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Os textos abaixo são trechos transcritos do segundo capítulo do livro documentário Laguna Antes de 1880, publicado em 1976, do Pe. João Leonir Dall’Alba, onde ele transcreve o relatório do Juiz Dr. Francisco Izidoro Rodrigues da Costa, enviado à corte com propósito de informação sobre a cidade.

(Continuação da página anterior)


46 - Instrução Pública


É a instrução pública o padrão pela quaI se afere a civilização de um povo. Não há de duvida-lo. E quem tem visto a caminhar progressivo, o incremento espantoso que se desenvolve nos países onde se considera a educação do povo o primeiro e mais indispensável dever não negará, por certo, que justificáveis são quaisquer sacríficios que uma nação se impõe no intuito de melhorar, de elevar ao devido grau de altura este importante ramo da administração pública.
Se, porém, uma nação tem compreendido quaI a órbita de suas obrigações em dar o necessário apreço e em colacar em seu devido pé a instrução pública, de modo que já colhem os frutos de seus ímprobos trabalhos, não acontece o mesmo ao nosso malfadado Brasil. Conquanto nestes anos tenha acordado do letargo em que jazia, e muito tenha feito em prol da educação pública, corn espceialidade na Corte, todavia longe, e muito longe, está de satisfaler as exigênecias resultantes da ignorância do povo. Pela falla de ramificação deste  elemento de prosperidade, com muita particularidade, em nossa Província, onde a educação pública é mais uma verba do orçamento do que uma realidade.

Não consigna a Província uma grande parte de suas rendas à instrução pública e pelo fato de ser pouco vantajosa à sua receita, também é pequena a parte relativa aquela consignação. A deficiência, pois, de numerário consignado é uma das principais causas do atraso em que se acha a instrução popular na Província. Mas, entretanto, essa Pequena parte poderia produzir melhores resultados se fosse bem aproveitada,de maneira a ter-se pouco, mas bom. Não é isso, porém, o que se observa. Podemos mesmo dizer que pouco se tem cogitado a relpeito. Corn excessão de um limitado número de professores, o pessoal instrutor é, em geral, imprestaveI. Professores há que ainda carecem de longe tirocínio para conhecer alguma coisa, mesmo rudimentar, quanto mais para professarem matérias adstrictas ao cargo em que estão.


Muitos irão olhar esta foto e sentirão saudades da Escola Jerônimo Coelho. Foto e comentários de Eliane Reinaldo.



Era este mal que se poderia evitar: Pagando bem a quem tivesse precisas habilitações, embora se limitasse o número das escolas, pois o pouco bom, sempre foi melhor que o muito mau.
Nos pontos agrícolas, sobretudo, é onde se ressente de maior falta a instrução, de modo que individuos há, em elevado número, que nem ler sabem. Conseqüentemente não podem beber nas fontes de bons conhecimentos os elementos de que carecem para melhor desenvolvimento de sua indústria ou profissão.

Não vai, no que dissemos, censura a quem quer que seja senão uma rememoração do estado aflitivo da nossa instrução pública, chamando atenção em seu favor.
Uma das providências, que tem sortido efeitos maravilhosos por toda a parte onde tem sido posta em pratica, é a criação de escolas noturnas para adultos. Cremos piamente que, se entre nós se eltabelecesse uma aula gratuita para adultos do sexo masculino, seria ela multo concorrida. Redundaria daí extraordinário benefício intelectual e até material, para esta cidade. Por isso que, com as luzes bebidas na lnltrução adquirida, grandes vantagens se repercutiriam no comércio, lavoura e indústria agrícola e fabril.

Não é difícil a realização desta idéia. Basta que o Governo estipendie um indivíduo habilitado legalmente, para se encarregar da dlreção daquela aula, e verá em breve afluirem os adultos carecedores do pão das letras. Receberão o influxo que Ihes será origem de riqueza e prosperidade. Far-lhes-á clara a luz da inteligência, até então empanada pelas trevas da ignorância.
Estude-se esta matéria. Veja·se se há possibilidade de realiza-la, como estamos crentes que há. Tenha-se em consideração que os efeitos compensarão generosamente os sacrifícios de algumas centenas de mil. réis. Terá, quem a realizar, adquirida uma glória indelével, um direito a gratidão do povo lagunense.
Nestas tentativas não há que trepidar. Reconhecida sua utilidade, é ir-se por diante, cortando o nó górdio das dificuldades que se antepõem, com as espadas da perseverança, da força de vontade. Tem o município 15 escolas, sendo 7 para o sexo feminino e 8 para o masculino.

Estão providas as seguintes: Cidade (ambos), Imaruí (ambos), Vila Nova e Pescaria Brava (sexo Masculino). Estão vagas as de Campo Born, MagaIhães, Vila Nova, Mirim e Pescaria Brava. Os professores são todos contratados, menos a professora desta cidade, que é vitalicia.

A freqüência é nula. As escolas vivem desertas.



**No livro Laguna de 1880, Saul Ulysséa nos fala o seguinte sobre as escolas:


"ESCOLAS

Era muito descurada a instrução e a frequência escolar não ia além de duzentos alunos para uma população de cêrca de quatro mil habitantes.
Os alunos estudavam muito ou pelo menos passavam muitas horas na escola, sem recreio, a não ser na escola do professor Guilherme Willington. Um sistema bárbaro que aborrecia as creanças.
Deixar por qualquer circunstância de ir às aulas, era de extraordinária alegria para o aluno. Era comum garotos gazearem.

Já naquele tempo estava em desuso a palmatória, proibida pelo regulamento escolar, mas empregavam a régua nas costas dos alunos.
Na escola pública do professor Guilherme Henrique Willington havia uma hora de recreio, em um terreno ao lado do edifício, à rua Voluntário Firmiano.
Uma sineta indicava o termo do recreio. Ao ouví-la, corriam os garotos em direção à parede da casa vizinha, formando uma fila e todos a um tempo, irrigavam-na com amoniaco frequinho, quiero dizer, quentinho.

As escolas particulares cobravam 1$000 mensais por aluno.
Nas escolas de meninos, como não havia adjunto, o professor escolhia o aluno mais adiantado para ajudá-lo, ao qual davam o nome de “decurião”.
Como eram muitas horas de aula, os pequenos para se distrairem imaginavam passatempo com o que estivesse ao seu alcance. Pegavam moscas e faziam um pedaço de papel, com certa habilidade, um carrinho com uma ponta aguda que enfiavam, pela parte trazeira da mosca, tanto quanto desse para segurá-lo depois, soltando-a para vê-la puxá-lo.

Outras vezes pegavam a mosca, arrancavam a cabeça e colocavam-na em um pedaço de papel que dobravam e redobravam esmagando a cabeça da mosca, passando com fôrça a unha sôbre o papel dobrado. Ao desdobrá-lo verificavam interessante desenho simétrico produzido pela substância vermelha que contem a cabeça da mosca.
Quando se sentia na aula o que uma pernostica baroneza do Rio de Janeiro, denominava: “zefiro pestilento que serpenteia por entre nós”, alguns alunos bufavam, torcendo o nariz, entoando em côro: hum! hum!
- Quem foi? Gritava o professor.
- Eu não fui, era a resposta unânime.
O professor destacava um aluno para a verificação. Lá ia êle como um celebre funcionário que existiu na côrte inglesa, que precedia o rei nos corredores do palácio, com o nariz no ar, a verificar, se havia vento encanado.
- Foi este! Gritava o verificador apontando o aluno.
Resultado: umas reguadas, a exclusão da sala e uma ameaça do culpado:
- Estás desafiando para detrás do Teatro ou o! – Te pego na rua!

Havia em 1880 duas escolas públicas para os dois sexos, uma escola particular para meninos e outra mista."


Citando Fábia Liliã Luciano Carminati, falando sobre o Colégio Catarinense em Florianópolis: "...Dentre os professores contam-se nessa época, em 1872, Guilherme Willington, com sua esposa D. Carolina, que abriram cursos denominados Colégio Catarinense e Colégio da Conceição, respectivamente para rapazes e meninas. Em 1874, ainda existia o primeiro. Depois, Willington foi para Laguna e Araranguá, lecionando sempre até 1879, quando faleceu afogado, na Laguna. Em 1884, os professores do Liceu, Custódio Teixeira Raposo e Léon Eugênio Lapagesse abriram um curso primário, o Colégio Santa Maria, cobrando três mil réis mensais por aluno. Nesse ano, Barão de Macaúbas doou à Província quatro mil exemplares da sua cartilha, num valor de sete contos, para distribuí-las nas escolas. E o Professor Prezalino Leri dos Santos abriu um colégio, em 1885, propiciando instrução primária e secundária.."

De seu texto: A ECONOMIA COMO UM DOS ELEMENTOS EXPLICATIVOS DA GÊNESE DO MAGISTÉRIO NA PROVÍNCIA DE SANTA CATARINA: UMA ABORDAGEM HISTÓRICA DE 1835 - 1889.



47 - Navegação


Navios da praça comercial de Laguna em 1880.



Denominação     Nome            Toneladas
01-Patacho         Lusitano         198
02-Patacho         Apolo             158
03-Patacho         Wanzeller       100
04-Patacho         Firmeza           89
05-Patacho         Alegre             95
06-Patacho         Destino          144
07-Patacho         Esperança      131
08-Patacho         Gentil            117
09-Patacho         Liberal           165
10-Patacho         Sto. Antônio   133
11-Patacho         Rápido           165
12-Patacho         Cabral I         218
13-Patacho         Monte Alegre  150
14-Patacho         São Pedro        91
15-Patacho         Bittencout       80
16-Patacho         Nova Flora     147
17-Brique Escuna Alzira              65
18-Escuna          Helena           112
19-Escuna          Lembrança     100
20-Escuna          Boa Nova       100
21-Escuna          Amparo          143
22-Iate              Graça            118
23-Iate              Lagunense       61
24-Iate              Sr. dos Passos 32
25-Iate              Riachuelo        58
26-Iate              Jovem Artur     69
27-Iate              Andorinha      128



* Sobre a Navegação, em a Laguna de 1880, escrevia Saul Ulysséa:


" Eram 16 os navios de cruz (assim chamados os navios com vergas) sendo um brigue escuna, duas sumacas e o restante patachos. Dois palhabotes e inúmeros hiates, alguns navegando até Paranaguá e a maior parte para o interior, de onde conduziam cargas para embarques. Como não havia sido construida a ferrovia Teresa Cristina, inúmeras eram as canoas que conduziam cargas de Jaguaruna, Tubarão, Imaruí, Aratingaúba, Rio d’Una e de outros lugares para a cidade.
As cargas de Araranguá, vinham em carretas até Garopaba e pequenas lanchas, para a cidade.
Havia muitas canoas de pesca e algumas baleeiras que iam pescar fóra da barra, indo até a ilha dos Lobos."


"NOTA DO SITE: E você sabe a diferença entre estas embarcações?



Patacho: Embarcação antiga de dois mastros, tendo a vela de proa redonda e a de ré latina. Foto do Blog Barramar.




Escuna: Embarcação de dois mastros, em que as velas principais são latinas, e que ger. dispõe de vergas apenas no mastro de vante [Quando tem vergas tb. no mastro grande de ré, diz-se escuna de duas gáveas.]




Iate (antes até se escrevia "hiate"): navio de vela com dois mastros com velas latinas, dos quais o maior apresenta inclinação para trás. Foto do site Conjuminando.




Palhabote: Embarcação a vela semelhante ao iate, com dois mastros e mastaréus e velas latinas. Foto do site Associação Nacional de Cruzeiros.



Diversos tipos de embarcações. Imagem do site Eboat.




Brigue-escuna: Navio de dois mastros em que o de vante é igual ao do brigue, e o de ré é como o de vante de uma escuna.

Canoa: Embarcação primitiva de pequeno porte, de origem indígena, cavada por meio de fogo em tronco de árvore, movida a remos e desprovida de leme, us. ger. para ações de guerra; piroga.

Baleeira: embarcação miúda, ger. a remo, com a popa e a proa mais ou menos iguais, finas e elevadas [Tomou este nome por ter sido us. originalmente na pesca de baleias. Conforme o uso e a construção, pode ser: auto-endireitável, salva-vidas, de duplo fundo e de serviço.].


(Todas as definições são do dicionário Houaiss)



(Continue a leitura na página seguinte)


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