AINDA BEM QUE NÃO PEGA...

Imagem da net


Tem gente que é burra, mas tão burra, que infelizmente nem dá pra ficar magoado. Gente que nos faz mal mas só dá pra ficar com dó. E se pensar em xingar, esquece. Nem pensar em xingar com elegância, não serve pra nada...

Lembro de algo que aconteceu muitos anos atrás.

Meu pai, sempre entre seus jornais e suas pinturas, chega em casa e proclama:

- Desta vez ele vai ver! Dei uma dura! Escrevi umas coisas sobre ele que não vai ter jeito... não vai aguentar e vai pedir demissão!! - esticou o jornal pra mim.

Peguei de suas mãos, ávida para ler a pedra que derrubaria a "infame" criatura. Alguns minutos depois levantei os olhos e disse:

- Pai, não vai adiantar nada.

- Como, não?

- Ele não vai entender...

- Claro que vai, vai entender e vai se demitir. - e continuou seu discurso inflamado.

Qual não foi sua surpresa e desgosto quando no dia seguinte o suposto futuro demitido bateu à porta e depois apoiou-se em seus ombros, todo sorridente, agradecendo "profundamente" o artigo e o apoio do "grande" amigo.

Tem gente burra no mundo sim. Gente má, gente boa, gente sem jeito, gente bem ou mal intencionada. Gente que faz o mal por querer mesmo ou por circunstâncias difícieis de explicar. Mas gente burra. O suficiente para não merecer nem lágrimas, nem tristeza e sequer mágoa. Basta o esquecimento.


(Com Pink, My Vietnam)

Publicado originalmente no Blog Certas Linhas Tortas em abril de 2007)



GRANDE MESTRE


E lá se vai terminando o Científico em 1978.


Nesta troca de recordações escolares é inevitável que certos fatos mais marcantes ressurjam espontaneamente para colorir ainda mais meu álbum de saudades.
“Seu” Jairo professor de Português (Literatura Brasileira): instaurou um tribunal na nossa sala de aula. Deu aos alunos a dura incumbência de se dividirem em advogados de defesa, promotores, jurados, público, juiz, testemunhas. Tudo isto para julgar o Romantismo, o réu, cruelmente acusado pelo Modernismo. Fui a Advogada de Defesa e defendi o Romantismo com as unhas, os dentes, as, mãos, e tudo o que pude....Nosso Tribunal foi um sucesso, e deu vontade a vários alunos de seguir adiante e freqüentar verdadeiros tribunais: alguns colegas hoje são do ramo!

“Seu” Jairo diretor da escola: catando aluno nos corredores, vendo quem cantava o hino de verdade ou fazia dublagem (como eu), consolando os inconsoláveis. – Vai pra sala menina! – Não vou mais estudar, seu Jairo, me deixa aqui na grama. – Que bonito, vai ficar aí, na grama, pegando sol e chuva até acabar o ano. Se o teu avô estivesse vivo, tudo o que ele iria querer seria exatamente o contrário. Mas, a vida é tua, se precisar conversar, pode vir conversar comigo. Levantou-se (porque ele tinha se sentado na grama comigo) e foi. E eu também, pra sala estudar e terminar o ano.

“Seu” Jairo professor de Inglês: - Na próxima aula eu quero todos com uma camiseta que tenha alguma coisa escrita em Inglês na frente. – Qualquer coisa, “seu” Jairo? – Qualquer coisa! No dia seguinte, uma sala inteira do curso científico vestida com camisetas de cores diferentes e com frases nos mais diversos tamanhos e tipos. A aula começou tímida. O professor andando, observando, parou diante de uma das alunas e perguntou:
- Tu sabes o que está escrito na tua camiseta, minha filha?
Ela abaixou o pescoço e vai lendo: - Ah, é “Love me... o resto eu não sei...
- Ah... – suspirou “seu” Jairo e deu mais uns passos – E na sua, meu filho, o que está escrito?
Outro que se debruçou pra frente e começa:
- “The best of ....- ele levanta a cabeça – tá complicado “seu” Jairo.
- Traduz, meu filho.
- Traduzir?
- É, em Português.
- Bem, eu acho que é...
Ele interrompeu, voltou para frente do quadro-negro e falou lentamente:
- É incrível a capacidade de vocês de andar com qualquer coisa escrita no peito só porque está escrito em Inglês. Vocês não usam a capacidade de reflexão, não pensam em saber o que significam as palavras que estampam a bandeira que vocês vão carregar no peito. Vocês vestem qualquer camisa. Vocês fazem isto com os seus ideais?
E saiu pela sala lendo uma por uma das camisetas de todos os alunos. Foi uma experiência inesquecível e dura. Depois dessa, não coloquei mais camiseta sem saber exatamente o que está escrito nela.

E não esqueci de quem me ensinou lições primordiais para a vida: você precisa acreditar naquilo que defende; precisa buscar sempre, razões para se levantar; antes de mostrar ao mundo os seus ideais, compreenda-os.

Grande mestre, este meu. Foi seu também? Parabéns!


(O sol gostoso da primavera se foi de mansinho e eu ouço Don Mclean cantando Vincent...)

Publicado originalmente no Blog Certas Linhas Tortas em abril de 2007)



DAS HISTÓRIAS BÍBLICAS


Olha nós dois que compenetrados...


Hoje eu acordei com uma saudade enorme do meu irmão Karim. Entre um e outro afazer fui lembrando como sempre fomos cúmplices, amigos do peito. Dizem que família não se escolhe, mas se por acaso eu tivesse que escolher eu escolheria exatamente a mesma. Mãe, pai, irmão... todos exatamente como são, como foram, como desejaram ser.
Voltando ao Karim, abri uma das caixas floreadas e novinhas (joguei as velhas fora!) cheias de fotos, sentei no chão e fiquei revendo passagens da nossa vida. Encontrei muitos momentos da gente... inclusive um que resolvi dividir com vocês.
Não lembro o ano, eu morava ali na rua do Fogo (Voluntário Firmiano) e era um sábado à tarde. Ouvi alguém bater com força na porta e fui atender:
- Mala, que surpresa!
- Oi minha querida, o negócio é o seguinte: preciso de ti e do Karim hoje de noite lá no Blondin. Aqui tá o papel com...
- Mala, mas do que é que...
- A Gincana Bíblica querida... e vocês fazem “Jesus e a Samaritana”! O cenário a gente leva e se encontra lá tá?
-....mas Mala eu não tenho nem roupa.. e como é que a gente vai decorar?
Mas ele já estava longe, eufórico e confiante como sempre.

Entrei com as duas folhas de papel na mão e fui até a cozinha. Karim estava tomando café.
- Quem era?
- O Mala...
- E ele nem entrou? O que ele queria?
Entreguei o papel.
- Jesus e a samaritana? Não entendi...
- O Mala quer que a gente, tu e eu, represente isto hoje de noite no Blondin na Gincana Bíblica. Agora tu vais atrás dele e diz que não dá. Diz que não dá tempo pra decorar e que não te...
- Kika – ele me interrompeu com aquela voz cheia de carinho – o Mala não ia pedir se não estivesse precisando. Olha, vai vendo umas roupas pra ti, eu vou arranjar pra mim e a gente se encontra ali pelas seis e meia, sete horas no Blondin pra ensaiar o texto.
Me deu um beijo na testa e saiu contente com seu papel na mão.

Seis horas da tarde. Eu, toda fantasiada com uma mistura maluca de roupas minhas, era a samaritana ensaiando com um jesus imaginário no espelho. Sete horas, o clube praticamente cheio, um entra e sai de gente tumultuada. Vejo entrar um jesus alto, magro, desengonçado e com os cabelos completamente tortos. Reconheci na hora:
- Karim!
- Kika, vamos começar? A gente só tem meia hora! O Mala disse que a gente se apresenta depois da Santa Ceia...
Começamos nosso diálogo entre outros tantos de “me passa o sutiã”, “o sapato é meu”, “sai da fila” e coisas mais que prefiro não repetir.
E depois chegou a hora.

O cenário foi montado pela equipe do Mala, enfim, nossa equipe. Um fundo, um poço e um pote de barro. Era tudo o que tínhamos. E começamos nossa atuação para a platéia que preenchia todo o salão do clube Blondin e os arredores. Iniciamos nossa dura tarefa de contar a história do encontro entre Jesus e a samaritana.
Estávamos já praticamente no final da encenação, no momento em que a samaritana deveria voltar-se e chamar por Jesus. E foi justamente aí que tudo aconteceu. Num movimento em falso, completamente sem querer, bati meu nariz com toda força no pote de barro (coisa que o público não viu). A dor foi tanta, tanta, que quando finalmente consegui caminhar em cena e chamar “Jesus”, minha voz era só lágrimas:
- Jesus, Jesus – chorava eu.... e caí e de joelhos (de dor!!) enquanto ele me olhava emocionado (apavorado sem saber o que eu tinha!). Ergueu as mãos sobre a minha cabeça, falou algumas poucas palavras e foi o fim.
Escutamos as pessoas levantarem, as palmas incessantes. Depois, vieram até nós, trouxeram os elogios e eu louca para sair dali. Um senhor, bem me lembro, disse-me assim:
- Moça, nunca vi tanta emoção. A dor parecia vir de dentro do seu coração! (meu nariz, eu pensei). Deve ser muita fé!
Depois dos resultados (um honroso segundo lugar, perdemos para a Santa Ceia por causa do cenário), lá vem o Mala todo alegre:
- Meus queridos, que lindos que vocês estavam! Lindos! Mas agora, chega de muita conversa e vão lá pra mesa que vão começar as perguntas.
- Que perguntas, Mala? – perguntamos Karim e eu uníssonos.
- As 500, vocês decoraram não é?
Desta vez eu quase quebrei foi o nariz dele. Mas foi só vontade passageira. Afinal, pessoas com o coração do Mala não tem no mundo aos milhares!


(Enquanto termino ecoa "Only You", com os eternos The Platters... dedico ao meu mano Karim!)

Pensado e escrito por Jacqueline na sexta-feira, 27 de abril de 2007



OS OSSOS DOS ESTUDOS


Sorriso dolorido...



Navegando nas águas estudantis, nada melhor do que mergulhar naquilo que se fazia nas horas em que, justamente, não se estudava.

Os grupos de meninas (mocinhas, a gente preferia) que ia ver (torcer por, a gente dizia) os garotos jogando futebol de salão no ginásio coberto. Nossa! Cada uma tinha o seu “craque”, os cotovelos se cutucavam o tempo todo, olhares e sorrisos se cruzavam... tudo para depois escrever nos cadernos poemas inspirados e apaixonados que a grande maioria dos beckans, ronaldos e cacás nunca ficaram nem sabendo!

Tinha também as gincanas do CCL. Nós, que estudávamos durante o dia e não participávamos ativamente das equipes, fazíamos parte da fervorosa torcida. Ou então acabávamos participando como coadjuvantes, dando uma mãozinha, fazendo alguma coisa para estar presente naquele jogo que fazia a cidade inteira se movimentar.

Uma vez fui Carmen Miranda para uma equipe. Meu irmão Karim e um amigo que infelizmente não lembro o nome, fizeram uma representação homérica da música Severina Chique-Chique. Jairo Barcelos fez representações maravilhosas, e muitas vezes. Muitas pessoas ajudavam a catar quilos e quilos de mantimentos. E outras mais, montes de livros e outras coisas que eram doadas a diversas entidades. Todos os anos novos desafios faziam novas equipes saírem pela cidade em busca da realização. Sensação de jogar com a vida, a favor dela.

Ah, e tinha o concurso de Miss Estudante. E deste eu tenho uma historinha particular. Cada concurso tinha a sua representante, todos os anos. Naquele ano a nossa representante quebrou o pé, a perna, sei lá. E como sempre, eu fui procurada (para variar às pressas) pelo Comitê do tal evento para representar nosso amado curso. Com os ossos dos dois pés inteiros, não deu pra recusar. Disse que tinha o vestido, avisei que não tinha uma sandália ou sapato alto que combinasse e eles ficaram de levar o tal sapato e o “traje típico”.

Naquela noite, entre todas as candidatas, fui a mais sorridente. Sorri do início ao fim do desfile. Sorri vestida com o medonho traje típico (uma coisa preta terrível com uma peruca colorida ainda mais feia..., típica talvez de Urano) e sorri com meu lindo vestido salmão. Sorri quando me classificaram entre as dez. Sorri, sorri. Sorri até mesmo quando me deram o terceiro lugar. Sorri durante as longas horas que se passaram entre o início e o fim do concurso.

Aliás, para quem olhava direito, eu não sorria... eu ria. Ria pra não chorar. Pra não chorar de raiva e de dor. Porque meu pezinho de Cinderela é número 37 e passei horas desfilando e gemendo numa sandália 35. Ganhei uma coleção de calos proporcional ao número de palavrões que consegui memorizar.
Todo o pessoal do meu curso quando eu passava, me abanava, batia palmas e gritava:
- Aí Jacque!
- Já ganhou!

E eu lá.... sussurrando, murmurando, tentando fazer alguém entender no meio do sorriso:
- ... preciso sair... me chamem lá fora... preciso parar... eu vou cair... suas pragas...ai.. que dor no meu pé.. me tir...
Não deu certo, tive que esperar acabar. Meu sorriso me calou. Ossos do...dos estudos.


(Escutando uns velhos discos de Ray Conniff, agora toca Mandy)

Pensado e escrito por Jacqueline na sexta-feira, abril de 2007 no Blog Certas Linhas



** No site certas imagens estarão colocadas apenas como "da net" porque infelizmente a gente procura o autor e não acha. Mas se a foto é sua, me diga tá!  Muitas imagens, mesmo com autoria, são encontradas ou recebidas por email. Caso não desejar que sua foto, com autoria ou não, continue publicada aqui é só avisar que ela será retirada. Obrigada!