UMA VIAGEM ACIDENTADA


Nós duas em Nyon em 1988.


Saía de Genebra de avião para o Rio com saudades nas duas direções: deixava o irmão, a vó, a tia, novos amigos... mas já estava com saudades transbordando... queria ver o filho, o marido, os pais, os velhos amigos!
- Mãe, a Cocaína vai no colo? – a voz da minha filha me fez pisar o chão do avião com força e voltar à realidade assustada.
- Sabrina, a cachorra se chama Cadeína, eu já te disse, Ca-de-í-na. Repete, filha:
- Não. Este não é o nome dela, mãe. Minha filha de quatro anos!
- Fica quieta e dorme, menina. – Pelo amor de deus, sussurrei...
Há algumas horas atrás um amigo de meu irmão que tinha uma casa no Rio tinha me pedido um favor. Era um francês, muito educado, falava Português direitinho e durante nossa visita tinha sido um perfeito cavalheiro.
- Você poderia me fazer um grande favor?
- Claro, respondi eu mais rápido do que a ignorância permite de refletir.
- Eu acabo de ganhar uma bela cachorrinha. Ela tem só dois meses e meio. Gostaria que ela fosse viver na minha casa do Brasil, assim poderá correr, ter uma vida mais livre, sabe como é...só um detalhe... ela é bem grande para a idade!!
- Claro, repeti eu, já com certeza de ter aceitado um problema.
-... ela tem pedigree, é linda, você vai ver. Vamos dar um comprimido calmante, ela poderá dormir e viajar no seu colo sem problema. Você vai adorrrrarrr a Cocaína!
- Claro, e aí juro, nem eu mesma ouvi minha voz.

A bela Cocaína não dormiu com um comprido de calmante. Nem com dois. Cada vez que eu cochilava, ela conseguia sumir do meu colo e alguém gritava em alguma língua:
- De quem é este cachorro perdido aqui atrás, aqui na frente, lá...
Eu tentava chamar a danada:
- Vem, meu amor, vem Cadeína...


Imagem: Jurgen Muller


E ela, francesinha fingida e cheia de pose, como se quisesse provar que sabia muito bem qual era o seu nome, me dava as costas e corria para outro lado. Nova correria.
Sabrina volta e meia, cheia de sono aparecia:
- Cocaína, Cocaína – a miserável da cachorra erguia as orelhas e vinha!
Eu, fingindo dormir. Dois tapas do ombro.
- Madame, minha senhorrra... seu cachorra sujou corredor, senhorrrra faz favorrr de segurrrar!
Mais um soninho horas depois e:
- Dona, o seu cachorro fez xixi em cima do sapato da minha mulher. Se a senhora não tem responsabilidade... – e vai discurso...

Aterrissamos, senhor, amém. Fora o cansaço, manter a filha pequena na mão e uma cachorra na coleira poderia ser fácil. Não fosse o fato de que, por termos passado as festas de fim de ano fora, todo mundo de lá mandou presente para os de cá. Principalmente para meu filho, então com menos de dois anos. Este, das quatro enormes valises que eu trazia, tinha direito a uma só para ele e somente com brinquedos e presentes. Tudo novo como a alfândega adora!

Logo de cara, depois do suplício para pegar bagagens enquanto a cachorra fugia e a filha ia atrás, fui abordada por um velhinho simpático que me ajudou com os carrinhos. Enquanto isto fui tirar das “garras” de um servidor do aeroporto a “minha” cachorra que aparentemente (e bem ostensivamente) tinha aliviado seu ventre ali do lado. Já ia começar a gritar pelo sumiço da filha, quando olho perto das esteiras do temível sinal vermelho a minha bonequinha de olhos claros sentada e conversando com o oficial da aduana.

- Lá vem a minha mãe e as nossas malas. E a aquela ali é a cachorra. O nome dela é...
- CADEÍNA! Gritei com todas as minhas forças enquanto corria pra tapar a boca da minha pequena grande filha!!! Bom dia, seu agente! Nós temos um avião para Florianópolis daqui a pouco, será que não dá pra liberar a gente logo?
Um outro já começara a abrir a primeira mala. Felizmente uma cheia de roupas usadas!
- Eu sinto muito, minha senhora. Mas já tivemos reclamações. A senhora veio com um cachorro solto no avião, a sua filha me confirmou agora mesmo que o animal veio livre. Graças a todos os santos que olhar de mãe deve ser bento.

- Ademais, a senhora ultrapassou muito o limite de bagagens. Nem sei como saiu de onde veio com tudo isto. (Eu sei, pensei. Graças a uma amiga do meu irmão) Agora me dê licença que eu vou ajudar o meu colega.
Comecei a me imaginar presa numa cadeia do Rio de Janeiro. Minha filha na Febem. A cachorra morta. Ai!
- Dona, dona! – era o velhinho dos carrinhos. – Se a senhora quer sair daqui direito, sem pagá os olho da cara e sem dexá o cachorro e as mala, fais arguma coisa.
- Mas o quê?
- Carquer coisa. Mas fais dipressa qui dispois eu ajudo a senhora a saí daqui.

Sem tempo para pensar eu olhei para minha filha, tão pequenina, rostinho cansado, segurando minha mão. Olhei para a pobre da Cocaína, ainda um bebê e toda adormecida nos meus braços e pensei: me desculpem meus anjos, mas é por vocês!
Apertei todas as unhas de uma mão na mão da Sabrina e as unhas da outra mão na cachorra. Foi o caos. O verdadeiro CAOS. Eram uivos, gritos, choros, comecei a chorar também, veio policial, veio gente olhar, foi horrível...
Eu gritava:
- Pelo amor de deus, meu deixem sair daqui... pelo amor de deus... (e fincava as unhas... e aumentavam os uivos e os gritos).

Aquele senhor ganhou a maior gorjeta que eu já dei na minha vida. Merecida. Quando entreguei a cachorra fiz um carinho e até dei um beijo. Não adiantava pedir desculpa, mas talvez ela tenha entendido. Mas o pior mesmo foi encarar a minha filha no avião Rio - Florianópolis, quase todo o tempo chorando, choramingando. E as perguntas que ela me fazia...
- Mãe, por que tu me machucou tanto lá no aeroporto?
Olhares cruéis dos outros passageiros para a mãe indigna.
- Mãe, por que tu fincava as unhas na minha mão com tanta força? Doía tanto...
Olhares profundamente cruéis.
- Foi por causa da Cocaína, mãe? Porque eu fui brincar com a Cocaína? – ai, senhor, silêncio!
Olhares assassinos para a mãe criminosa.
- Mãe, por que tu não trouxe a Cocaína pro maninho e pro pai? A vó e o vô também iam gostar...
Todo o avião naquele dia deve ter tido vontade de matar esta mãe aqui. Que fazer? No máximo, o que posso pensar é que agi por uma boa causa.
Não, não pergunte que causa. Foi só uma invenção pra terminar me sentindo bem. 


(Escrevendo e ouvindo os temas dos filmes de Woody Allen, agora tocando Frenesi me lembrei particularmente de um dos casais mais amorosos que guardo na lembrança: D. Déa e S. Tuta. Saudades)



A HIBERNAÇÃO


Imagem: Liliana Sanches


Algumas vezes, só, diante de mim mesma e de meus próprios pensamentos que desfilam como se fossem poemas doloridos, tento fazer como se nada fosse nada. Olho a pródiga primavera que enfeita a cidade, o sol que já não é mais o mesmo sol dissimulado do inverno... mas me falta para sair, para ir para as ruas, o que eu chamaria somente de desembaraço e empenho.

Há dezessete anos, quando aqui desembarquei, desembarcaram comigo todos os pertences de meu marido, todos os objetos pessoais, brinquedos e roupas de meus filhos, algumas roupas minhas e todos (todos!) os meus álbuns de fotografias!

Deixei para "mais tarde", com a Marilene alguns cadernos de poesia e com a Beth Antunes os livros do Boulevard. Com meus pais todo o restante e nada para depois.

Tudo isto só para assumir uma verdade que quem leu, está lendo ou vai ler o Coracional, não tem como não constatar: sou um ser humano em hibernação há dezessete anos. Se é triste? Muito. Demais. Um pouco. Não. Talvez... Minha filha, que está lendo, disse após ler o primeiro capítulo que ninguém em sã consciência poderá me invejar por viver aqui...

Mas eu sou também, graças ao universo, um pouco camaleão! Tiro de um lado, faço piada, transformo o que poderia ser o fim em um belo recomeço. Não admito derrotas simples.

Por enquanto, vou continuar hibernando do meu jeito... mas eu volto. Não sei pra que lugar. Mas eu volto. 

(Sem música hoje. Estou muito emocionada com as palavras do Valmir. Ele entendeu tudinho, tudinho...não é meu amigo?)