Os textos abaixo são trechos transcritos do segundo capítulo do livro documentário Laguna Antes de 1880, publicado em 1976, do Pe. João Leonir Dall’Alba, onde ele transcreve o relatório do Juiz Dr. Francisco Izidoro Rodrigues da Costa, enviado à corte com propósito de informação sobre a cidade.
(Continuação da página anterior)
50 - Topografia
As freguesias mais importantes do município são:
1 - Vila Nova
A mais antiga, que muito floresceu, mas que hoje vive decadente. Está situada a 4 léguas ao norte da cidade e 14 ao sudoeste do Desterro. Está agradavelmente assentada num outeiro à beira da lagoa chamada Laguna, entre o morro de Itapirubá e a lagoa Panema, arredada uma légua do porto de Imbituba. Sua origem foi a mesma que a de Laguna; a Igreja de Santana servia de Paróquia desde 1755 e só foi revestida deste título em 1811. Teve uma escola de primeiras letras até 1832. Seus habitantes cultivavam o linho em abundância, cana, trigo, víveres, etc. Faziam importantes tecidos de Iã. Fabricavam açucar de primeira qualidade, aguardente, tendo, em 1832, 10 fáibricas.
Vista geral do Bairro Vila Nova Esperança na Praia da Ribanceira. Foto de Ice Climber.
No Governo do Marquês do Lavradio aplicavam-se à propagação da cachonila, o que foi favorecido peio sucessor desse Governo, Lúis de Vasconcelos. O Governo comprava toda a colheita e pagava caro, à razão de 1920 réis 0 arretel, com o único fim de estimular a cultura. Porém, como os agricultores abusassem, falsificando a cachonila, misturando-a corn materiais que lhe aviltavam o preço, resultou desta falta de lealdade o abandano deste comércio tão rendoso e tão útil ao país. Hoje a Vila Nova não passa de um lugarejo habitado pelos pobres, que apenas cultivam a mandioca para fabricar farinha. É a freguesia menor do município, a mais atrasada. O comércio é nenhum e a lavoura insignificante, sem centro, sem terras particulares, desde que todas são logradouro público. Foi o lugar mais célebre na história da Província, principalmente na ocasião da invasão Espanhola em 1777. Tem auas escolas, uma do sexo masculino. As casas são poucas e a maior parte em ruinas. Calculamos na sede da freguesia 30 casas de telhas.
II - Santana do Mirim
Foi criada esta freguesia com terrenos de Vila Nova, razão de diminuir a importância desta. O local da sede é num baixo; quando chove fica inundado. As casas são poucas, e ainda em mais ruinas do que em Vila Nova. Tem uma pequena igreja começada que serve de matriz. O cemitério é no campo. A freguesia tem muito centro agrícola e algumas casas imporrtantes de negócios. Há uma ponte sobre o rio Una, obra de pedra, trabalho mui aperfeiçoado. As escolas primarias são duas e se acham vagas.
Vista de Pescaria Brava. Foto de FSMeireles.
III - Senhor Bom Jesus da Pescaria Brava
Perto da cidade, edificada à beira da Lagoa, em um terreno de morro, e pedregoso, de modo que as casas não têm alinhamento e tornam deforme a sede. Foi erro em construir-se a igreja e a sede nesse local. Antes tivessem povoado o Siqueiro. onde o plano do terreno e a natureza favoreciam essa povoação, podendo-se fazer excelentes casas. O Siqueiro, por nós examinado, era o que podia dar vida à aludida freguesia. Não só por causa da planicie, como, especialmente, por ser o ponto central, por onde há contínua movimentação. Nesse povoado se edificaram importantes casas de pedra e cal. Entre outras notaremos: A chácara do Senhor Fernando José Martins, o melhor edificio que conhecemos neste município, as dos senhores Manuel Luis Martins, herdeiro de José Francisco dos Santos, Poluceno Loreto e outros. Há mais casas no Siqueiro do que na sede da freguesia. A igreja Matriz em construção é um rico templo, quando concluido.O centro agrícola é regular, sobressaindo os lugares: Santiago, Camboim, Capivari. Tem duas escolas de instruçao primaria. O cemitério esta num alto, afastado da sede da freguesia, é cercado
IV - São João Batista do Imaruí
É, na nossa opinião, a freguesia mais linda, mais prospera que conta o município. Sua Igreja, dedicada a São João Batista, foi elevada a categoria de paróquia por decreto de 23 de agosto de 1833, que assinalou por limites a ponta Cangueri da parte do norte e a freguesia de Santana. Da do sul a Pescaria Brava, pegando corn o terreno da Laguna. O local é belo, à margem da lagoa do Imaruí. Esta bem edificada e conta corn avultado número de casas de pedra, com diversas ruas e uma grande praça. Calculamos mais de cem casas, as que existem na freguesia, não falando no Taquaroçutuba, Cangueri, que são outras tantos povoados em melhores condiçães do que muitas vilas da Província. Tem uma igreja matriz construída e regular, com um cemitério murado. As escolas primírias são duas, além de muitas outras particulares. O comércio é O mais prospero de todas as freguesias. Existem importantes estabelechnentos, fábricas e indústrias. A lavoura é variada e ultimamente se cultiva o café por modo tal que em breve se exportará. O centro é o mais rico do município. Os lugares principais são: Taquaroçutuba, Cangueri, Aratingaúba, dos quais Vão ao mercado feijão, farinha, amendoim, café em grande abundância.
Igreja de São João Batista em Imaruí. Foto de Henrique Bittencourt.
A navegação é continua. Pesquisando o antigo arquivo da municipalidade, encontramos um provimento especial dado em 1823 pelo ouvidor Manuel José de Albuquerque, que, provirnento digno de ler-se, pelo interesse que esse ouvidor tomou pelo aumento e propriedade desse lugar. Diz ele: Merece toda a atenção a povoação de São João do Imaruí, pelos dons com que a natureza enriqueceu seu extenso território e embelezou seu local, hábil para uma grande cidade e mais conveniências à sua prosperidade futura. Expendi em ofício ao atual juiz Ordinario, o capitão Tomas José Freire, quando, pelo seu conhecido préstimo, lhe incombi o arrumamento da mesma povoação, que tão destramente confiando desempenhou. Lemnro-me, agora, de que não basta tão assíduo zeloso trabalho, se não previnisse os erros que podem acontecer, e que imprevistos e sem remédios, tornariam baldados tantos esforços, deixados torpe e deforme uma obra que está perpétua, a mais perfeita deste gênero. Inteiramente persuadido do que afirma no prospecto do edifício, não muda sua substância interna. Sem mais trabalho se pode, com o mesmo dispêndio conseguir a regularidade, que são de utilidade pública a que cedem razões particulares. Julgo de nescessidade, pelo muito que desejo promover o bem em geral da dita povoação, e por isso provenho o seguinte:
Cap. 1° - 0 arruamento que ora se acha feito, formando o quadrilátero com o largo da igreja e os dois quadros perfeitos da sua frente, com o paralelogramo próximo à praia, deixando ai a praça pequena com o mercado público e todos os mais quadros regulares que nessa freguesia se abrirem, por ora até a ponta de Francisco de Souza, é notável ,e imutável, não admite reforma, nem alteração alguma, por mais diminuta ou imperceptível que seja.
Cap. 2°- É proibido inteiramente edificar fora do alinhamento. Não basta para edificar que se peça licença, é preciso que se indiquem a altura em que ficarão as soleiras, pondo as balisas que assim determinem.
Cap. 3° - As ruas, além de serem retas na direção lateral, conforme o pIano a executar, devem ser diretas na superficie e por isso ordeno que se marque esta superfície aos lugares em que tenham altos, para se descansrem, e no que existem baixos para se aterrarem. Este serviço sera mais facil de se fazer por cada uma na sua testada quando edificar. Sendo assim, o trabalho dividido, obvia grandes males e concorre para o aformoseamento e salubridade pública, para a melhor expedição das águas e extinção de pântanos.
A bela Imaruí. Foto de Rodrigo Henrique Bittencourt.
Cap. 4° - Nenhuma casa baixa deverá ter na frente menos ou mais do que 14 palmos, nem portas, nem janelas de viga direita, mas arqueada. As portas deverao ter 11,5 palmos de altura e 5 largura. As janelas que cada um quiser abrir, da mesma largura, e aItura proporcional.
Cap. 5° - Sera mui interessante que todos que edificarem façam na frente da casa caIçada de 5 palmos de largo para facilidade de trânsito.
Cap. 6° - Acho grande inconveniente para a boa e regular edificação, na discordância do dominio dos terrenos corn o arruamento.
Confiando, porém no zelo do bem público e docilidade dos habitantes espero que, descritas em cada quadra as porções regulares que devem ser assinadas para cada casa em frente e fundos, se reduzirão as porções irregulares que cada possui. As porções assim reguladas e alinhadas, atendendo-se com madureza a circustância dos terrenos e ficando as frações dos que nada perderão para suavisar a perda dos outros. Note-se nos títulos essas designação, para remover dúvidas no futuro.
Seriam ineficases estas úteis e interessantes providências se as entregassem ao desleixo, não havendo quem com zelo suprisse o meu desejo no seu exato e prudente cumprimento e desempenho. Confiando na demonstrada aptidão do Capitão Tomás josé Freire, lhe dou comissão pessoal para a sua devida execução, que durará além do tempo de juíz ordinário e enquanto julgar conveniente.
Laguna 23 de agosto de 1823. Manuel josé de Albuquerque.
Essa freguesia muito sofreu por ocasião da guerra civil dos Farrapos ou rebeldes do Rio Grande, entrando estes nela de assaIto, saquearam as casas de negócio e de moradia. Isso em 1839.
v - Nossa Senhora das Dores de Campo Bom (Jaguaruna)
Essa freguesia é nova e foi criada em 1880.0 centro é agrícola e produtor. A edificação é boa e na sede ha casas de pedra e cal. Tem uma capela regular.
VI - Nossa Senhora Mãe dos Homens do Araranguá
Tem essa freguesia uma imensa zona, mas, deviido à falta de meios de transportes, quase inculta. A lavoura, pela barateza dos cereais, é quase nula, limitando.se O geral da população à caça e criaçao. O povo é.,paupérrimo. A sede da freguesia é despovoada. Conta apenas aIgumas casa,s de tábua e paIha, e duas ou três de tijolo. A barra é perigosa, e os caminhos da cidade até as Torres, limite da freguesia, são péssimos.
*O que se entendia por "Freguesia" naquela época? Vamos consultar o Houaiss?
Agrupamento, povoação paroquiana; agrupamento, conjunto de fregueses de uma determinada paróquia ou freguesia; nas províncias e cidades de Portugal, a menor divisão administrativa.
51 - Opinião imparcial e justa de Van Lede
Livro digitalizado por Googles Books.
Completamos nosso sucinto trabalho transcrevendo algumas paIavras que um distinto escritor francés dedicara à Laguna em 1843, na sua obra "Colonização do Brasil", apreciando devidamente a grandeza e importância dum município onde tuclo ainda se acha por explorar.
Diz ele "A Vila de Laguna está assentada sobre a margem da lagoa de que tira nome, em um pequeno vale, situado entre os dlfercntes picos pouca elevados, de forlmação granítica, que formam o morro do Magalhães. Da casa do Coronel França descortinamos quase toda a Laguna: Em frente ao noroeste viamos os morros do Parobé. Ao sudoeste, em distância, prolongamento dos da Mãe Luzia. Pela frente, perto de nós, o embarcadouro e o porto, onde alguns brigues e outros navios de menor importância estavam fundeados.
Miríades de pâssaros aquáticos ocupavam pela manhã as coroas cobertas de capim e perís formadas na lagoa, e muitos cetáceos vinham revolver-se nestas ãguas tão tranqüilas quando o vento não as encrespava. A manhaã era belíssima, e os primeiros raios do sol nascente davam a este quadro um tão deslumbrante aspecto, que nós nos surprenndemos, lamentando que nóão fosse esta a nossa terra natal. A Vila da Laguna tem perdido muito de sua importância desde a invasão dos Farrapos, em 1839. A metade de suas casas estava em ruinas ou abandonadas. Na verde ela começava a se refazer dos desastres de então, e algumas novas construções com mais cuidado e elegância tinham já substituído as antigas. Mas, no entretanto ela não estava lnteiramente restabelecida da rude prova a que acaba de resistir. Muitas de suas casas edificadas de tijolos e de pedra, estucadas no exterior e no interior, têm dois andares e mesmo algumas têm quatro. O caráter geral dessas construções é o tipo do Rio, quase o de Lisboa.Dão vinte mil almas a esta Vila, e ela se tornará uma das moradas mais agradáveis do Brasil, tanto pelo risonho aspecto da paisagem que a cercam, como pela amenidade do seu clima e a grande facilidade de comunlcação com todo o litoral da lagoa e numerosos afluentes que nela desembocam. Porém, para gozar de toda a magnificiência do panorama que se desenrola à nossa vista é preciso subir o pico mais elevado do morro do Magalhães. Dali descobrirenlos os montes cobertos de matos que se acham à entrada do seu porto, os dois morros de Santa Marta, a serra da Mãe Luzia; o contraforte que da serra Geral desce entre esse rio (Mãe Luzia) e o Tubarão, e que, por suas duas vertentes, alimenta os numerosos afluentes desses dois ditos rios, o grande contraforte da serra do Taboleiro; os morros de Sant'Ana, que ao longe se perdem em ondas de luz; mais para leste a ponta do Imbituba; depois a imensidade do mar, onde as ilhas das Araras, Itacolomi, dos Lobos, esses montões de formação cristalina, sobrepujados de vegetaçao, servem de baliza e algumas vezes de escolhos aos maritímos inexperientes.
Parte do livro original digitalizado por Googles Books.
Os contornos graciosos que debuxam as três lagoas se espalham antes o espectador, e das quais um só golpe de vista pode abranger o todo, as duzentas ou trezentas léguas quadradas das florestas virgens que preenchem os intervalos dos morros de que acabamos de dar a narrativa, e os encantadores contrastes que oferecem as porções arroteadas da pequena cadeia do Parobé ou de Sambaquí, cujo sopé serve de limite ocidentalàlagoa, tudo isso forma realmente um quadro belo. Ainda que não se contemple senão os morros onde se ache o observador, quanto assunto de admira ção de deslumbramento! Sobre este montão de granito ornado o luxo da vegetação, procure-se um só grão de areia, onde as plantas que o sobrecarregam possam achar a seiva necessária à alimentação! E no entanto, essa rocha tem moléculas de tal maneira concentradas entre si, que o aço, o mais bem temperado, para logo se embota, desde que se queira talhar. Não será isto um prodígio da natureza? Descendo-se daí, a uma centena de metros acharemos um sambaqui, no meio de um depósito de conchas fóceis recobertas por toda parte de restos orgânicos de peixes e elevados quase trinta metros acima do nível das águas. Esse pequeno fenômeno distrai algum tanto a atenção da grande cena que se oferece à vista. Mas logo, sem que nos pede, reconduzimo-la a admirar a aparição dessa Vila, tão bem protegida pelos dois promontórios entre os quais ela se acha edificada, e a linda posição do seu porto, onde os navios se refletem tão garborosamentenas águas. Tudo isto é tão belo, que bem a nosso pesar sentimos que essa terra não seja pátria, ou que ela não possa ser deslocada com sua vegetação tão bela e o seu clima tão temperado.”
*Quem foi Van Lede?
Charles Maximiliano Luiz Van Lede nasceu em Burges, na Bélgica, em 1801 e morreu naquele mesmo país, em Bruxelas, em 1875. Foi um pesquisador e iniciou a colonização belga em Santa Catarina:
"....Em janeiro de 1845 já havia uma segunda colônia, dissidente da primeira em função das promessas não cumpridas e de outras 60 famílias belgas e francesas trazidas por Van Lede em segunda viagem a Europa. Em setembro do mesmo ano, decepcionadas com os rumos da colônia e engenheiro belga retornou definitivo à terra natal, encerrando as atividades da Companhia e deixando a administração da colônia nas mãos de Fontaine. Revoltados com a situação de miséria, os colonos pediram insistentemente a saída de Fontaine, o que viria a ocorrer somente dois anos depois. A historia que ex %u2013 administrador da colônia foi embora levando consigo documentos importante, assinados pelos colonos declarando recebido vários gêneros alimentícios, e até o sino da igreja trazido pelos belgas. A direção da colônia foi então entregue para Gustave Lebon. A partir daí, passou a ser considerada uma simples povoação. Van Lede responsável pela colonização de Ilhota morreu em 19 de julho de 1875 deixando o título da propriedade como legado ao hospital de Bruges, na Bélgica. Começava ai mais uma luta dos colonos pela legalização de suas terras...." (Texto transcrito do site da Prefeitura de Ilhota, SC).
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