A LENDA DO TESOURO DA LAGUNA (1)


Imagem da net


Há muito tempo, muito mesmo, no tempo em que os jesuítas habitavam o Brasil, diversos deles passavam por Laguna nas suas idas e vindas para as missões no Rio Grande do Sul, onde suas colonizações expandiam-se a cada dia mais.

Quando veio a ordem de exlpusão para os padres, o alvoroço foi imenso. Espertos, eles vinham acumulando durante anos e anos não somente um enorme número de fiéis, mas também uma quantidade considerável de ouro, pedras preciosas e objetos feitos de outros metais preciosos. Construíam pequenos templos por onde passavam e ornamentavam com as relíquias esculpidas por eles mesmos e pelos índios recém catequizados.

Durante um certo período após a ordenada expulsão, os religiososo tentaram se esconder sobrevivendo junto às tribos. Muitos não queriam partir. Alguns por que haviam se apegado verdadeiramente aos indígenas, outros simplementes aos seus pertences dourados e brilhantes. Mas a situação foi se tornado difícil, o cerco foi se fechando em torno deles.

Duros questionamentos, a resolução foi tomada: era preciso partir o quanto antes. Começaram a reunir todas as preciosidades acumuladas, percebendo que não valeria a pena deixar nada para trás. Mas, como a quantidade era realmente grande e, dado o transtorno de uma viagem às pressas, surgiu o problema de como transportar carga tão pesada. Olhos famélicos voltaram-se para os índios, catequisados e ignorantes da situação que viam acontecer sob seus olhos.

Pouco foi preciso usar dos caminhos entre o céu e o inferno para formar um grupo de índios servis e jesuítas desejosos de manter os valores conquistados. Valores materiais, bem materiais. Tudo isto com a firme determinação de, costeando as terras gaúchas e catarinenses, alcançar o Rio de Janeiro e lá uma embarcação maior que os levasse de volta à Europa. Incógnitos e ricos.

Chegando à Laguna, os jesuítas foram percebendo as grandes dificuldades de mander o primeiro objetivo definido sem haver um encontro indesejado com tropas imperiais ou tempestades maiores, situações as quais eles não tinham como enfrentar. Assim, desceram nas praias de Santa Marta e lá montaram intalações provisóiras. 

Dias e dias preparando a próxima etapa da grande viagem fez com que as tropas da declarada caça aos religiosos fosse se aproximando, deixando os jesuítas não em pé de guerra, mas de cabelos em pé.



(Nada melhor para ouvir do que a trilha sonora do filme A Missão. Nada tão sangrendo.... mas as músicas são inspiradíssimas, digamos)



A LENDA DO TESOURO DA LAGUNA (2)


Imagem da net


Acampados nas proximidades do local onde vemos hoje o Farol de Santa eles se questionavam procurando meios de fugir sem deixar vestígios e, se possível, sem perder carregamento tão importante. Abandonar a embarcação e embrenhar-se na selva? Voltar para o barco e tentar navegar um pouco mais adiante? Porém para cada solução que atinavam vinha de encontro sempre o mesmo problema: o peso que carregavam.

Pouco a pouco as soluções foram reduzidas a quase nada. Foi quando um dos missionários teve a idéia de tudo abandonar, pelo menos por um tempo, disse ele. Enterrariam aquele tesouro em um local bem marcado e assim poderiam partir rapidamente. Poderiam, desta forma, refugirar-se em cantos diferentes e, mais tarde, quando esta perseguição invejosa do clero cessasse, voltariam para buscar.

O plano foi aceito de imediato e os jesuítas passaram a correr um busca do local perfeito para esconder o tesouro. Acabaram por achar que o melhor lugar seria não muito distante da costa, sob uma enorme pedra que ficava bem em frente ao mar.

Lugar totalmente desabitado, os astuciosos indivíduos não tiveram que fazer muito esforço para cavar um fosso bem profundo quase sob a pedra. Ali colocaram a maior das malas que dispunham com tudo o que havia de melhor dentro. Tudo o que havia de mais valioso entre seus pertences: imagens de santos e objetos religiosos fabricados com o mais puro ouro, jóias artesanais contendo as mais preciosas pedras e todos os objetos de valor que puderam lá guardar. Resolveram também deixar parte do dinheiro. Moedas pesavam muito.

Fecharam o malotão com grande tristeza e com ainda mais o buraco que afastava seus olhos de tudo aquilo. Primeiro, com pequenas pedras. depois com pedras maiores, novamente com pedregulhos e, por fim, com terra, muita terra, terminando com mais pedras.

Tudo pronto, vinha agora o mais delicado: marcar com segurança a área escolhida para que, assim que pudessem retornar, encontrassem lá intacta a carga enterrada.

Foram contados cento e vinte e cinco passos da beira da praia até a pedra. Desenharam um mapa e reproduziram entre si. Como as ondas batiam quase em cima, era difícil para qualquer um que viesse a passar por ali descobrir tal façanha. Ademais, aquele lugar, deserto como era, não clamava por visitantes. Esperaram o anoitecer e partiram.



A LENDA DO TESOURO DA LAGUNA (3)


Imagem da net


Alguns jesuítas foram selva a dentro, tentando chegar até a vila mais próxima. Destes, muitos morreram acometido por doenças estranhas as quais eles eram incapazes de curar. Outros foram abatidos por animais selvagens. Outros ainda encontraram a má sorte junto a índios temerosos de serem escravizados.

Daqueles que tentaram sovreviver a mais uma aventura marítima, também foram bem poucos os sobreviventes. Tempestades e tropas imperiais revezaram-se no extermínio. Foi realmente escassa a quantidade de missionários que conseguiu chegar a uma vila, que por mais, ainda o pudesse acolher.

Um destes, já extremamente doente, chegou a São Vicente e foi recolhido clandestinamente pela família de um pároco. Aos cuidados do irmão na religião ele conseguiu vencer parte da doença e passou a ali viver.

Foi durante sua estada no seio daquela acolhedora família que ele confiou ao padre toda a aventura da qual fizera parte, narrando desde o princípio: o medo das ordens de expulsão, a fuga, como carregaram longe aquela imensa carga costeando a costa brasileira... e como enterraram o maravilhoso tesouro. Não tinha mais o mapa, as intempéries dele o haviam levado, mas deu ao amigo todas as coordenadas para lá chegar. Chegou mesmo a desenhar um outro mapa, buscando em sua memória sofrida cada detalhe.

Com o passar dos tempos, não tendo aquele jesuíta conseguido regressar mais ao sul, viveu ali seus últimos anos, morrendo na paz de São Vicente.

Sua vida, no entanto, foi se propagando mesmo após ter falecido. Uma noite, o padre que havia acolhido o jesuíta, já com mais idade, contava a seus sobrinhos-netos a estranha história do velho e doente jesuíta que morrera há alguns anos. E estes, mais tarde, já pais e mães, contaram a seus filhos e netos aquela fábula que os embalara noites e noites antes de dormir. A fábula de um tesouro que brilhava ao longe, nas costas do sul do Brasil. Foram assim passando de geração em geração, volta e meia alternando os personagens principais, incorporando piratas, reis, cavaleiros medievais, bruxas... todos disputavam um papel importante na trama.



A LENDA DO TESOURO DA LAGUNA (4 E FIM)


Foto de Carlos Araújo Horn


Um dia, já numa região perto da Laguna, um menino ouviu mais uma vez a lenda dos jesuítas. Ele já tinha ouvido umas tantas vezes e a cada vez se mostrava mais interessado. Era seu pai quem contava, num dos raros momentos em que estavam juntos. E contava com tal riqueza de detalhes, que ele podia ver mesmo o mapa diante dele. Assim, o tempo foi passando, ele foi crescendo e o mapa do tesouro continuou traçado em sua memória.

O menino cresceu, virou homem e, já no entardecer da vida, juntou-se a um amigo e foram até o local referido na história. Não mais deserto, o lugar agora era um vilarejo com várias casas, visitado, e com um imponente Farol. O mar, batendo bem mais abaixo, não permitia fazer os mesmos cálculos para encontrar a pedra. Tinha se tornado difícil encontrá-la, tendo em vista as casas construídas na orla marítima.

Mesmo assim, através da projeção de todos os cálculos feitos cuidadosamente durante meses, os dois amigos conseguiram quase que localizar a área exata onde estaria enterrada o tesouro. Com uma pequena máquina para detectar metais eles foram seguindo as pistas. Até chegarem a uma propriedade, agora privada. Na dúvida entre entrar, explicar tudo, pedir o consentimento para cavar ou tentar fazer as coisas às escondidas mesmo, eles foram para casa pensar.


Foto de Carlos Araújo Horn


Não é possível dizer quanto tempo se passou desde então. Talvez tivessem passado uns cinco, seis anos. Foi quando fui visitar minha amiga, numa de minhas visitas quase diárias para estudar e conversar. Estudar e conversar com a amiga. E ouvir as histórias do pai dela, fascinante personagem que me fez viajar por guerras mundiais, revoluções brasileiras, agitações catarinenses, prosas lagunenses e tanto mais. Foi num destes momentos, tão preciosos para mim, que ouvi com toda a alma a saga dos jesuítas.

Durante todo o tempo em que ele me contava fui tragada, como sempre acontecia, ao passado de forma a participar ativamente do que acontecia. O pai de minha amiga tinha aquela simpatia e dom de nos fazer entrar em suas narrativas.

Naquela tarde, quando saí de lá, saí intrigadíssima. Levava comigo interrogações sobre o tesouro do Farol e seu sorrriso de "Monalisa" que só respondia o que desejava. Tentei voltar outras vezes ao assunto, mas ele sempre tinha outra história para contar. Maravilhosamente.

Minhas preocupações adolescentes da época me fizeram aos poucos esquecer o ouro, os jesuítas e as viagens ao passado. Apenas, na minha memória, havia se instalado para sempre a velha lenda.

Hoje, lembrando de tudo fico ainda a pensar sobre o assunto. Me pergunto se o pai de minha amiga chegou a voltar lá com seu amigo... ou se alguém silenciosamente resgatou o que ele tanto tempo buscara.

 

Ou será que ainda estará lá o tesouro do Farol?

 

Dedico esta história a quem me contou, Roldão Medeiros. Obrigada seu Roldão!


** No site certas imagens estarão colocadas apenas como "da net" porque infelizmente a gente procura o autor e não acha. Mas se a foto é sua, me diga tá!  Muitas imagens, mesmo com autoria, são encontradas ou recebidas por email. Caso não desejar que sua foto, com autoria ou não, continue publicada aqui é só avisar que ela será retirada. Obrigada!