O que me tira o sono é o mesmo que me traz para a cama: o cansaço. Por causa dele desisto de fazer outras coisas, o corpo não sente vontade de nada. Deito, fecho os olhos e largo as amarras. Espero no porto um tempo antes de me dar conta que continuo ali, sobrecarregada de pensamentos, planejando a semana seguinte, me desesperando com fatos que já viraram a folha de trás do livro da minha vida.
Quero dormir. Quero dormir e insisto. Sacudo as pernas, o travesseiro. Apalpo no escuro qualquer coisa e encontro a lâmpada. Não quero luz. Mais um pouco. A garrafa de água. Bebo água, muita água. Levanto, vou ao banheiro. Passeio. Volto para a cama e insisto que minha longa viagem agora deve começar. Passo pelos livros. Vejo de longe o computador. Não. Nada.
Quero dormir. Deito novamente, invento uma posição misturando coisas que li sobre o que poderia fazer bem e abandono. Solto tudo.
Ainda sinto o cansaço arrastando seu peso sobre meu corpo enquanto uma voz longínqua tenta abordar meu navio: - “...e quinze... levantar... é hora...”. Oh, universo insensível.
Viagens tão curtas não descansam sequer meu corpo, que dirá minh’alma...
(Cantava minha vó para mim Que Sera Sera (Whatever Will Be, Will Be) e eu adormecia, pequena, docemente. Hoje canta através do computador Doris Day e a lembrança é doce. Talvez eu adormeça, saudosa, sorridente.)
Publicado originalmente no Blog Certas Linhas em 2007
Os dois formam um par perfeito. Não viveriam um sem o outro. Seria impossível. Precisam de toda a atenção e por isto também buscam, não importa como, não importa o preço, mobilizar a atenção do máximo de pessoas possível.
Ele é egoísta, frívolo, mas precisa ser assim altivo para se manter vivo e em evidência. Ela, bem pelo contrário, é sorrateira, quase nem aparece, é a pobre coitada que uma ou outra vez consegue mostrar sua extenuação diante do mundo, seu extremo desgosto, seu sofrimento sem remédios.
Ele e ela consomem com tamanho fervor aquele que se abandona, que no final nem os olhos podem mais esconder. Nem sorrisos, nem a voz. Só o silêncio pode ainda fazer de conta que a bondade continua a existir no interior.
Ele, o ego. Ela, a vítima. Pobre de quem se deixa manipular pelo próprio ego e consumir pelo próprio sentimento de vítima. Esqueceu de dar o passo seguinte, o pequenino passo em direção a qualquer lugar. Estagnou.
E agora, encolhido num canto de sua vida, aguarda amedrondado que alguém possa vir tomar o seu lugar... ou levanta os olhos argutos para tentar com eles abocanhar algo de outras pessoas para si próprio.
Os limites, foram perdidos há tempo. O ego sabe. Mas a vítima negará. Sempre.
(Jose Carreras e sua voz maravilhosa entona "Il trovatore" (Verdi))
Publicado originalmente no Blog Certas Linhas em 2007
Crescer me dá vontade de chorar. Ter que ter opiniões, afirmá-las e confirmá-las. Dizer pras pessoas que penso, sim. E que muitas vezes tenho pensamentos diferentes dos delas. E que sinto coisas, e que as coisas passam e que mudo de sentimentos. E que noutras vezes também não sei o que quero.
Crescer me incomoda. Porque é pior do que ser pequeno. Quando se é pequeno a gente tem tudo isto, mas tem também alguém pra dizer se a gente tá certo ou errado. E aí a gente se baseia nisto e fica com a melhor idéia. Porque estas idéias aí se chamam conselhos e quando se é pequeno a gente sabe que é melhor ouvir e cumprir os conselhos. É até mais facil, tudo prontinho.
Crescer me dá dor de barriga. Por ter que falar pras pessoas o que penso e às vezes ter que calar exatamente o que tenho vontade de gritar. É um certo medo de desagradar que é preciso enfrentar, porque se cresceu... e gente crescida precisa ter limites.
Crescer me faz morrer de vontade de ir pra casa, deitar embaixo de um acolchoado bem quentinho e pedir pra alguém grande me fazer um cafuné, me dar um copo de água e me deixar dormir. No quietinho cantinho do quarto. Porque os horários, as pessoas, o tempo, as obrigações... tudo é muito forte, pesa muito... quando se é grande.
Crescer me deixa com o coração chateado. Todo mundo sabe que a gente é grande e que, por causa disto, a gente pode se cuidar sozinho. E deve. E aí as pessoas ficam bravas com a gente pelos motivos delas e nem vem se desculpar com a gente. Porque não é ruim pra ninguém brigar com outro alguém grande.
Crescer me deixa os nervos fervendo. Me tira o bom de me sentir bem no meu canto porque sempre tem algo a ser feito, algo a ser pensado, alguém a espera, qualquer coisa a esperar por qualquer coisa que se tenha que fazer ou dizer.
Crescer me irrita e me constrange. Ter que olhar no espelho e não ver mais quem eu conhecia, só ver e rever aquela pessoa que todos afirmam que sou eu, que conhecem e que nem eu sei se conheço mais. Assumir uma cabeça que pensa e um corpo que tem desejos que nem se queria saber antes se existiam. Desejos que não são mais de fome e nem de sorvete.
Crescer me deixa com tanto cansaço...Por ter tantos papéis e ter que representar a todos em tantos momentos diferentes quando tudo o que eu queria era ser pequeno no colo de alguém que ainda me visse pequeno.
E o pior de tudo é o medo que crescer me dá. Porque quando bate este medo na gente, a gente sabe que já cresceu. E aí não tem mais volta.
(Give me the good news, canta Crocodile Harris em um disco de 1984) *Obrigada Danilo por tantas imagens inspiradas.
Publicado originalmente no Blog Certas Linhas em 2007
Ninguém morre em silêncio. Mesmo aqueles que tentam o subterfúgio involuntário do anonimato. Atrás de cada porta o coração cessando de bater deixa ciente o cérebro. E este último, mesmo sem voz, guarda consigo as lembranças. E nenhuma lembrança é calada.
A morte quando chega, chega aos gritos... mesmo quando chega aos poucos. Ela assusta, amedronta ao ponto de pensarmos que é possível nos acostumarmos com a idéia de conviver com ela. Engano! Sua chegada, breve! e sua partida levando alguém, leve!, quanto nos faz sofrer.
Caímos no lugar-comum, nas palavras e nos sentimentos repetidos ao longo de nossa vida e todas as vidas que estão ao nosso redor. É impossível subtrair-se à dor. Ainda mais sabendo que dor nenhuma traz consigo tempo de validade, não avisa e não se tem a menor idéia de quando vai acabar.
Choramos com ela e por ela. Choramos por quem parte e por nós mesmos, ah!, muito mais por nós mesmos que ficamos de maneira egoística repisando todos os solos pisados em comum e negando liberdade a ambas as partes.
Ninguém morre em silêncio. E em silêncio não fica nenhuma vida ao redor. A antecedência, em fatos assim, é inexistente. Pouco importa se trombetas de longas moléstias já a anunciavam, ou se a surpresa quis ser o que nunca seria.
Só quem vive, e quando vive, sabe em que terreno está. Só quem morre, e quando morre, sabe para que terreno vai.
(Amanheci em silêncio. A cabeça dóí, então nada de músicas....eu preciso tanto de músicas...)
Publicado originalmente no Blog Certas Linhas em 22 de junho de 2007
Eu não sei dançar. Eu não sei escrever. Eu não sei. Com estas palavrinhas na frente e a vontade infinita na forma do verbo no infitinivo logo depois, muita gente deixa de fazer muitas coisas na vida. Deixam passar oportunidades de viver momentos que poderiam ser especiais, muito especiais. Ou talvez simplesmente deixam de expressar o que sentem. Mas deixam. E alguma coisa dentro delas fica lá, morrendo, minguando.
O que leva alguém que sente o ritmo fazer suas veias balançarem, seu sangue correr mais forte, responder a um convite da música ou de outra pessoa com um simples: "Eu não sei dançar!"?
Talvez o mesmo que leve uma pessoa ávida de dizer o que sente de abrir a boca e falar diante de outras ou escrever o que sentiu e mostrar...
Dançar e escrever são só dois exemplos. Mas poderiam ser muitos outros os verbos que acompanham o "eu não sei" envergonhado, tímido, raivoso, calado, nunca dito, negado, gritado, chateado, insistido, apavorado. Exemplos do medo de errar. E de, errando, aparecer diante dos outros como "aquele", "aquela", que cometeu, que fez, que errou.
E alguém lá me diz qual é o problema em errar?? Se todos sabem que erro é justamente o novo do tijolinho amarelo que constrói o caminho para o aprendizado?
E quem é quem para ficar chamando de errado um ritmo que se manifesta desigual no corpo de outrem ou uma palavrinha que a velha língua esqueceu se é com dois esses ou com ce? Qual é o problema tão sério aí?
Para mim, problema sério é levar a sério os vigilantes do erro. Porque todo mundo erra. Graças a deus! Imaginem uma festa na qual ninguém vai se levantar para dançar porque o tango que está tocando... ou uma conversa gostosa entre pessoas que você conhece pouco mas que adoraria participar mas... ficou com medo de errar. E não foi, não fez. E como você, todos. Salão vazio, silêncio na sequência das conversas...
Querer aprender mais para fazer melhor é ótimo, mas deixar de fazer para não errar é malíssimo. Porque o medo de parecer é pior do que errar, é sinal que está faltando uma coisa muito gostosa que se chama confiança, amor, orgulho. Tudo isto em si, por si, de si mesmo.
Quem se ama pode hesitar mas vai dançar. Vai escrever. Vai arriscar. E mesmo se importando com a opinião alheia vai se importar muito mais consigo mesmo e vai seguir. Vai viver.
Cultural e socialmente falando, sabemos uma ou outra coisa com excelência, certas coisas muito bem, muitas outras bem, um monte de outras mais ou menos bem e mais uma infinidade de outras do nosso jeito. E quem disse que o nosso jeito é errado? Quem ditou as regras?
(Chico canta Luíza, ouço os Songbooks de Tom Jobim repletos de maravilhas como esta)
Publicado originalmente no Blog Certas Linhas em julho de 2007
** No site certas imagens estarão colocadas apenas como "da net" porque infelizmente a gente procura o autor e não acha. Mas se a foto é sua, me diga tá! Muitas imagens, mesmo com autoria, são encontradas ou recebidas por email. Caso não desejar que sua foto, com autoria ou não, continue publicada aqui é só avisar que ela será retirada. Obrigada!