VÍCIOS, HÁBITOS, MONGES E ETC

Imagem de Gendalf


Hábitos são hábitos e vícios também são hábitos. A diferença entre eles está entre o que, social e culturalmente, consideramos bom ou mau. Ou mais além, em julgamentos religiosos e morais, questões de bem ou mal.

Os hábitos são hábitos também enquanto convivem num período, nem tão rotineiro, com o tal do “volta-e-meia-eu-faço”. Os vícios já estão voltados para o excesso do hábito.

E como em quase em todo excesso, os vícios são incofessáveis, muitas vezes secretos e abrigados das luzes das palavras e olhares alheios. Os vícios assumem-se marginais antes mesmo de serem apontados como tais. Para não passarem pelo julgamento.

É um hábito para alguns julgar. Para outros é um vício. Os que têm o hábito de julgar pessoas por seus hábitos e vícios, em geral catalogam, etiquetam, mas se prontificam a retirar desde que haja o menor sinal de erro: Ah, ele não fuma mais? O que, aquela moça que saía com todo mundo casou, é boa mãe agora, é? Nossa, eu não sabia que o pobretão do filho do zelador tinha ganhado tanto dinheiro na loteria... Coitado do filho daquela senhora, eu não sabia que ele se drogava porque tinha esse problema...

Perigosos mesmo são os viciados em julgar a vida alheia. Porque eles nem se dão mais conta que julgam. O vício já lhes corroeu o resto da alma. Eles já perderam o que tinham para perder. E do olhar opaco e da boca suja só saem palavras mortas: Ele não fuma mais... quero ver até quando isto vai durar! Aquela vagabunda casou é... logo, logo vai abandonar marido e filho pra continuar fazendo zona por aí. O ignorante do filho do zelador vai torrar o dinheiro da loteria todinho em dois dias... aquele traste não vale nada. Não morreu ainda, o filho daquela velha? Qualquer hora vão achar o desgraçado com uma seringa grudada. Aí morre e ela e ele de uma vez.

Há os que bebem sempre e pouco. Questão de hábito. Vício? Há os que bebem muito, mas só de vez em quando, um vício. Ou hábito. Existem as manias, os TOCs, os costumes, a rotina, e um dia ou outro tudo acaba entrando na encruzilhada: vira hábito ou vira vício. E o comportamento vestiu o monge.

Tantas formas têm os hábitos e os vícios... a se pensar se o vício não seria uma espécie de arte de aprofundar o hábito.


(Estou com Léo Gandelman, "Me Deixa Em Paz")



FÉ AMOLADA


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Vamos acabar todos ficando sem amigos. Se tudo continua neste ritmo de fobias como está indo, em breve nem por email será possível "conversar".
Antes a gente largava quase na brincadeira:
- Política, religião e futebol eu não discuto!

Hoje em dia virou regra. E regra séria. Daquelas que te fazem perder os amigos, entrar em colapso com desconhecidos e arriscar a própria vida com certos esquentadinhos que até uma hora atrás não tinham idéia do assunto que iriam discutir.

Tempos atrás discutir política dava quebra pau, ficava-se sabendo em primeira mão sobre a profissão de várias senhoras de família (até bem recatadas, diga-se!), e olhos roxos e braços quebrados eram um "must". Hoje tá mais para "Os Infiltrados", viu o filme? Se não viu, faz de conta, deixa quieto e quando alguém pedir sua opinião sobre o assunto, contorne. Mas não deixe de se informar. Nunca. Bem pelo contrário, busque informações (a internet nasceu para quê, hein?), aprenda, eduque-se, torne-se politizado. Mas corra de discussão com os falsos políticos e seus "pastores" hipócritas.

E a religião então? Sinto que é aqui mesmo que eu vou começar a deixar as minhas penas (ou pelinhos...). Tente conversar com pessoas fanáticas por religião. Primeiramente, elas vão negar. Os fanáticos religiosos nunca são fanáticos. São simples criaturas generosas que abandonam a própria vida para semear o bem nos quintais alheios.

Claro que eles marcam bem cada quintal e depois voltam para a recolta, ninguém é tão, como dizem os lagunenses, "tanso" assim. Para um papo quente sobre religião, basta dizer na frente de uma pessoa daquelas cheias de fé (ou de vontade de dizer que tem, dá no mesmo) que você não curte este tipo de papo. Pronto. Você acaba de se tornar o alvo número um, o candiato perfeito para ser o próximo fiel. Ou, no outro extremo, o excomungado a ser xingado. E cuidado com mesas que reúnem vários e, tão simpáticos, representantes de religiões diferentes (vale pra quem tem vocação pra suicida). Ou sai torto, surdo e pronto pro socorro ou arrumou ali mesmo o seu guru. Sai de mim!

Futebol já é fato provado. Durante todo o ano entre todos os homens do planeta. De quatro em quatro anos entre todos os habitantes do planeta. Tudo que você precisa fazer é escolher o seu campo ou sumir de campo.

E agora que no Brasil estão exacerbando nas imitações norte-americanas, com todas as frescuras de separações raciais e proibições de nomes tão comuns no nosso brasileiríssimo vocabulário, em breve vamos ter que ensaiar antes de falar, fazer rascunho antes de escrever. Logo a gente, que sempre se orgulhou de ter um país enorme com uma só língua... Me recuso a ser chamada de euro-descendente. Podem me chamar de branquela mesmo. Até de amarela.

E como muito bem citou o colunista André Petry, até nossa orgulhosa e bela mestiçagem está a caminho de ser substituída pelo branco e preto americano. Isto parece pouco, mas é extremamente significativo, porque sempre fomos um povo de união, uma espécie de coração gigante do planeta. Se seguirmos este caminho de brigar feio por tudo, em breve não teremos mais amigos. Nem os da casa ao lado. Nem na África. Em lugar nenhum.

Mas tenho fé em brasileiro. Quem sabe a gente ainda se dá conta e continua:

- Bom dia Mustafá, tá indo pra Mesquita?

- Bom dia Jacob, como vai familia? Esta indo sim. Depois vai almoçá casa de João.

- Ieu tambien vô com família, nóis vamo se vê lá. E brimo Jamil vai?

- Brimo Jamil vai si Manuel ficá la na lujinha depois da missa. Ele disse que não ia pro jogo hoje.

- Manuel fica, ele boa gente. E despois, A d. Rita mulhé dele muito piosa, sexta-feita tava no centro espírita do seu Clemente, minha mulhé encontrô cum ela lá...

- Jacob, Brasil muito bom...

- Muito, Mustafá, muito...


(Escutando Milton me deu uma saudade do meu Brasil vira-lata... que o universo permita que ele nunca arrume um "pedigree")


Publicado no Blog Certas Linhas em abril de 2007



PARÁGRAFOS DE UM CASAMENTO


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A noiva desceu do carro vacilante. Seu primeiro olhar foi dirigido para dentro da igreja, onde certamente esperou ver o noivo, certificando-se de que haveria cerimônia. Não deu, pois haviam degraus e pessoas na frente.

A que deveria ser a mãe chegou-se a ela e pôs-se a a ajeitar dali e daqui o vestido completamente branco da garota de olhos aflitos. Pegou um espelho na bolsa sempre preparada e entregou à jovem para que ela pudesse entrever seu rosto levemente pintado como uma tela. Estava linda, linda, dizia. E a filha precisou do espelho mais perto para confirmar. Afinal, não era um dia comum.

Supus que fosse o pai o indivíduo de cabeça baixa, ligeiramente encostado alguns degraus acima das duas. Olhava o relógio com frequência. O restante do tempo, era evidente, ocupava-se em pensar. Creio que titubeava diante da situação. Lá iria ele, dentro de poucos minutos, levar a filha pela mão para entregá-la a alguém. Pelo menos, matutava por certo, tomara que seja realmente um bom sujeito, que continue tratando bem minha filha.

Movimento de entra e sai das pessoas na igreja refletia o nervosismo geral. Parentes, amigos e conhecidos, além, é claro, dos desconhecidos. É engraçado como casamentos deixam os convidados mais nervosos e chorões do que os próprios noivos.

No interior da igreja, o noivo encostava-se no altar. Olhava as horas. Droga. Ainda faltavam dez para as seis, comentava consigo mesmo. E depois, para variar, ela ainda vai querer seguir a tradição e só vai chegar meia hora depois. Meu Deus! Meia hora! Quarenta minutos de espera! Vou sentar! Não sentou, pois não tinha cadeira no altar.

O padre, sossegado na sacristia, não se preocupava. Casamento marcado para seis horas, noiva chega sempre atrasada, pode contar aí seis e quinze, seis e meia. E olhe lá.

Lá fora, a noiva, impaciente e ainda mais aflita, volta-se para a mãe e comunica: não quer saber de tradição, não espera mais nada e nem ninguém. É bom avisar o organista porque eu vou entrar já. Quero ser pontual. Vou entrar agora, não é mesmo, pai? O pai assente com a cabeça e corre buscar a filha.

Organista avisado, a música inicia solene.

O noivo, assustado pelo som inesperado, surpreende-se ao ver a pretendida entrando, tão linda e suave, vindo ao seu encontro. Ao sorriso dela, devolve ele um sorriso aliviado, apaixonado e agradecido.

É um momento mágico. Os convidados erguem-se, ficam parados. Nada de se ouve além da música. Ela está magnífica. Se parece tanto com o pai! Mas os lábios que ela morde incessante, são da mãe. Ainda bem, pensam ela e o pai, cada qual para si, que ninguém percebe o quanto tremo. De longe a mãe olha os dois que caminham tremendo e sorri.

Na sacristia, o padre desavisado ouve o som do órgão. Ensaio? Agora? Mas que coisa! O organista já está tão bem treinado! Volta a ler.

Chega a noiva ao altar e o pai, mesmo estranhando a ausência do padre, entrega a filha ao noivo. No olhar dos três, o implícito se expõe. Mãos dadas, esperam pacientemente pelo sacerdote. Pelo menos ela veio! Que bom, ele veio!

Toda a igreja recorre ao relógio. Seis e dois, seis e seis, seis e dez. Seis e treze, seis e quinze...

E só então sai o padre do esconderijo, resignado por talvez ter que aguardar a noiva por mais meia hora. Meu trabalho começa agora, falava para si mesmo, consolando o noivo até chegar a bendita.

A surpresa foi tanta ao ver o casal de olhos suplicantes esperando apenas por ele, junto a todas as outras pessoas, que o padre começou a cerimônia sorridente:

- E dado a vocês, meus queridos irmãos, estes minutos de reflexão antes do matrimônio, espero que tenham se certificado do amor um pelo outro e do desejo de pemanecer juntos até quando Deus permitir. Venho em nome do Senhor...


(Texto de 1988, publicado em Genebra pela revista Impact Brasil em outubro de 1995)



UMA QUESTÃO ORDINÁRIA


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O que faz a vida ser extraordinária? Os fatos? O destino? As crenças? Ou talvez a dependência ou ligação entre tudo isto?

A vida em si não é extraordinária. O ser humano é que muitas vezes despe-se de seus defeitos e torna-se excepcional.

Muitos fatos acontecem idênticos com muitas pessoas e as reações levam a consequências e destinos distintos. Crenças constroem ou destroem vidas.

Mas há certas pessoas que saem de si mesmas, do que poderíamos afirmar ordinário, comum, simples. E acontecem. Mudam a si mesmas e muitas vezes até o mundo.

Os seres que se limitam e delimitam a vida em torno de si são os grandes arquitetos da rotina. Os observadores para os quais as estrelas cadentes serão para sempre somente pontos de luz fulgurantes no céu jamais obterão a licença da marginalidade para atingir o que as regras sociais chamariam de anormal.

Isto, resta para os poucos que não se chamam de nada mas buscam tudo e imaginam mais do que tudo. Para eles, ser ordinário é só uma questão de tempo.


(Ouço lá fora as sirenes, também ao lnge uma música... aqui é a Festa da Música e na cidade inteira tem música. Não pude ir, que pena. Outras vezes virão)


** No site certas imagens estarão colocadas apenas como "da net" porque infelizmente a gente procura o autor e não acha. Mas se a foto é sua, me diga tá!  Muitas imagens, mesmo com autoria, são encontradas ou recebidas por email. Caso não desejar que sua foto, com autoria ou não, continue publicada aqui é só avisar que ela será retirada. Obrigada!