DESCOBERTAS DE SEMPRE

Imagem: Mother


Quando meus filhos eram pequenos eu aprendi muitas coisas boas (entre elas para a auto estima!) com o fato de ser mãe.
Os bolos que eu aprendi a fazer somente depois que eles nasceram, por exemplo, e que nem de longe poderiam aparecer perto de uma confeitaria, tornaram-se “os bolos da mãe”: Faz um bolo, mãe? Daquele teu, mãe? A voz dos anjos, pedindo como uma canção para o coração!
Falando de voz e de canção, imaginem o exercício noturno de cantar para filho dormir! Nada de canções infantis, infelizmente meu repertório era zero. Mas eu tinha melhor: uma coleção fabulosa de sambas-canções, marchinhas de carnaval, boleros e até uma especial que eles adoravam e sempre pediam o repeteco: “Eram duas caveiras que se amavam, e no cemitério se encontravam...” e a gente morria de rir juntos (a gente ri disso ainda hoje, principalmente quando eu desafino o primeiro refrão só pra lembrar).
Nem falo da beleza! Tem coisa mais fabulosa do que a corujice recíproca entre filhos e a mãe? Nada! Os nossos filhos são sempre os mais lindos! E, para o ego da gente (graças!) eles nos acham a mais bonita. Mesmo envelhecendo, engordando, se enchendo de cabelos brancos e estradas de rugas. As únicas vezes em que a gente fica feia (e chata) é quando diz não. Ou briga. Ou dá umas palmadas.
Volto ao berço saudosa. Lá quando eles ainda nem falavam. Quando só sorriam. Quando eu pensava que seria praticamente impossível fazer alguma coisa direito por eles, chorava em silêncio desesperada com medo até de dormir e acabar machucando um. Quando morria de medo que qualquer coisa de ruim pudesse acontecer com eles. Tão lindos. Me sentia a mais forte e a mais frágil das criaturas. Era toda amor por eles. E sou. E serei. Só hoje eu sei que vai ser assim até o fim da minha vida. Mesmo que eles tenham 70 e eu 92. Coisas de mãe que a gente descobre todo dia.
A minha deve saber do que estou falando. E a dela com certeza sabia também. Todas nós sabemos. Cada uma da nossa maneira. Essa é a perfeição da maternidade: não poder ser perfeita, poder amar. E descobrir sempre, amando sempre, sempre sendo amada.
Amém.


(Estou ouvindo Vinícius, mas já perdi a conta de tantas as músicas... eu adoro ele cantando, declamando, conversando.) 



AQUI NA TERRA MESMO


Imagem: Dream, by John Pitre


Entrei no laboratório sem pressa para fazer aquele exame. Nem prestei muita atenção no ambiente. Ou pelo menos tentei não prestar muita atenção.
Preenchi pela enésima vez a ficha de inscrição, me dirigi ao pequeno trocador de roupas e em seguida estava pronta para entrar no túnel do tempo.

Tá. Túnel de IRM. Túnel do tempo é só o nome que eu dou pra ficar mais simpático e parecer que estou fazendo alguma coisa mais interessante que um exame médico. Aquele túnel caramelo grande, móvel. As máquinas em volta, cheias de pequenos botões e luzes, me lembravam justamente o seriado da infância. Infelizmente sem os índios, os robôs, e demais personagens.

E tinha a enfermeira, técnica, médica. Sei lá o que era. A maior preocupação dela, com aquela cara de quem estava pronta pra me enfiar uma camisa de força, foi com uma possível fobia:

- Já fez o exame antes?

- Já.

- O barulho pode...

- Eu não me incomodo com o barulho...

- Mas é um som bem alto e ....

- Eu não me incomodo com o som alto. Nem um pouquinho.

Ela me olhou como se eu viesse de um planeta vizinho. Sorriu de leve.

- Então pode deitar. Mas fique sabendo que a cama vai entrar no túnel e...

- Não me incomoda que a cama fique lá dentro...

- Mas o exame vai durar mais de uma hora e ...

O que ela estava querendo? Me dar medo? Provocar em mim uma sensação de tortura?
Causa perdida. No cansaço que eu estava, tudo o que eu queria é que ela ficasse quieta e começasse logo. De uma vez por todas.

Algumas palavras depois ela desistiu de me assediar, me avisar, qualquer coisa. Me tocou pra dentro do túnel com toda a vontade, saiu da sala e largou o som.
Vai, DJ! Solta o heavy!

E eu, logo que começou o barulhão, dei tchau pro mundo e... dormi.

Dormi mesmo. Aproveitei o momento de paz gloriosa e dormi. Uma hora sem nada pra fazer além de não me mexer. Sem telefone, sem trabalho, sem obrigações, sem intempéries.

Oba! Só relaxar e nem pensar... o sonho!


(E lembro alegre do momento com Zeca Baleiro e seu "Heavy Metal do Senhor")


Publicado no Certas Linhas em janeiro de 2007



NOSSOS 15 ANOS


Convite de meu baile de debutantes


Quando minha filha estava perto dos seus 15 anos perguntei se ela queria uma festa de aniversário diferente. Diferente? Não, ela não queria nem festa. Perguntei então se queria participar, como eu, de um Baile de Debutantes. Ela não riu. Não riu e nem respondeu. Fez aquela careta do tipo: tá ficando doida, mãe!

Seria fácil demais dizer "os tempos mudaram". Eles mudaram mesmo. O tempo passa e a gente muitas vezes se perde dentro dele. A sutileza para compreender o tempo está em deixá-lo exercer seus poderes... sem interferir.

Hoje ela está com 23. Outro dia, arrumando papéis (coisa que ela adora fazer, como eu) olhamos juntas o convite do meu baile e falei: Vou passar no scan e colocar no blog. Ela sorriu. Mas foi um sorriso de: é mesmo, mãe, é tão bonito!; enquanto lia o que estava escrito.

E aqui está o convite. Esta é a capinha, em seguida coloco o "miolo".

Posso dizer que foi um baile lindo, inesquecível. Meu vestido eu nunca, nunca pude esquecer. As músicas, as pessoas, nosso "desfile" todo cheio de "pose". Um coroamento para os meus 15 anos. Não me arrependo nem um pouco, pelo contrário, digo que foi uma das mais belas noites de minha vida.

(Em 1976 a gente ouvia muita coisa boa, mas Rod Stewart fazia qualquer coisa com "Sailing"... que ouço agora. Enquanto escrevia ouvi também de 76 Peter Frampton "Show me the Way" e Elis Regina " Como Nossos Pais")

A parte interna do convite para o Baile de Debutantes de 1976. Que baile hein!

Meu vestido foi desenhado pela tia Naná (cinco saias!!!), confeccionado pelas mãos de fada da prima Marisa. Um presente de meus avós Abelardo e Yvonne.

Minha primeira valsa dancei com meu pai, Richard. A segunda, com meu padrinho, querido Binga (Gilberto Pinho) e a terceira com meu namorado na época Marcelo Pinho.

Ainda tenho fotos do baile e me pergunto se outras debutantes teriam...


Publicado no Certas Linhas em janeiro de 2007



E LÁ SE VAI...


De Carmen Miranda


E lá se vai ele, o carnaval tão esperado. Estes poucos dias que provavelmente são para muitos os mais esperados do ano. Aliás, não posso negar, já o foram para mim também. Épocas em que eu me dividia entre o carnaval de rua e o dos salões, foliona alegre, indo de turma em turma sem perder a alegria. Num destes carnavais desfilei num concurso do Clube Blondin com a fantasia de Carmen Miranda confeccionada pelo amigo Léo. Toda feita em botões, ele me olhava orgulhoso e dizia: "Vai lá, defende pra mim"!

Eu fui, muito feliz e cantando "Taí", desfilar a fantasia do Léo. Cantei, fiz passos de dança... e no meio do desfile caí de joelhos (só aquele lá em cima pra saber a dor que eu senti...)! O público silenciou, as palmas rarearam e quase tudo parou por alguns segundos. Senti o peso do silêncio e então, como numa peça de teatro do grande Jairo Barcellos, num gesto rápido ergui os braços e continuei: "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim..." e as palmas e os gritos recomeçaram...

Resultado: Emocionadíssimo, Léo recebeu o prêmio de primeiro lugar. Me abraçava feliz quando um amigo chegou perto de mim e falou:

- Menina, que show! Aquela hora que ficaste de joelhos, por um instante eu jurava que tinha sido um tombo... mas ficou ótimo!

Ai, ai. O sucesso dóiiiiii. Depois desse aí não teve outro não. Foi filho único.


(Cantando Taí - sozinha pra que ninguém ouça - só pra lembrar!)  



DISCUTIR A RELAÇÃO


Imagem "Relationship' de Art By Wicks


Hoje à noite fui convidada para participar de um evento profissional (acho que comecei errado: o verbo não é bem “participar”, o melhor seria “assistir”). Neste evento, a grande "chamada" do convite para incrementar a participação (?) era a importância do que teríamos a dizer. Algo do gênero “discutir a relação” entre casais, sendo o empregador o homem e o empregado a mulher. Deu pra sentir no que dá este tipo de conversa? E quão ativos serão os participantes?

Mulher (leia-se empregado, se quiser) que é inteligente, sabe muito bem que relação não se discute com palavras, mas com atos. Homem (pode ler empregador mesmo)não tem paciência para ouvir falar “daquela vez” ou “quando a gente era” ou “se a gente fizesse”. O ideal é viver e trabalhar a relação a cada dia. Em pequenos gestos mostrar a direção que poderia ser tomada. Sugerir com elegância e aceitar sugestões sem espernear. Dar o melhor de si, com consciência, vontade e amor. Mesmo se não for o sonho, a vocação, o ideal. Em geral temos tendência a culpar o empregador (leia-se o homem?) por todos os problemas que temos no trabalho (em casa?). Mas se nós (leia-se mulheres?) também levantamos todos os dias já com a nuvem preta sobre a cabeça anunciando chuva e tempestade... é...não é o sol que vai aparecer... E se ver que não dá mesmo e já cansou ou não quer mais tentar, poxa...desocupa, sai de cima! Dá lugar pra outro que o mundo tá cheio de gente querendo trabalhar (e precisando de par!).

Pensando bem, vou lá ver o desfile de chefes. Deixa pra lá. São quatro vezes por ano. Quatro dias de glória pra eles, lá no pódium, contando os pontos e recebendo os louros. Não me custa nada, poxa. E depois, presentinho de chefe, ainda tem um coquetel.

(Ouço Ben E. King - Stand By Me, muito bom, muito mesmo)