Ando passando por fases. Como sempre, provavelmente como todo mundo e para sempre. Mas é esquisito. A semana passou me trazendo enxaquecas violentas e o que costuma vir como acompanhante. Vieram também a falta de ar e fui apresentada às crises de pânico: horror de andar por uma rua diferente, crise de medo e choro; horror entrando num tubo de IRM que antes me fazia dormir...; horror por qualquer barulho que fosse o que fosse tomava forma de ruído ensurdecedor.
Cada vez que pensava, vou escrever... vai sair de mim quando eu escrever... e nada. Só algumas lágrimas acalmadas pela química que por vezes me parece ainda mais insana do que eu mesma, tentando remediar o que não tem remédio. Dor é dor. Lágrima é lágrima. Ou dor é lágrima e lágrima é dor?
Levantei hoje e, como depois de um tombo, tentei me erguer. As pernas não firmam. O coração usa um ritmo completamente sem convenções. Tem um roxo ali no braço que mostra uma veia arrebentada. E uma coisa agoniada no meu peito me diz que tem muito mais coisas arrebentadas dentro de mim do que eu pensei que tinha há dez dias atrás.
Fui tomar banho, as águas me invadiram o corpo e de repente parecia que eu estava sendo ali batizada pela canalização moderna: "Liberta-te!!!"
Fui me pentear e o reflexo no espelho foi incapaz de pedir um sorriso. Me mostrou as rugas e apontou do dedo as olheiras fundas do olhar profundo.
Fui me vestir e nenhuma das roupas quis ser em mim mais do que pijamas: "Dorme, dorme!!" E o sono veio rápido e violento e arrebatante. Me espalhou pesadelos e uma falta de quietude. Na manhã que seguiu eu quis ser para sempre insone. Impossível.
Dou agora mais uns passos e olho para o lugar em que havia caído sem o ver. Vejo a queda. Me vejo titubear e levantar. Eu me ergo do chão, pego a comoção que me fez tombar e choro.
Vai passar, vai passar... calma, menina dentro de mim, vai passar...
Ando com esta sensação de esterilidade. Gostaria até que fosse um silêncio interior muito grande que levasse a esta escassez de vontades. Mas não há silêncio. Há imagens e gritos tantos e tantos que chegam a me sufocar. Respiro mal. Puxo o ar e ele não vem nem pelo nariz. É quando a vontade de tirar tudo o que está aqui dentro fica ainda maior e maior eu sinto a aridez em que me encontro.
A noite vem e ao invés de me devolver a calma, me traz medos desconhecidos. O dia volta e com ele a agonia de não saber se quero saber qualquer coisa que seja.
Instante infecundo se prolonga e abusa de mim: transforma minhas letras em lágrimas secas, difíceis de soltar e mais difíceis ainda de engolir. Os olhos dóem. A garganta dói. O coração dói. Tudo dói. Não sou vítima de um deserto de emoções, mas carrasca de um pântano de sentimentos desconhecidos. Aqui nem sei quem sou mais.
Resisto falsamente incólume ao cansaço que não suporto mais ter. Não me suporto mais. Não posso mais aguentar o cansaço que a cada hora mais me enlerda e me transforma no que nunca mais voltarei a ser.
Sinto que a esterilidade já circula no sangue. Certas coisas em mim que antes tinham nome e função hoje penam a existir... sufoco... respiro... sufoco... respiro... sufoco... respiro...
(A rua está cheia de barulhos... estão fazendo buracos... os carros passando... pessoas falando... é engraçado ouvir o mundo continuar seus movimentos assim, como se tudo estivesse...)
Vê de mim. Vê em mim. Pelo amor do deus no qual não creio enxerga dentro de mim o que não posso mais contar. Olha aqui dentro e tenta parar de repetir as fórmulas que, de tão óbvias, já se comprovaram e não deram certo: nada fizeram para me trazer de volta. Mas se escolher ver em mim tenha a certeza de querer ver a pessoa certa. Tenha a certeza de querer me ver eu e não uma pessoa que não existe, nunca existiu ou simplesmente não existe mais.
Me dá a mão. Estica a mão até aqui onde estou. Pode acreditar, é longe. Estou tão longe que já perdi o endereço, a direção, a profundidade, tudo. Mas não perdi a vontade de retornar. Então, por todo sentimento que anima os seres, pega o meu braço e me carrega. Porque força eu não tenho mais. Não tenho pra andar, não tenho para abrir os lábios... levantar os braços... o pouco que resta está lá no fundo e, fagulha acesa, guarda o caminho para quem tentar chegar para me tirar daqui.
Não esquece que eu não sei mais falar. Que tudo o que eu digo sai distorcido pela dor, fantasiado pelas saudades, magoado pela solidão. Então quando de mim tudo o que jorrar for negro... lembra das fábulas infantis, lembra das princesas desencantadas pelas bruxas más... lembra que tudo o que eu estou precisando agora é de um final feliz. Provisório. Mas feliz.
E que tipo de insensibilidade seria a desculpa para me abandonar? Qual seria o nome da venda dos olhos? Coisas da bruxa má... Uns esquecem. Outros perdoam. Mas pelo menos fazem alguma coisa. O pior é o nada. Coisas da bruxa má...
(Ouço músicas, muitas músicas... entre elas Natasha Bedingfield cantantado Soulmate)
Não é muito simples tentar identificar emoções. Principalmente quando elas são boas. Geralmente é o caso de se dizer: se tá bom, fica quieto. Mas eu não sou assim. Tá bom é? Então eu preciso saber porquê que tá "tão" bom... mesmo se eu reconheço que o efeito de certos navegadores são eficazes neste imenso oceano da vida... mas eu sou assim... preciso de razões justamente quando não deveria precisar.
De repente, nos últimos dias me pego rindo do fato de estar como uma dor danada. Ou falando da fatiga extrema que me toma com o maior sorriso nos lábios.... estranho? Estranho... bem estranho... O telefone toca e a minha vontade é de jogá-lo no lixo, assassinar a pessoa que está ligando, mas me levando lentamente, olho o número, pego o aparelho e, lentamente, coloco-o dentro do armário. Gestos que não são meus. A raiva contida é. Os gestos não.
Começo a falar, a pensar, tudo se confude... um amontoado de pensamentos. Sonhei, pensei, falei? Algumas coisas parecem se tornar mais racionais, outras completamente irracionais. Gasto a sola dos sapatos da razão tentando encontrar uma única dica.... e vem a imagem que me apavora: um submarino! Eu estou fazendo a maior festa num submarino! Logo eu, que tenho horror de submarinos!
Por isto tudo está bem... agora começo a entender... a música (Tina Charles cantava agora há pouco Love me Like a Lover), as pessoas indo e vindo, os meus sorrisos, o humor meio deslocado e o comportamento mais que distante de mim... estou fazendo a maior festa dentro de um submarino! Lá fora, litrões e litrões de água (para evitar a pesada toneladas) envolvem o submarino e dentro dele estou eu... (meu coração ritmado agora com Evelyn Thomas cantando Heartless...) completamente surreal.
A imagem me causa um pavor profundo. Me entrega a uma claustrofobia impossível de controlar ou disfarçar. Aqui das profundezas nem ouso gritar. De nada serviria. Dentro do submarino tudo é falso, meus gritos nem ecoariam nas paredes. E o o oceano imenso que está sobre mim é pesado demais, escuro demais, grande demais. Qualquer grito seria abafado.
Eis a grande diferença entre uma crise de pânico quando se está na beira na praia, com os pés na pontinha das ondas do mar... e uma crise de pânico quando se está submerso no oceano, tão submerso, que já não se se sente mais os movimentos das águas... não se consegue mais sentir...não se consegue mais respirar... não se consegue mais...
Perdi o norte tentando achar uma direção qualquer... e tentando achar norte acabei me perdendo e perdendo a bússola que ia me trazer de volta. Agora fico indo e vindo, afundando alguns caminhos já bem pisados e massacrados, alguns deles reconheço e penso: estou andando em círculos! Mas círculos me dariam um significado, me trariam algo de mais ou menos profundo para pensar. E não quero pensar. Não quero lembrar.
Me perdi nas incessantes buscas de soluções para tudo e descobri que elas não existem. Nem as soluções e nem as buscas. Só os caminhos, eles existem, eles seguem sempre, são linhas que vão e dão espaço para quem quer se movimentar. Linhas paralelas, linhas cruzadas, linhas invisíveis.
Parado, caminhando... estou perdido. Ando pensando e pensar me entristece, me leva a estradas e nortes ainda mais perdidos do que eu. Me leva a não querer nunca mais ver nova estrada, me traz o medo, o medo de uma solidão diferente e completamente intransigente.
Eu prefiro o momento presente, alguns, raros, alegres, gotas, um coadjuvante do outro em encenações felizes. Ser feliz. Um pouco mais. Só um pouco mais. Mas ser. E não pensar. Sobretudo não pensar que pode acabar.
(Estu ouvindo Nightwish, "The Poet And The Pendulum")
E eu me olho, e quando me olho é como se olhasse o espelho de uma outra pessoa. E escuto o riso, a risada que ecoa, como se nunca tivesse sido minha, mas sim de outra pessoa. E todos os meus gestos, os braços, as mãos, tudo se confunde e os movimentos se fazem como se fariam em uma outra pessoa. E esta pessoa que eu vejo, que escuto, da qual pressinto os gestos... eu tenho sempre a impressão de ter já visto tanto... eu já vi tanto... em tantos retratos, em tantos instantes da minha infância... e eu a chamava ...mãe!
(Coloquei - de novo - o disco de Cinema Paradiso para ouvir - e me tranquilizar. Toca neste instante "First Youth", já sei que logo depois vem "After the Destruction" e depois "Love Theme" e depois...depois eu vou dormir... chega por hoje)
Desperdicei de mim tecendo imagens sombrias e assombrando todos os que se aproximavam. Foi uma quantidade de energia tão grande que mesmo que eu tentasse recuperar hoje não conseguiria... mesmo arrombando barragens, sugando toda a água. Ou mesmo respirando duramente como agora eu respiro... sem saber se a dificuldade vem de mim, de simbioses adquiridas, de alguma fé não renovada... respirando, quase agonizando e com a certeza de que a agonia pode durar a eternidade dos que odeiam a solidão. E qual foi o dia em que deixei transparecer a solidão? Qual foi? Quem ultrapassou os limites e cruzou a linha que diz jamais chegue perto de mim?
Os túneis agora se seguem com mais frequência, logo agora que sou eu a mais assombrada com tudo o que de mais sombrio pude deixar transparecer. Eles se mostram, monstros, escuros, curtos, longos, um atrás do outro e tentam me enviar mensagens num código que não entendo. Eles estão superestimando a minha inteligência. Os túneis pensam que porque eu quis tanto tempo amar as distâncias agora sou capaz de amá-los e compreendê-los. Mas não posso.
O que quero é tão simples como nos tempos de qualquer um: quero a minha salvação. Quero respirar o ar que tem em volta de maneira normal. Daquele jeito tão normal que a gente esquece que respira. Quero crer de novo em alguma coisa, em algum deus perdido em alguma imagem junguiana qualquer. Quero que meus olhos brilhem. Quero estrelas nos meus olhos. Não quero mais ter vinte anos. Não quero mais tempo do que o necessário. Mas quero esquecer a demência das sombras, das barragens, dos túneis, dos escafandros, das almas perdidas e das respirações que não vem.
Derrubei muitas pedras no meu caminho para chegar até aqui. É meu direito poder me erguer para poder respirar melhor e caminhar até achar quem queira andar comigo mais além.
(Não fui dormir. Coloquei a trilha sonora da série House. O CD 2. Até agora há pouco tocava Amos Lee com a Norah Jones cantando Colors. Agora tem Bird York, In The Deep... acho que vou escutar até o fim e dormir mais tarde... )
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