Para quê, por quê, o quê? Eu não tenho a menor idéia do porquê a gente nasce. Uns dizem que é pra pagar contas de outras bandas e por isto a gente vem com uma mochila nas costas (pesada...) que chamam karma (tem que arrumar a vida bem ajeitada pra se livrar do tal peso). Outros dizem que é pra se tornar depois anjo ou demônio, dependendo de como a pessoa age por aqui: boazinha (Céu!), ruinzinha (Inferno nela!!!) ou... ups!, no purgatório vai quem mesmo?? E tem os que dizem que a gente veio só ocupar um espaço que depois será ocupado por um cachorro ou uma árvore. Ainda outros dizem nada. Nem querem saber. Mas eu queria saber. Queria entender. Se for pra arrumar a minha casa interior eu até posso tentar (a exterior nem me falem, sou a última das primeiras desajeitadas do universo, as vassouras correm de mim e os panos de pó fugiram pra outro mundo...). Mas até que ponto esta arrumação pode diminuir o peso da mochila, me fazer ter asas ou chifres ou mesmo dar mais espaço pro próximo cachorro? Eu sinto que nasci para fazer alguma coisa. Sinto forte, bem no íntimo. Mas não tenho a menor idéia do que poderia ser. E mesmo quando eu me esforço pra encontrar a tal razão fundamental acabo ficando mais descrente, mais solitária e menos atraída por arrumações. Só não quero sair daqui sem assinar o livro da vida como alguém e não como alguma coisa. Não acho justo passar em branco, sair daqui sem deixar pelo menos algo de interessante. Se eu vou ou não conseguir é outra história. Porém não vou ser uma correntezinha de ar qualquer que nem dá calafrios. Vou dar um jeito de ser um boa ventania, derrubar coisas pela frente, mudar outras de lugar, espalhar pólen e assobiar...
Acho que não nasci pra ficar quieta... mesmo se adoro o silêncio.
Depois de ouvir Racionais MC's (1994) vim escrever ao som do Shivaree (Who's Got Trouble).
O que faz com que certas vezes a gente diga coisas que já saem da boca arrependidas? A dor. Ou a raiva. O medo talvez. Ou uma tola irritação. Todo mundo sabe o valor do silêncio e o peso imenso das consequências de palavras ditas sem pensar. Mas como é que se pode lidar com a impulsividade do momento, aquele momento, onde um sentimento que deveria estar contido vôa violentamente como uma adaga de cristal, fere profundamente e depois cai, mil pedaços espalhados pelo chão. Isto me acontece pouco, estes raios de sinceridade extrema ou de extrema raiva. Mas acontecem. Não é a réplica perfeita para aquela piada de mau gosto que infelizmente só vem no dia seguinte. E nem a idéia fumegante que chega durante a madrugada e o restinho de sono da manhã carrega consigo. São as palavras que saem de um sorriso irônico. Ou da cara sem sorriso. Mas saem sem a permissão daquele pedacinho do cérebro que governa o bem e o mal na sua vida. Pelo gosto de responder e pelo prazer de não ficar calada. A verdade é que em determinadas ocasiões o sabor chega a ser doce. Mas é raro.
(Calada, ouvindo Madeleine Peyroux, "Half the Perfect World")
Como e por quê dizer adeus ? Em que momento é possível perceber que um intervalo está chegando entre os dois tempos do verbo? Ele é... ele era..
Eu não sei. Como também não sei e não compreendo porque o adeus não pode ser algo objetivo e normal. Que obrigação tem esta palavra, carregada até os ossos de sentimentos, de ser tão dura, tão pesada, tão cheia dela mesma?
De todos os medos que existem espalhados pela vida e pela terra, eu escolheria o medo do adeus. E pouco me importa a forma. O tempo. As distâncias. Dizer ou ouvir adeus me seca a garganta e encharca os olhos. Meu corpo se contorce de dor e dentro de mim gritos estouram meus ouvidos.
Durante a caminhada, muitos adeus são trocados. E todos eles deixam uma pequena cicatriz. Hoje em dia observo que sobre minha pele e as cicatrizes parecem tatuagem, tantos foram os momentos de adeus. Cada som uma tinta, cada instante um desenho, pouco sobrou sem marcas. E como eu continuo a caminhar sinto e sei que ainda virão outros. De minha parte, ou da parte de outros que amo.
Porque também tem isto. Os “adeus” que tatuam a alma não são vulgares palavras trocadas entre conhecidos. São profundas agulhas de amor que marcam as despedidas entre seres que vão guardar eternamente em si o que for sentido ali, naquele instante.
(Ouvindo o meu medo, que cala todo o resto ao redor.)
Publicado antes em novembro de 2006 no Certas Linhas.
A palavra que sai muito rápido da boca e que magoa lá no fundo da alma que está na nossa frente nunca mais retorna para o nosso pensamento. A palavra foi o passo a mais. O passo que nos fez cair na armadilha da vaidade. Vaidade de fazer alguém se sentir mal, pior do que a gente, nem que seja por um curto instante. Este passo a mais é extremo e longo, seu destino é o abismo da dor surrada, aquele nó que dá pra não chorar nem de raiva e nem de pena de si mesmo. Quantas vezes perdemos a santa oportunidade de dar um passo para trás. Ou ficar parados. Calados. Olhando o teto ou o chão. E do outro lado, quantas vezes então olhamos para frente e vemos aqueles pés chegando a uma velociade alucinante, amassando o nosso humor, pisando o nosso dia... Se as pessoas pudessem ter uma mínima idéia de como é fácil esmagar profundamente alguém com simples passo a mais. Se elas pudessem entender que depois não é possível voltar, dar um passo atrás e pedir desculpas... o pedaço esmagado não volta mais ao normal. Mesmo que pareça normal. A dor deixa marcas. E as marcas em geral deixam dores. Que deixam marcas..
(Ouço triste Borodin, Prince Igor, Act II - Polovtsian Dances - algo tão lindo assim, depois de ouvir várias vezes só pode fazer a gente feliz e recompor a capacidade de perdoar qualquer um. Pode tentar, pelo menos comigo parece que está dando certo.)
Publicado antes em novembro de 2006 no Certas Linhas.
Gosto dos dias de chuva. Da paz dos dias de chuva. Da chuva de verão que nos convida a correr pelas ruas, pela praia, misturar no corpo a água do céu e do mar. Da chuva do inverno, que cai pesada como um cobertor, convidando ao aconchego e ao recolhimento.
Gosto de ouvir os pingos da chuva que, escorregando pelos vidros das janelas das casas e dos carros, desenham convites à imaginação.
E mesmo quando a chuva vem com raiva, trazendo com ela o vento, rugindo com os trovões e ameaçando com raios, eu ainda gosto dela. Sua cara de tempestade só me dá vontade de ficar em casa. Pra ouvir melhor, observar melhor as gotas que se aos poucos vão se unindo e formando lagoas, rios, ganham velocidade, vontade de invadir, coragem de crescer, criam corpo e quase se tornam outra coisa. Instantes depois, mesmo tendo feito estragos, acalma-se doce.
Só não gosto da chuva quando tenho que sair e ir para algum lugar e sei que lá não vou poder ouví-la... nem ficar olhando... nada.
(Ouvindo a chuva)
Publicado antes em dezembro de 2006 no Certas Linhas.
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