O HOMEM NU

Óleo sobre tela de João Rodrigues Jr.


Há alguns anos atrás (vários...) nós tivemos um barzinho chamado "Boulevard". Pequeno, aconchegante, muito depressa ele se tornou o lugar preferido de muitos artistas e apreciadores de arte, jornalistas, radialistas, gente jovem e de mais idade.

Fazíamos exposições semanais (pintura, desenhos, poemas, fotografias), shows preparados ou improvisados, cozinha tradicional ou inventada pelos clientes. Era, como disse um jornalista de Florianópolis na época, um barzinho underground muito especial, o melhor da cidade. Sem modéstia, vai: era mesmo! As pessoas que o frequentavam fizeram com que ele tivesse momentos fantásticos, inesquecíveis.

O Boulevard tinha vida. Falava com a voz de seus cantores e frequentadores, mostrava suas faces a cada exposição. E a alma artista daquele canto tomava proporções que ninguém havia imaginado antes. Tínhamos livros (grandes cadernos pretos) que circulavam entre os presentes. Muita gente deixou emoções ali. Cada página daqueles livros guardava em si pedaços dos que frequentavam.

Quantas vezes eu via alguém escrevendo ou desenhando naquelas páginas e depois fechando o caderno com um sorriso que não existia quando tinha chegado.(Não me perguntem pelos livros hoje. Infelizmente foram roubados da casa de uma amiga e nunca mais tive notícias. Foi uma grande maldade que fizeram comigo, dói ainda esta falta.). Estava no quarto volume quando o barzinho fechou.

O Boulevard poderia ter ido longe mas infelizmente o preconceito de certas pessoas unido à inveja de outras fez com que passássemos de um barzinho moderno e acolhedor a antro de sabe-deus-o-quê. Falaram mal, chamaram polícia, tudo pelo bem-estar da moral e dos bons costumes. Que infelicidade, ali só tinha alegria.

O maior símbolo do preconceito foi a exposição do artista incomparável João Rodrigues Jr. Entre as telas expostas existia uma chamada "O Homem Nu". Fantástica. E forte, eu imagino, pois quase matou boa parte da população da cidade. A mesma parte, retrógada, que conseguiu sobreviver para nos afogar. O Homem Nu ganhou cuecas do autor, coitado! O Boulevard fechou por falta de clientes e, em consequência, de verbas. E de tristeza. Mas, como a Fênix, o Boulevard transformou-se num Manifesto... (outra hora eu conto...).


(Ao som de: Laura Fygi (Live at Ronnie Scotts, um dos melhores discos dela, divino.)

 Eu consegui!!! Fotografei a tela antes dos inquisidores vencerem!!!!!!!!!!!!!!!!


Publicado no Blog Certas Linhas em 2006


SEI QUE AINDA VOU VOLTAR...


Imagem da net


Hoje pela manhã a bruma se espalhava pelo ar retirando a linha fina que separa os céus do chão. É o frio chegando cada vez mais perto. O frio que ultrapassa as paredes e nos atinge fundo no coração.
Lembro que no Brasil sempre dizía-mos: "serração baixa, sol que racha!". E assim ficávamos felizes esperando o lindo dia seguinte, o "dia de praia".
Tenho saudades. Saudades das expressões, das respostas simples, do chão e dos céus de lá. Tenho muitas saudades das pessoas: as de dentro do meu coração e mesmo aquelas por quem passava e dizia "oi, tudo bem?", sem saber direito quem eram. Porque são todos meus conhecidos. Tudo é meu conhecido. Coisas de quem se sente em casa, em família.
Infelizmente aqui não me sinto assim. O chão é limpo, o céu tem suas cores variadas, as pessoas, as de perto e as de longe, são um bem incontestástavel para o dia-a-dia. Mas não posso negar. Aqui não me sinto eu. Fico relegada a ser quem pensam que sou. Meus dias passam sem a luz dos dias de lá. Sem o sorriso e as gargalhadas das gentes de lá. Sem o amor enorme que eu gostaria de dar para as gentes de lá.

(Pronto. Daqui a pouco só falta eu chorar. Tô ouvindo "Carmina Burana" mas sentindo mesmo é "Sabiá". Quem sabe...)

De 11.10.2006, publicado no Blog Certas Linhas em novembrdo do mesmo ano.



16 ANOS


Imagem da net


Não importa o quanto os anos passem. Em muitos momentos da vida eu vou ter para
sempre 16 anos. Vou me vestir de princesa e te ver chegar vestido de príncipe. Ou vou pegar a
primeira calça cortada, a camiseta velha e, ainda vestindo, te ver chegar com
aquela calça desbotada e a camiseta surrada.Vou andar descalça e fazer planos para a paz do mundo enquanto escrevo poemas de
amor. Vou caminhar pela praia desenhando com os pés na areia o que as ondas vêm e levam
continuamente. Vou sentir o cheiro do mar nos nossos cabelos e esperar o fim da
tarde para voltar... voltar...Vou me fantasiar de cigana e ler as mãos imprudentes. Vou acreditar que as coisas
boas são as que acontecem sempre e as ruins os traços de união.Vou cantar sem me preocupar com beleza de voz, te acompanhar e, enfim, apenas me
deixar levar pela tua voz e teus acordes.Vou ser feliz a cada instante lembrando os amigos com os quais rio e festejo nas
noites e nos dias dos meus 16 anos. E ter a certeza de que pra sempre eles irão
fazer parte da minha vida.Mesmo que eu parta antes dos 100, ou mesmo da metade destes 100, os meus 16 anos
anos estarão gravados em mim. E a beleza deles irradiará de meu olhar quando as
lembranças florescerem espontaneamente. E um sorriso brotará. Como uma flor.

 

... One day in your life...


Publicado no Blog Certas Linhas em 2006



EM PRETO E BRANCO


Imagem da net


Era um dia preto e branco. Um dia assim meio sem a graça do sol e o cheiro da grama molhada. A vida tinha feito mais uma daquelas surpresas incríveis que nem a arte consegue imitar. Perdi a vontade de cantar "What a wonderful world". Fiquei muda um bom momento. E tenho a impressão de que chorei muito mais do que consigo lembrar.

Aquele dia durou muitos dias. Foi longo como uma música ruim. Triste como uma platéia vazia. Era para ter sido um dia comum. E foi. Não sei o seu número. Nem dele e nem das horas que ele me roubou.

Guardei aqui bem no fundo algo meio cinza e pesado. E a certeza de que tinha acabado de abandonar o palco de todas as esperanças. Tudo o que precisei fazer foi me despir. Porque nem me despedir valia mais a pena.

Preto e branco. Minha vida eu passei a viver em preto e branco.


("Always on my mind", Chris de Burgh soa doída)


Publicado no Blog Certas Linhas em 2006



 LEMBREI O QUANTO GOSTO DE DANÇAR...


 Paris, foto de Alexandre Toussaint


Hoje à tarde olhei uma velha (mais de trinta anos já passaram...) foto minha vestida de um longo vestido branco.

Lembrei que nesse dia, ou nessa noite, melhor dizendo, dancei muito, muitas valsas, a primeira delas inclusive foi até com meu pai (que detesta dançar!). Eu estava me sentindo linda, uma verdadeira princesa, dançava como uma princesa, sorria como uma princesa, me sentia feliz como uma princesa...

Com o passar dos anos muitas outras vezes também dancei, sempre feliz por ser uma das coisas que eu adorava fazer e era tão natural em mim... dançar, seguir o ritmo, o parceiro, participar da sequência das notas... deixar o corpo seguir o movimento livremente.

Eu tinha esquecido que gostava tanto de dançar! Deixei a vida fazer de mim uma mera espectadora. Tornei-me uma ouvinte. E esqueci o sabor de viver a música. Até rever meu rosto feliz de princesa dentro daquele vestido branco e lembrar que dentro dele vivi muitas, muitas músicas.

Fiquei com dor na coluna. Não posso nem pensar em dançar. Dever ser por causa de... de.... ah...


(Ouvindo extremamente saudosa "Under the Bridges of Paris"... mas vou dormir. E não vou chorar. Não vou.)


Publicado no Blog Certas Linhas em 2006



** No site certas imagens estarão colocadas apenas como "da net" porque infelizmente a gente procura o autor e não acha. Mas se a foto é sua, me diga tá!  Muitas imagens, mesmo com autoria, são encontradas ou recebidas por email. Caso não desejar que sua foto, com autoria ou não, continue publicada aqui é só avisar que ela será retirada. Obrigada!