O campinho estava lotado naquele domingo. Os vários jogadores, seus times e seus uniformes coloridos. As torcidas desorganizadas, feitas de famílias, amigos e transeuntes. Desde que o dia anunciara-se ensolarado os jogos de futebol estavam automaticamente programados. Muitas vezes nem mesmo a chuva impedia.
A menina parada em frente ao Grupo Escolar Ana Gondin olhava as pessoas indo e vindo. A missa já terminara, suas amigas estavam espalhadas em volta do campinho. Ela tinha dito um pouco antes da missa: vou ali ver a mãe e já volto. E não voltara. Tinha dado somente uma desculpa para poder ir para outro lugar.
Olhou em volta, viu o asilo. Ela sempre ficava triste quando via o asilo. Queria tirar todos os velhinhos de lá, dar filhos, netos, casa, vidas, para cada um deles. Mas entendeu numa visita só que seria impossível. Aliás, foi exatamente no dia de tal visita que ela prestou atenção pela primeira vez naquela casa ao lado.
Uma mansão. Uma casa tão linda, tão linda! E vazia, disseram...
Quando ela entrou pela primeira vez, hesitante, com o coração sobressaltado, caminhou dentro daquela casa como num instante fosse ser descoberta pelos donos... mas não havia donos. Somente a casa, linda casa, a casa de seus sonhos!
Passou a vir quase sempre. Aos poucos foi ficando audaciosa, sentindo-se a proprietária do castelo. Ajeitava cantos, arrumava as plantas, subia e descia a escada de caracol envelhecida... caiu tantas vezes!! Mas ria sozinha e lá sonhava com todas as reformas que faria. No dia que ela crescesse e comprasse a casa de verdade. Sonhava com os móveis, as cores das paredes...
Fotos de Carlos Araújo Horn
Com o passar dos anos suas visitas tornaram-se mais esporádicas. Não tinha mais dez anos e mesmo que não fosse, parecia uma mulher... já olhavam quando ela entrava lá... sozinha... em sua mansão para outros vazia.
A única pessoa para quem ela contou seu sonho com o palacete, sonhou com ela. Subiram juntos as escadas ainda mais apodrecidas, andaram pela casa, inventaram novas maneiras de reconquistar aquele paraíso.
Anos e anos se foram. A menina deixou de ser menina e a bela casa continuou lá, chorando em suas ruínas. Cinza o céu que hoje tem a praça na frente tantas vezes vazia e cinza o palecete desmoronado e abandonado.
Palacete de uma só princesa, princesa criança e adolescente. Me conta tua história, revive, levanta dos teus restos!
Desista a cidade de ver tua decadência e tenha a coragem de reerguer-te.
(Enquanto escuto a trilha sonora do filme "A Missão", maravilhosamente composta por Ennio Morricone, olho as outras fotos que recebi do Palacete. Que triste, que triste!)
Algumas destas pessoas que vão passando por nossas vidas acabam se tornando o que se chamaria de "personagens": pessoas iguais a nós, que convivem conosco, mas que estão na vida de toda a cidade, interagindo com ela e com seu povo.
Pepinha é um personagem. Porque eu não sei que idade ele tem e nem de quão longe vem minhas lembranças dele mas sempre o vi passando, completamente em estado de graça, cantando os sambas que embalaram meus carnavais.
- Ei, neta do dr. Abelardo!
- Oi Pepinha!
- Ele tá em casa?
- Não, tá trabalhando...
- Ah, vou passar lá depois.
E ia. E o vô, sempre dava alguma coisa pra ele. Porque provavelmente o vô conhecia o Pepinha desde pequeno e o via tal qual ele sempre via as outras pessoas, com carinho. Os anos foram passando na cidade e todos foram de alguma forma se arrumando dentro das suas vidas, se enquadrando em empregos, mundando os seus status e as suas mentes. E ele, aquele cara magro, alegre, cantando, exibindo sua cor de pele negra, sua alma colorida de carnavais. Pepinha entoava seus sambas, uma ou outra parada estratégica para uma breve papo, quem sabe um trocado.
- Tu não é a filha do Xaxá?- Sou... (menina já eu respondia isto...)
- Neta do dr. Abelardo?
- Sou...
.- Bonitinha ela, muito boazinha. Vai passear, vai... ei!
- Que foi Pepinha?
- Cadê teu tio?
- O tio Jacques?
- Não, o Paulinho Cebola.
- Tá morando em Florianópolis.
E com um gesto de descaso ele começava mais um samba e enveredava pelas ruas do Campo de Fora, chamando um, interpelando outro sobre algum assunto, dando mais uma outra paradinha na frente da casa de alguém.
Pepinha tem seus amigos antigos (me jogo dentro da lista!) e mesmo seus jovens admiradores (há uma comunidade no orkut chamada "Eu conheço o Pepinha"). Ele é, incontestavelmente, "o" personagem atual das ruas da Laguna. Porque antes ele dividia o palco com vários, mas agora não creio que sejam tantos os "famosos".
Como é que eu não esqueço dele? Por que eu lembro tanto dele? Respondendo a primeira pergunta eu diria que ele faz parte da família lagunense. E ninguém esquece a família, ele que o diga, quando há quatro anos atrás, na frente da casa da minha prima no Campo de Fora, ele pára e me olha:
- Mas tu não é a filha do Xaxá?
Cabecinha boa, meu senhor!!! Respondendo a segunda pergunta, simplesmente porque eu adoro lembrar das pessoas boas. Elas me fazem bem, me permitem esquecer as coisas ruins do mundo. E o Pepinha é justamente isto, desde que eu o conheço: alegre, divertido, cantador. Não me lembro de ninguém que tenha outra opinião. Mas sei de muita gente que gosta dele. Afinal, Pepinha é Pepinha, e mesmo se ele abandonar os seus "estados de graça", tudo que a gente torce é para que ele não nos abandone. E que sua voz continue a passear pela cidade alegrando e revivendo os paralelepídos da velha Laguna.
(Estou ouvindo Claudinho e Buchecha. Porque ouvi a Adriana Calcanhoto cantar uma música deles, gostei, lembrei do disco deles que é gostoso de ouvir... e as fotos, ah, as fotos!, é a magia do mundo moderno combinada à magia das amizades de coração... ela nem sabia que eu vinha pensando neste assunto esta semana e me manda logo esta foto... ter uma Fátima como amiga é imperativo na vida de quem quer ser feliz!)
O silêncio revela muito mais do que qualquer palavra. Eis aqui uma frase já dita centenas de vezes e com centenas de formatos diferentes. Tudo para explicar, ou quem sabe para não explicar, o porquê o silêncio "é de ouro"...
De acordo com um dos verbetes do Houaiss, o silêncio seria "privação, voluntária ou não, de falar, de publicar, de escrever, de pronunciar qualquer palavra ou som, de manifestar os próprios pensamentos etc.".
Para muitas pessoas o silêncio serve como descanso. Para outras, como desculpa. Para outras ainda, como um meio. E assim vai...
A primeira vez em que prestei realmente atenção no que era silêncio foi em 1988. Estávamos em dezembro, era minha primeira visita à Europa, o inverno se fazia frio para a catarinense recém saída da primavera e dos braços familiares. Tinha vindo, com minha filha de 4 anos, visitar a avó e o irmão, há alguns anos sem ver, a saudade já chegando aos seus píncaros.
Meu irmão, com seu coração de rei e sua cultura impecável, leváva-me a cada canto da cidade, tirava aos poucos dias e dias de férias e íamos fazer pequenas e saborosas viagens: Itália, França, Suíça, Alemanha... um vasto continente, uma história imperativa e uma cultura ímpar. Eu não tinha palavras... (e que pena naquela época não haver ainda aparelhos numéricos... gastei uma barbaridade de filmes!).
Um dia, fomos fazer um primeiro passeio sobre as montanhas. Com um grupo de amigos nos dirigimos de trem até o local, fizemos algumas caminhadas, brincadeiras na neve (ver minha pequena Sabrina toda "embrulhadinha" no meio daquele branco, rindo e feliz, tenho a imagem "sonora" ainda comigo") e por fim fomos em direção das "cadeirinhas" para subir (como se a gente já não estivesse alto o suficiente).
Na nossa "cadeirinha", estavámos Sabrina e eu. Quietas. E o mundo estava calado. Olhava para todos os lados e via o branco. Muito branco. Algum verde. E muito, muito branco. E um silêncio, um silêncio como nunca havia ouvido antes. Não o silêncio impertinente das pessoas que se calam para nos incomodar ou porque se sentem incomodadas por nós.... Não o silêncio que a noite traz e que em sua intermitência permite ruídos de carros e de gente. Um silêncio magnífico.
Até hoje, quando leio sobre silêncio, quando se fala sobre silêncio, lembro daqueles minutos naquela montanha.... lembro daquele silêncio. E sei que lá havia alguma coisa de muito especial que também não achei mais em lugar nenhum. Mas eu não buscava respostas... e hoje tampouco... Seja! Que cada um tenha o silêncio que quiser!
(Ouvindo Bajafondo e o disco "Mar Dulce", que com certeza recomendo... excelentes músicas, sons que acompanham o pensamento... uma delícia!)