram-se. Em 25 de março de 1865 formou-se um corpo regular sob o comando do Capitão João Firmino dos Santos: Batalhão “Barriga Verde”! E da Laguna difundiu-se para todo catarinense o epíteto do Glorioso batalhão.

Pelos anos de 1880, com a entrada dos imigrantes e o início da exploração do carvão de pedra, Laguna parece deslanchar para o progresso. Seu porto torna a movimentar-se. A colônia Italiana de Azambuja e Urussanga, a Colônia de Grão Pará, da Princesa Isabel, a Colônia Alemã do Braço do Norte, mais os tropeiros de Lages fazem da Laguna o grande porto de abastecimento da praça do Rio de Janeiro. O baixo calado de sua Barra, porém, fez com que o porto de embarque do minério de carvão fosse construído na enseada de Imbituba. Assim mesmo, até os idos de 1910, carne, banha, madeira, açúcar, farinha e aguardente movimentavam o pequeno porto. A estrada de Ferro Tereza Cristina, se não lhe trazia carvão, trazia-lhe clientela de todos um rico interior, com seus produtos agrícolas.

Tubarão, Araranguá ganham nova vida  e tornam-se municípios autônomos.

No sertão da Laguna surgem novas cidades, Urussanga, Orleans, Criciuma e uma infinidade de povoados que, aos poucos, vão se desmembrando em municípios e suas sedes transformando-se em progressistas cidades.

E Laguna? Laguna não cresce. Apesar do movimento comercial que lhe dá algo de vitalidade, parece esgotar-se ao colonizar seu interior. Laguna estagna. Por vinte, cinquenta, por cem anos. Laguna é uma cidade velha. Só a BR-101 e o turismo e quem sabe, o porto pesqueiro, parece, vão despertá-la da modorra de vovozinha cansada, que olha os filhos e netos crescerem mais, muito mais do que ela.

Mas Laguna está viva. O encanto de suas praias, sua tradição histórica, a revalorização do carvão de pedra, os reflexos dos grandes empreendimentos industriais de Imbituba e Tubarão estão rejuvenescendo Laguna. Se é, agora, um dos tantos pequenos municípios de Santa Catarina, não deixa de ser para todo o Sul do Brasil a “Célula Máter” que olhamos com carinho, relembrando seu passado histórico e sua grande façanha.

“AD MERIDIEM DUXI”

Orleans, 29 de julho de 1976, festa do tricentenário de Laguna

Pe. João Leonir Dall’Alba em seu livro documentário Laguna Antes de 1880, publicado em 1976.


João Leonir Dall'Alba nasceu em Caxias do Sul em 1938 e faleceu nesta mesma cidade em 2006. Foi fundador e presidente da Fundação Educacional Barriga Verde (Febave), do Museu Conde D'Eu e do Museu ao Ar Livre, todos em Orleans, SC.  Filho de Corino Dall'Alba e de Lúcia Ballardin. Fonte: Wikipédia


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