O QUE TE EQUILIBRA

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O que te equilibra? Sério, responde. Se não responder pra mim, responde pra ti mesmo. O que te equilibra? Vem de dentro ou vem de fora? O que te dá aquele sentimento de que os dias passaram (e bem) sem que tenhas que ter lembrado deles a cada manhã ao acordar, ao sair da cama?

O que te equilibra e te dá aquela sensação de quase dever cumprido talvez não no final de cada dia, mas no momento de olhar alguma foto, ou simplesmente de olhar para trás. O que te equilibra é uma pessoa, um hábito, uma crença, um remédio, um trabalho, um alimento, um animal, um lugar, um sonho, uma esperança...? O que te equilibra?

O que te faz caminhar sorrindo pelo fio da vida, esta corda de circo que mais alta não poderia estar, com os braços abertos, o sorriso no rosto, até chegar do outro lado? Neste circo, onde não podes olhar para baixo para saber se a rede está lá embaixo para te amparar, se o público irá te aplaudir ou esta torcendo para que caias... onde o outro lado nada mais é do que a outra ponta, idêntica ponta de onde saístes em caminhada destemida e quase cega...

O que te equilibra? O que te dá a força de manter o equíbrio? Vem de dentro ou vem de fora? Veio a ti ou fostes buscar? Te dá o verdadeiro equilíbrio ou apenas a ilusão de estar equilibrado? É de concreto, é um tapete, é uma nuvem, o que está sob os teus pés? Qual a sua solidez?

O que te equilibra poderia te desequilibrar se desaparecesse hoje? E para onde te levaria o desequilíbrio?



INTOLERÂNCIA


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Estou tentando entender a intolerância. Como parte dos seres humanos, gostaria de entender que tipo de sensação pode fazer com que minha raça exiba com tanto orgulho este sentimento causador de tantos problemas.

A intolerância age em todos os campos sociais. Ela se exibe contra os mais gordos nas passarelas de moda tentando unificar um tipo de corpo. Se explode em bombas de fé extremista e agita bandeiras de falsa paz enquanto mata. Grita contra os jovens na tentativa de esquecer que não será mais jovem. Abraça as doenças em nome de um deus que não pediu. Massacra as cores de pele pela diferença da imagem. Invoca a fome e institui a ditadura do horror.

A intolerância é magnífica em sua amplitude. É vingativa em suas atitudes. E perigosa em todas as suas conseqüências.
Por que odiar um outro ser humano simplesmente pelo fato de ele chamar a sua crença com outro nome? Por que proibir, brigar, excluir?
Por que o ser humano não aceita o que é diferente dele mesmo? Por que ele não aceita nem mesmo o que é igual a ele?

O homem entra na guerra por um deus. E, encerrada a guerra, ele determina os padrões a serem seguidos pelo seu deus. E ele olha com ódio todos os que podem parecer diferentes. Ou que simplesmente não queiram ser iguais.
O homem faz da intolerância a sua maior vulnerabilidade. Porquê é quando compreendemos a verdade que a dor se torna insuportável.

As desculpas são vãs, mesmo se elas são inúmeras.
Preto, branco, amarelo, bege, marrom, laranja... todos os seres humanos são compostos da mesma carne, do mesmo sangue e dos mesmos músculos. O mesmo coração bate e os mesmos neurônios fazem funcionar o cérebro.

O que faz a diferença: o peso, a cor, o cheiro, o olhar, a pele, a maneira de falar?
Tudo é muito mais sutil. A intolerância instala-se entre a ausência do amor e a falta de compreensão. A intolerância não é somente o resultado de escolhas infelizes. É o resultado da fraqueza na hora das decisões.

Não tolerar é não aceitar. Não aceitar ultrapassando o direito do próximo. O direito ser exatamente quem é, acreditando no que quiser, vivendo como quer.
E pouco importa o meio social, cultural ou religioso. Ser humano é estar acima destas condições. É compreender que estas mesmas condições que aparentemente nos tornam tão diferentes, servem somente para aumentar o que chamamos de amor.
Tolerar é enxergar longe. É perceber o infinito das possibilidades da energia criativa da qual todos somos parte.

Tolerar é compreender que o que passou, passou. Que as pessoas mudam, que o tempo muda, que as estações mudam. Tolerar é aceitar que o que é diferente no outro pode realmente acrescentar em nós. Tolerar é enxergar a beleza da diferença e fazer dela uma riqueza inesgotável de trocas de todos os tipos.

Tolerar é amar ao ponto de compreender que a intolerância, infelizmente, circula no ser humano como o seu sangue e o ar que ele respira. E tentar, mesmo silenciosamente, erguer o amor acima de qualquer tipo de intolerância.
Tolerar é abrir espaços para que o outro exista sem medo e sem lágrimas.
Não tolerar é humano. Como errar também é. Mas quando se sabe que é erro, fazer de novo não é somente burrice, mas ignorância no verdadeiro sentido da palavra.
Paz aos corações que aprenderam a amar. Paz aos corações que aprenderão a amar. E mais paz ainda aos corações que pensam não precisar amar.


A voz de Jeff Buckey me acalma. Ouço Hallelujah.

Publicado no Blog Certas Linhas Tortas em novembro de 2006



ANTECIPANDO-ME


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Não gosto de certas antecipações. Como aquelas em que a gente se imagina já vivendo situações que um dia certamente irá viver ou talvez nunca nem mesmo chegue a conhecer. Estes sentimentos ambíguos, que chegam com a intenção de nos prevenir, de nos deixar conectados com a tomada de um futuro qualquer e acabam por nos fazer sofrer hoje o que quem sabe sofreríamos somente daqui a... Ou nunca.

Alguma coisa solta o gatilho das antecipações. Pode ser aquele dia moroso passando rotineiro e com ele todos os costumeiros personagens povoadores conscientes e inconscientes do nosso particular universo. Uma frase feliz (ou infeliz) de um livro, de um blog, de um jornal ou saída em alta voz diretamente da boca de quem você não esperava. Lembranças também costumam fazer isto. Porque lembranças nem sempre servem para lembrar, algumas vezes são usadas para fingir para si mesmo um tempo mal colocado no espaço na vida e daí acabam por traduzir esperanças. Lembrar não é esperar. Lembrar é passado. Esperar é para o futuro. Mas lembranças fazem a gente achar que são feitas de eco e que o eco é coisa de eternidade.

Antecipar a felicidade é o mesmo que antecipar o sofrimento. Encarar cada movimento da vida ou dos olhos como um pressentimento ou um movimento do futuro em nossa direção querendo desvendar-se é quase uma alucinação. Ninguém vai ficar falando em pré-vida, pré-lágrimas, pré-festa, pré-dor. Predisposições e preocupações, isto sim.

De nada serve viver hoje com o serviço adiantado e pronto no coração: Já que amanhã será... Será?

Amanhã vou adoecer. Vou ser feliz. Vou ser abandonado outra vez. Vou ganhar na loteria. Vou perder. Vou. Vou. Vôo. Eu vou voar para longe do presente de tanto me adiantar do futuro. De tanto temer, vou tremer. Todos os prenúncios e a gente que os chame como quiser, nunca vão ser leves.

Quando os momentos felizes chegarem (porque chegarão) serão ótimos, serão momentos, serão felizes e jamais como imaginados. Felizmente. Quando as tristezas baterem à porta, e batem, porque elas também são momentos, serão do tamanho que forem e doerão como bofetada ou talvez por algum tempo o mundo se desfaça logo abaixo dos nossos pés. Infelizmente. E todos passarão, momentos bons, momentos ruins, pessoas, dores, alegrias, tudo o que estava no futuro e que tínhamos tanta pressa em antecipar.

Mas há quem diga que muitas vezes a antecipação é quase o mesmo que adivinhar aquilo que vem pela frente e poderia até sugerir o fato de que, ao sabermos, teríamos como colocar uma rede de segurança sob nós mesmos em caso de fatalidades e, para casos de bom augúrio, nos preparar em todo belos para o que de bom vier. Não sei. Não sei. Isto me cheira a trapaça. Algo como se o futuro estivesse só esperando que a gente colocasse a rede para furá-la ou ver-nos lindos para um momento e então transformá-lo em outro.

Antecipações, decididamente não fazem parte da minha lista de substantivos favoritos. Nem com o aval da velha precaução e nem com o carinho das coloridas ilusões.

Ainda penso que o melhor é o exato instante em que aqui estamos. Sabendo que o medo da vida, disfarçado de tantos nomes, fantasiado de tantos pretextos enganosos, pode imitar o pensamento e mostrar então o que quiser, forjar imagens, sons, tudo! Só para que ao antecipar minha vida eu me precipite e caia.

Eis o que é...  Antecipação é precipício. 


DE FALSOS PROFETAS


Imagem: Munch


 É uma pena que as pessoas não saibam o quanto é importante aprender a ceifar seus próprios campos para cultivar novas sementes.

Há falsos profetas postados em todas as esquinas, fantasiados de várias profissões e religiões, prontos para anunciar o quanto você precisa deles: o quanto você é incapaz de se ocupar do campo que semeou com suas próprias mãos. Não, não estou falando da ajuda médica ou psicológica. Nem estou aqui reclamando de ombro algum... bem pelo contrário, que venham todos os ombros amigos!

Falo da hipocrisia dos que usam um verniz de humildade, só uma fina camada, para alardear a própria bondade, a própria grandeza de coração, a enormidade de seus feitos generosos. E não se esquecem de utilizar cinicamente terceiros, com seus ares empíreos sob a máscara dos olhos quase doces, para propagandear seus feitos e ditos. Este tipo que acaba se tornando mais que "da família", conhecendo você "melhor do que ninguém". E que muitas vezes nem tem um background para poder ajudá-lo realmente.
Entramos no século XXI invadidos por seres que não sofrem pesares e remorsos por suas vanglórias. Exercitam a exploração alheia com tal dom que chegam a crer em si mesmos. A crer que a cura tornou-se a dependência.
 
Pessoas, pessoas... cuidado... a bondade também é uma arma. E uma arma das mais perigosas quando usadas por gente mal intencionada ou alguém que se imagine todo-poderoso. De tanto ceifar seus campos, de tanto ajudá-los, de tanto curá-los, de tanto... cuidado com o exagero... Demais, até água faz mal!


Sem falar que todos nós somos simplesmente seres humanos. Os outros, lá para os demais cantos do universo quem poderá saber? Serão santos, deuses, astronautas?


(Inebriante Yo-Yo Ma interpretando Enio Morricone... principalmente "The Mission Gabriel's Oboe" , The Mission The Falls e Cinema Paradiso Looking for You)


** No site certas imagens estarão colocadas apenas como "da net" porque infelizmente a gente procura o autor e não acha. Mas se a foto é sua, me diga tá!  Muitas imagens, mesmo com autoria, são encontradas ou recebidas por email. Caso não desejar que sua foto, com autoria ou não, continue publicada aqui é só avisar que ela será retirada. Obrigada!