CONFUSÃO DE RAIVAS E PENSAMENTOS


Imagem:  Forever gone forever you by FrozenStarRo


Falar sobre a raiva. O sentimento de cólera. Eu queria falar sobre aquela sensação um pouco estranha que é dizer sim com vontade de dizer não. Ou ficar quieto quando a vontade é de gritar. Não saber mais delimitar o próprio espaço. Aceitar golpes em troca da paz. A paz apodrecida.
Sentimento que embola no estômago, enjôa, tranca os intestinos, retém toda a água do corpo. Até mesmo as lágrimas. O cérebro e seu funcionamento cheio de explicações científicas, psicológicas, naturais, sem explicações.... registra simplesmente o fato de que algo não está bem: cadê o meu lugar nesta porcaria deste mundo? Por que me ignoram? Por que não me respeitam? Por que não posso ser eu mesmo sem que metade do mundo resolva me punir em consequência?
Raiva... bolos de raiva.... súbitos acessos de fúria... e tudo passa com sorrisos, respostas calmas, voz pousada... passa pra dentro. Passa pra dentro! Pra dentro! A raiva entra! Toda a raiva entra! E sem poder sair se transforma em tantas outras coisas... nenhuma boa.
Contou-me um amigo: "Meu pai comia com a gente todos os dias. E pelo menos duas vezes por semana minha mãe fazia carneiro. Um dia, dezessete anos de casado, dezessete anos comendo carneiro duas vezes por semana, ele cruzou os talheres, olhou para minha mãe e disse - 'Eu não gosto de carneiro' -. Você consegue imaginar quantas outras coisas ele não dizia também? Nossa, pra todos nós foi um susto!"

Meus pensamentos estão confusos. Estou procurando razões possíveis para haver iras guardadas por perto ou cuidadosamente escondidas. Mas também estou pensando se realmente quero encontrar estas razões. Ou encontrar as tais raivas.

Quem procura, acha. Assim diz o ditado. E o que acredito firmemente é que para tudo há uma consequência. Ou seja, se começar a cavar é bom estar preparado.

Muitos cadáveres já foram encontrados sob casas de gente boazinha.

Gente boazinha...

(Morrissey, e um dos meus discos favoritos "Viva Hate", de 1988 - gosto principalmente de "Everyday is like Sunday" e Bengali in Platforms". Mas o disco todo é genial.)



UM POUCO MAIS DE CONFUSÃO


Imagem: Learning to Fly by greenfeed


Parece que a raiva não vive só no meu sótão. Ou enterrada sob o meu porão. Várias pessoas ficaram surpreendidas com o que escrevi. Algumas somente surpresas, outras partilhando comigo este algo que nem eu mesma sei explicar. E não explicando também porque se sentem visadas, ressentidas. A raiva magoa.

A raiva a gente vê nos outros. Sente, ouve, corre até de perto se for possível. A raiva passa, até pelo próprio nome, uma sensação extremamente negativa.

Mas começo a pensar que não é. Sabe aqueles desenhos animados que a gente via quando criança, com o diabinho e o anjinho ali, atucanando a cabeça da criatura: faz, não faz; é bom, não é bom... olha... cuidado.... vai em frente!... deixa pra lá...

Mais ou menos por aí. Tá dando pra seguir? Porque eu também estou perdida, já avisei. A confusão começa por mim... Mas raciocine aí: a gente ouve o anjinho hoje. E amanhã. E depois de amanhã. E acaba só fazendo o que o anjinho quer. Imagina só que p* da vida não deve ficar o tal do diabinho!!! Afinal, a gente é um pouco de tudo. E sempre aceitar, aceitar, dizer ok, fazer o bem pelo bem que vem... sei lá... isto deve dar uma sombra imensa atrás da gente. Porque se o anjinho é o bem e o bem é luz, imagino que o diabinho é o mal e o mal é a sombra.

Então é preciso fazer alguma coisa para que a raiva possa se dissipar, ser extravazada, canalizada para fora da gente. Porque é muito melhor uma explosão com alguém de vez em quando do que um belo dia a gente simplesmente implodir.

Entendeu?

Eu estou tentando.


(Depois de um dia de muita raiva não extravazada e querendo muito saber como contactar o diabinho em questão para começar a negociar meu novo modo de vida, tento me recompor com Lori Lieberman cantando Killing me Soflty)



APORTES DAS PORTAS


Imagem da net


Há ditados que dizem, de formas diferentes e sempre bonitas, que portas que se fecham significam janelas se abrindo. Até concordo, quando se fala de oportunidades. Quantas vezes um emprego ou um namorado perdido foi substituído por outro melhor? Não, isto não é frieza é realidade.

Mas há outras portas que batem atrás de nós ou mesmo na nossa cara e, ai!, estas não tem nada de poético, não clamam por pietonisas que avancem um futuro melhor sem o que ficará detrás delas. Simplesmente batem. Paf!

São portas que nos permitiam o acesso a certas pessoas e davam a estas mesmas pessoas livre trânsito até nós. Eu chamaria de passagens da vida.

Estas, quando se fecham, algo se rompe. Como se a chave única caísse da fechadura e se quebrasse em pedacinhos. Aqui não servem ditados. Nem adianta pular janelas abertas ou arrombar portões que por ventura venham a aparecer.

E ainda: melhor nem espiar pela fechadura. Eis aí a atitude que traduz o que com certeza vai se transfomar em sofrimento.

Quer saber? O melhor é ir em frente, procurar outras portas. Quem sabe lá pelas tantas haverá alguma aberta, ou pelo menos com a chave na fechadura...
 

(Ouvindo Spandau Ballet, "True" )



SAPATOS VELHOS


Imagem da net


Os melhores motivos para jogar um sapato velho fora é a vontade e o espaço que vai ter para um novo.

As maiores desculpas para guardá-lo é o medo dos calos, a preguiça de sair para comprar outro e a pior de todas, a acomodação.

Todas as vezes que estamos numa situação em que damos de cara com o sapato velho e, necessitados urgentemente de um novo não sabemos o que fazer, remetemos a situação para a próxima vez. E o deixamos lá. Gasto, furado, remendado. Mas jamais traído.

Traímos nossos pés mais nunca os sapatos velhos.

Como não traímos os médicos que temos desde os tempos da antiguidade e que nem sabem mais o que nos receitam. Como não abandonamos nunca os que quase sempre nos deixam na mão nas horas em mais precisamos. Como não largamos mão outros tantos queridos que afundam facas em nossas costas cada vez que nos viramos para olhar o horizonte. Como preferimos manter tudo o que foi estabelecido em torno de nós porque assim crescemos e assim fomos feitos para.

Sapatos novos fazem calos. E muitas vezes temos que jogá-los fora, trocar, presentear. Comprar outros logo em seguida. Tentar de novo. E de novo. Mas o prazer da renovação vale a pena. Renova os pés e a cabeça. E não impede que se guarde um chinelinho daqueles do tempo de... você sabe.



(Disquinho bom este da novela História de Amor...)







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