PARECIA EU.

Imagem da net


Achei esta foto entre muitas que recebo via e-mail. Na hora não vi nada de mais, apenas o título chamou minha atenção: solidão. Salvei nas "fotos recebidas e desconhecidas" e esqueci. Hoje, por puro acaso dei de cara com ela. E foi um choque. Parecia eu.

Parecia eu há muitos anos atrás. Se tirasse a árvore e colocasse a lagoa, seria eu sentada nas pedras do cais da Laguna. Exatamente como eu me penteava muitas vezes, exatamente como eu ficava, horas e horas, observando sozinha o horizonte nada distante.

Naquela época eu achava que só existia o tipo de solidão que eu adorava, ou seja, ficar sozinha pensando, escrevendo, observando. Precisei de muitos anos para conhecer os outros tipos de solidão, inclusive alguns que me assustam e outros pelos quais me apaixonei. Olhando a foto não me deu vontade de ter novamente 15 ou 17 anos. Mas me deu uma vontade enorme de sentar lá, no mesmo cais, na mesma Laguna das minhas lembranças tão antigas. Só pra poder esquecer as distâncias e o tempo e então acreditar de novo que solidão é somente aquela ali.


Publicado no Blog Certas Linhas em novembro de 2006



ENXAQUECA (ATÉ O NOME DÓI)


Imagem da net


Quem já teve sabe do que estou falando. Quem nunca teve tomara que nunca fique sabendo.
Tenho enxaqueca desde menina. Do frio. Do calor. De ler. Da comida. Cada uma que vinha trazia uma causa diferente na tentativa de achar o que fazer para nuncar mais tê-la novamente. Depois vieram os hormônios, o stress. E de novo as mudanças climáticas. E ainda todas as bebidas e comidas. E os olhos cansados. E o computador. Milhares de compridos e anos depois tudo continua a mesma coisa: as dores continuam fortes, as causas misturadas com agonia.
Já experimentei muitos tipos de remédios, já fiz tratamentos naturais e alopáticos e ela continua a vir com inesperada frequência. Já desapareci com a fonte de hormônios, não bebo álcool, não fumo, tomo um cuidado danado com a alimentação... e ela continua aí.
Aprendi a trabalhar com ela, suportando a claridade, os sons, os cheiros, tudo o que me incomoda e faz com que no fim do dia eu não tenha sequer mais um pedacinho de calma dentro de mim. Se estou trabalhando, chego ao final do expediente, dou o último sorriso como se fosse o último suspiro e corro para casa, para a cama. E vou tentar dormir com a esperança que ela desapareça. Se estou em casa, me jogo num canto e tento dormir. Com a mesma esperança.
Os enjôos, o estômago ardendo, os nervos à flor da pele, o rosto envelhecido, o corpo extremamente cansado. Sou, como tantos, prisioneira da enxaqueca. Sempre esperando que um remédio encantado venha me libertar deste cárcere.
A esperança ainda é gratuita...

(Pensado e escrito por Jacqueline, no máximo de silêncio possível. Hoje, nem Bach consegue aplacar a minha dor.)


Publicado no Blog Certas Linhas em novembro de 2006



SOLIDÃO NÃO TEM IDADE


Imagem: "Solitude", pintura de Ken B. Miller.


E seu eu for passar o resto da vida sentindo o que sinto agora? Foi no exato instante em que esta idéia começou a me assombrar que pensei que era preciso fazer alguma coisa.
Aos 15 anos eu nem dava importância. Aos 20, achava que era o fim do meu mundo e me refugiava entre rochedos invisíveis. Aos 30, um pouco resignada, tentava opções variadas para sair dessa. Aos 40, virei minha vida ao contrário, busquei todas as opções possíveis para eliminar a sensação. Agora estou com 45. E o sentimento de solidão continua aqui, abraçado aos meus olhares e palavras, fazendo parte de tudo o que sou. Não é motivo para desespero. Só para desalento.
A solidão do quarto calado com suas luzes apagadas para mim não existe. Ali estou sempre acompanhada pelos sonhos. Mas a solidão do dia-a-dia, no meio de tanta gente, na rua, no trabalho, em casa... esta insistente melancolia não me dá muita coisa boa para sentir. Por vezes tento, em vão, ir em direção aos outros, tentar estabelecer o que tanto se fala hoje em dia: comunicação, relações interpessoais, uma vida normal entre outras pessoas. E vem o tédio da inadaptação. E a cada passo que dou em direção a estes objetivos, dez outros me jogam para trás. Dez passos de tristeza, saudade e outras coisinhas do mesmo gênero. Bobagens mortais.
Por motivos assim é que, mais do que nunca, percebo como é bom escrever. Mesmo que seja somente como uma forma de tirar do meu copo as gotas que transbordam.


(Escutando – pela terceira ou quarta vez – Do fundo do meu coração – Eu adoro o Erasmo, a voz dele tem tanto carinho...)


Publicado no Blog Certas Linhas em novembro de 2006


EU TAMBÉM ESTIVE LÁ


Imagem: Pintura de Regina Wirsich Roberts



Uma das coisas que faço com maior prazer é ouvir músicas. Coloco um disco pra rolar, não importa o suporte, e viajo. Em casa, na rua, no trabalho. Na cama, arrumando o armário, no computador. Carnaval e pingos de chuva. Movimentos de AC/DC e de Madredeus. Balanços de Ana Carolina e Diane Reeves. Sublimando o evidente do que ultrapassa os ouvidos e se embrenha até o coração.

Passo horas da minha vida compondo trilhas sonoras para diferentes momentos. Autores e intérpretes variados como as línguas e os rítmos. Uma delícia. Cada uma me conta história. Com algumas me identifico, nossa!, nem dá pra explicar, parece que fui eu mesma quem escreveu ou compôs. Outras músicas despertam lembranças distantes, amontoadas lá no fundinho da minha cabeça.

Percebi que muita gente gosta de ficar descobrindo músicas para compor a trilha sonora da própria vida. Tentei fazer pra mim também. E aí descobri que já tive tantas vidas nesta vida aqui que eu iria acabar tendo mais trilhas sonoras do que os canais de TV e suas novelas. Teria uma trilha sonora para momentos diferentes. Para a entrada e a partida de pessoas na minha vida. E também para as minhas mudanças de humor, para as minhas viagens (astrais e reais), para as histórias de amor, para os sonhos perdidos... uma infinidade.
Como neste momento em que estou aqui escrevendo e passei por: Beto Guedes, Fagner, Baden Powell, Gal, Chico, Tom, Ivan Lins,Gil... e poderia continuar, continuar, continuar. Até o infinito, porque eu também já estive lá.


(Eu escrevo aqui e Guilherme Arantes canta pra mim: Cuide-se Bem) 

Publicado no Blog Certas Linhas em novembro de 2006



SOU ORIGINAL


Imagem: "Femme IV' de Geneviève Hugon.


Hoje de manhã estávamos falando sobre moda. Falei sobre o fato (bastante chato) de que as mulheres reparam em tudo (Gente, que brinquinho lindo este seu... pintou o cabelo ontem, foi?); lembram de tudo (Menina, aquela blusa azul que você usou terça passada era uma graça!); querem saber de tudo (O colar que você usou semana passada com a blusa rosa (?) e a saia verde (?) foi você quem fez?). As mulheres adoram trocar idéias sobre tudo o que elas vão usar amanhã e que detestariam que as outras usassem também. Mas vão usar. Porque é moda.

Foi aí que pensei o quanto eu detesto este tipo de clonagem. Detesto fazer parte do rebanho das "Dollies". Me incomoda este sistema que regula a beleza de uma pessoa pelo peso do corpo e as cores e as marcas das roupas.

Falei que prefiro ser original.

Original, ele disse?

É, original, disse eu.

Não gosto de seguir moda, gosto de criar a minha moda, inventar os meus acessórios, incrementar o meu estilo, "entortar" as "regras de estilo" e existir de outras maneiras.

E expliquei: tudo aquilo que as línguas não conseguem (ou não querem) qualificar ou explicar, chamam de original.

Não é bonito, não é feio... é original.

E eu diria ainda, diferente, único, especial.

Egocêntrica?

Não...Original!


(Hoje estou em ritmo de James Bond - desde o início até este novo - e muito original - Bond)

Publicado no Blog Certas Linhas em novembro de 2006


** No site certas imagens estarão colocadas apenas como "da net" porque infelizmente a gente procura o autor e não acha. Mas se a foto é sua, me diga tá!  Muitas imagens, mesmo com autoria, são encontradas ou recebidas por email. Caso não desejar que sua foto, com autoria ou não, continue publicada aqui é só avisar que ela será retirada. Obrigada!