CICLO INEVITÁVEL

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São três os tipos de erros que costumamos carregar nas costas durante toda a vida: os dos nossos pais, os de nossa juventude e os que fazemos pelos nossos filhos.

Nenhum destes, se for comparado a uma ferida, terá sua cura imediata. Algumas destas feridas estarão lá sempre abertas, jorrando de si o que não há de negar-se putrefato. Outras, poderão ser amainadas pelo tempo, que conforme vai passando, vai alargando os horizontes e fazendo florescer a compreensão.

Quando nos tornamos adultos e assumimos as responsabilidades sociais reconhecendo-as antes do indivíduo, começamos a entender ligeiramente nossos pais. Começamos a perceber o peso que carregavam, observamos cada um deles do mesmo patamar da idade, sentimos a carga das obrigações, o receio das necessidades. E aí, mesmo se as feridas ainda estão ali e ainda dóem, elas passam a doer menos porque o tempo nos colocou em posições iguais fazendo disto um bálsamo de compreensão.

Nossos tropeços de juventude são calos, espinhos, farpas... são tatuagens que fazemos para a vida toda. Cada um deles, por menor que seja, um belo dia futuro há de ecoar em nossas vidas apontando exatamente para aquele dia e dizer: eu tinha razão! Mas o que é difícil até para nós mesmos depois quando chegamos à vida adulta, é lembrar que ser jovem é justamente poder tentar. E poder tentar é poder errar. São tentativas. É aprender pelo erro e acerto. E aqui, o tempo vai, como uma sucessão de remédios caseiros, substituindo a dor de um erro pela dor de outro. Nada mais.

Os mais duros e mais ingratos são os erros que cometemos em nome de nossos filhos. Por eles fazemos e dizemos coisas. Atos e palavras que chegam para tentar remediar o que na nossa infância, na nossa juventude, não tivemos, tivemos pouco, ou tivemos da forma errada. E acabamos por perpetuar os erros dos nossos pais, dos nossos avós... Com as melhores intenções fazemos tudo para eles, por eles, estes filhos que queremos que sejam... exatamente aquilo que não pudemos ser um dia.E assim esquecemos que eles, como nós também o fomos e somos, são únicos, são diferentes, têm seus próprios ideais, seus próprios medos, seus próprios sonhos. Estes erros, estas feridas, não desaparecem com o tempo... pelo contrário, vão crescendo, dia a dia junto com eles, os filhos. E vão se somando a todos os outros erros que vamos cometendo... E estarão sempre lá, olhando para nós, nos chamando de mãe, pai... como que apontando e perguntando: por que?

Até que um novo ciclo se inicie.

(Estou ouvindo Ivan Lins que neste momento canta "Depende de Nós"...)

Publicado no Certas Linhas em dezembro de 2007



O NATAL E AS BOAS INTENÇÕES


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Começou de novo. A santa época das boas intenções. É um tal de feliz natal pra lá, feliz natal pra cá que só quem tá chegando agora por aqui ou é muito apegado às tradições consegue suportar.
De repente, ficou combinado pelos ares que durante o correr do mês de dezembro até ali, digamos, os primeiros dias de janeiro vai, todo mundo tá perdoando todo mundo sem levar muito a fundo as histórias e sem cutucar muito a faca onde não deve. O importante é sorrir e demonstrar as boas intenções.
Exatamente. As intenções. Só as intenções. Porque ninguém falou em cumprir nada. Ninguém tá prometendo e levando papel assinado de presente. E nem vai levar. Os cartões, antes postais (e que pelo menos davam o trabalho de ir ao correio) agora são virtuais. A mailing list é preparada, separada (de vez em quando) por amigos próximos, nem tão próximos, conhecidos e internéticos e puf! Instantaneamente partem milhares de votos de muito amor e muita saúde neste lindo natal.
Confessem, por uma vez na vida, confessem. Não tem data mais chata do que esta. Quem tem a família viva (ou unida) fica torcendo pro jantar acabar rápido para poder se mandar, encontrar uma turma ou um (a) namorado (a) e curtir o feriado. Quem nem tem família (ou tem desunida) quer mais é que os sinos vão dobrar na casa do... padre, que os perus sejam vendidos o ano todo e que estes malditos pinheiros enfeitados desapareçam do cenário pra sempre.
Qualquer um pode agir de bom coração várias vezes por ano sem sequer fazer publicidade. Passar a mão na cabeça de um amigo triste, visitar doentes desconhecidos, doar um dinheirinho que sobrou para aquela causa nobre, dar uma mão para quem precisa... Mas ter a obrigação de demonstrar boas intenções, aliás, excelentes, todas em tons de vermelho, verde e branco... durante um mês... haja saco (de Papai Noel que não existe, mais uma que se tem que segurar e engolir!).
Noite de natal é a noite mais enganosa que existe. Ela é o cúmulo, o ápice do dezembro insidioso que se alastrou por todos os lares, infestando os corações com uma falsa paz, obrigando bolsos a se revirarem do avesso para que pais possam assumir o papel de papais-noéis que as crianças já não crêem (e já conseguem até mesmo, inteligentemente, de forma quase pérfida, enganar alguns parentes desprevenidos do avanço infantil...).
Bem, como eu sou uma pessoa de bons propósitos não poderia ficar fora do período natalino. Por isto vim aqui derramar minha baba cáustica. Na esperança de retirar um pouco do nevoeiro que este período demasiadamente doce provoca durante todo o dezembro para depois deixar o vácuo, o amargor, certas raivas... ou uma beatitude completamente desnecessária para viver neste mundo.
E, como tantos já disseram que, "de boas intenções o inferno está cheio", não vamos contribuir para superlotar o condomínio do demo, minha gente! Deixem as boas intenções de lado, quem tiver a fim de agir bem aja, que não estiver, nem finja. E que se dane essa coisa de natal. Não se preocupem. Daqui a pouco passa.


Publicado anteriormente em dezembro de 2007 no Blog Certas Linhas



O MAL NATURAL


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Nestes tempos onde a escassez de luz é mais viva do que qualquer outra coisa, nunca vi tão claro. Até os sonhos têm sido assim. Neles as pessoas têm aparecido como querem e insistido em me dizer coisas que não quero e nem faço questão de ouvir.

Na noite passada, nas horas do supremo descanso, ou seja, quando no máximo eu deveria estar sonhando com algum anjo ou com o espírito completamente alheio, eis que fiquei familiar com certas criaturas - seria um pouco engraçado chamar de gente - que lá estavam me explicando como e porquê, vejam só, faziam o mal. E eu, apavorada com a idéia, não compreendia e perguntantava e insistia e obtinha sempre a mesma resposta:

- Porque é natural. Porque somos assim.
E enquanto observava as artimanhas, como um espectador sem poder algum eu sentia diminuir o medo e aumentar a agonia diante da impotência. Não articulava palavras e meus olhos circulavam questionando. E a resposta vinha sempre, sempre a mesma:

- Porque é natural.

Mas para mim não é natural. Não consigo achar o mal natural. Mesmo que eu o veja em cada canto, que o sinta e saiba persistente. Não consigo achar que o mal seja natural.

Espero sinceramente que esta noite quando eu for dormir encontre a paz de uma noite sem um sonho sequer. Coisas assim já vejo acordada. Quando durmo sempre espero o bem...pelo menos quando durmo... pelo menos....

(Escutei Liverpool Express cantando You are my love, depois James Taylor e sua bela Old friend...)

Publicado anteriormente em novembro de 2007 no Blog Certas Linhas



O SONHO QUE SE TINHA


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Um belo dia a gente olha pra vida, põe as mãos na cintura, leva pra cabeça, desce de novo ali pras costas e, diante da evidência fala pra si mesmo:
- Aquele sonho eu não realizei.
E junto com as imagens do sonho não realizado, bem mais reais do que se tivessem se tornado parte da realidade e então, fotografados, agora fizessem parte dos álbuns de família, chegam certos arrependimentos e vontades meio descabidas. Como o de se perguntar: por que não??
Coçando a cabeça ou mexendo de um lado para o outro, a resposta é boba e mesmo que se inventassem coisas mais interessantes, elas acabariam por se reunir na mesma: não deu. Só isto. Não deu. O tempo passa, as prioridades mudam, certas coisas vão parar em gavetas. Reais e do coração. Taí onde foi parar, olha só, aquilo que um dia parecia que se não acontecesse nunca poderíamos ser felizes. Ai, a felicidade!
Esta aí, aliás, é outra. Idealizada, coitada, nem dá pra contar o quanto. A cada etapa da vida vai mudando de patamar, de forma, incluindo e retirando personagens, se moldando conforme aquela coisa terrível chamada mundo real manda. E manda, hein. E a gente obedece que ninguém é besta a viver só de sonhos depois de ter enfrentado certas idades e desilusões. Fazer de conta ali, de vez em quando, durante as pausas, entre um cansaço e outro, tudo bem. Mas fora isto, deixa quieto. O melhor é botar a cabeça exatamente no lugar dela, ou seja, em cima do pescoço (coladinha, de preferência) e continuar seguindo.
E o tal do sonho que eu não realizei?
Já ouviu falar de arquivo, minha filha?? Não nega que é feio... Todo mundo tem um arquivinho pessoal. Tem igual a qualquer repartição pública ou empresa privada: o ativo e o morto. E sonho que não se realizou até certa data, convenhamos, perdeu sua validade e deve estar lá, devidamente colocado no arquivo morto. Se não foi pra lá tem alguma coisa errada... ou com o sonho ou com quem tá sonhando. Hora de botar os pezinhos no chão!!! Hora de usar a cabecinha para coisas úteis.... que de já teve tem até um coisa que eu não gosto nem de falar.
Esperando um futuro melhor eu fico já arquitetando coisas. Mas aí eu já tô de novo entrando no esquema dos sonhos não realizados. E tem uma filinha de mais de dois, de mais de quatro. Tem assim uma boa meia dúzia que eu vou ter que decidir de uma vez por todas: arquivo morto? Ou será que ainda vou ficar com o carimbo “Espera Mais Um Pouco” na mão?
Sei lá... acho que vou começar a arquivar pela ordem dos pessoais e assim por diante. Como têm muitos, quem sabe quando chegar aos coletivos, que são ainda muitos, muitos mais, eu consiga colocar meu carimbinho “OK” pelo menos em um ou dois.
Eu não aprendo mesmo, acabei de inventar mais um sonho... assim não vai dar....


(Ouço coisas, ouço vozes... estou com saudades de ouvir músicas... acabei de pensar na Clara Nunes, cantando "Você Passa eu acho graça"... fico cantarolando aqui dentro de mansinho...) 

Publicado anteriormente em novembro de 2007 no Blog Certas Linhas


AINDA


Imagem: Wu Zhaoming - A still Afternoon


Acabo de acordar pela terceira vez no dia de hoje. Acordar o corpo tentando despertar o que dentro dele não aceita coordenar coisa alguma. De vez em quando penso. De vez em quando sorrio muito. De vez em quando choro. Muito. De vez em quando tenho certeza de que nada aconteceu. Ainda.

Espero o sol partir para agarrar as cobertas e sob este escudo salvador pedir à noite que me acalante e me adormeça. E quando chega a manhã, corpo cansado de nem mesmo sei o quê, vou à luta por coisas que não quero e nunca quis saber. Os olhos não querem fechar, mas fecham. O dia vai passando, leve pelas ruas que não reconheço mais. Tantos rostos que não reconheço mais. E vou tentanto me manter desperta, mas acabo adormecendo. Ainda.

Agora olho o relógio e observo que a noite já deu seu primeiro passo mesmo sem mostrar de si as cores e as estrelas. Eu vi o mar. Vi os morros bem verdes. O mar e os morros, eles estão lá, tão iguais a sempre que meu coração já os guarda fotografado na memória da alma. Mesmo que sejam de todos, e são, e talvez por isto mesmo, também são meus. Penso em levantar, ir lá, olhar de novo de perto... mas logo a dor vai chegar, ela está ali a espreita, eu sinto, eu vejo, eu rejeito e ela me persegue. Ainda.

Até todas as lágrimas serem um pouco menos duras de chorar e as palavras mais simples de falar e ouvir. Por enquanto, nem sou eu mesma. Mas penso que o sono, o cansaço e toda estranheza um dia destes vão partir devagar. Daí, espero ter tempo para ver e tocar minhas paisagens amadas... não posso simplesmente partir. Ainda.


Publicado anteriormente em novembro de 2007 no Blog Certas Linhas


** No site certas imagens estarão colocadas apenas como "da net" porque infelizmente a gente procura o autor e não acha. Mas se a foto é sua, me diga tá!  Muitas imagens, mesmo com autoria, são encontradas ou recebidas por email. Caso não desejar que sua foto, com autoria ou não, continue publicada aqui é só avisar que ela será retirada. Obrigada!