Era noite. E pelo vidro da janela a lua se deixava ver. Pedras formavam a rua. O vento passava e levava de mim. Me ameaçava. De fim? Açoite, isto sim. Do vento livre e traiçoeiro que entrava pelas frestas fazendo surgir em minha testa a costumeira ruga de espera. O mesmo traçado que se fez e instalou a precedente ruga, a outra, a que não sai mais. A da idade. Das feições. Não importa. Era noite e eu chamaria qualquer coisa de qualquer nome para não chamar qualquer vazio ou qualquer outro qualquer de solidão.
Mas era. Ou era o medo dela para haver mais precisão na expressão. A solidão do olhar que seguiu em frente sem ter se admirado com a lua e ter somente guardado a mão no peito. Me resguardando das pedras? Mas as pedras pertencem à rua... elas não estão lá obrando pela arte e nem pela minha infelicidade.... estão simplesmente redigindo um caminho.
Então... este olhar... o que procurava? Sinais? Sinais não são óbvios. E o que é óbvio pode ser mais enganoso do que o evidente... como toda gente. Como tanta situação.
Era noite e mesmo se a solidão insistia em ultrapassar barreiras a insistência em ser feliz trouxe o sono. E com o sono os sonhos. E com o sonhos as expectativas.
E não adianta, boas ou não, expectativas significam vida. Acordar, levantar, ver o outro dia nem que seja para sonhar novamente e ver se vai continuar....
(Estava escutando outro disco, com várias músicas até gostosas... mas coloquei de novo Rehab... com a Amy Winehouse.... só pra constar!)
Ela pára silenciosa diante da porta. Deixa que seus olhos entrem, a porta fechada, seus passos emudecidos pela ansiedade. Se fosse a primeira vez!
Dentro, ele dança os pés em movimentos tortos. Sorri, tem vontade de gritar o quanto é bom esperá-la, saber que virá. Antes dela, tudo era bom. Porque era normal. Ou tudo era normal porque era bom. Ou talvez nem uma coisa nem outra. Agora tudo era diferente. O sabor dela estava em tudo: na voz, no riso, no silêncio, em todos os gestos decifrados pela cumplicidade apaixonada do segredo.
Ela traz de volta para si os olhos e sente a presença efervercente dele. Bonito? Não sabia dizer. Mais inteligente do que os outros? Não... Melhor do que seu outro que nem era o outro? Não... Então o quê? Por que estar ali, diante daquela porta, ofegante, segurando os dedos apressados de correrem para a maçaneta?
Pensativo ele se dizia que se fosse um bicho seria... seria... um urso! Não... um leão... ou... não importava... qualquer qualidade ou defeito perdia a força só porque daqui a instantes ela estaria ali e ele seria capaz de tudo. Ele sabia o quanto sempre fora reprimido, o quanto se sentira acabado, angustiado, perto do fim. Aí ela surgira. Ou melhor, começara a aparecer diante dos seus olhos negligentes. Não podia imaginar é que um dia ela o olhasse, conseguisse ver nele o que ninguém mais via: o homem adormecido, quase morto, o jovem dentro de um corpo envelhecendo sem seu consentimento.
Ela alcança a maçaneta, arruma os cabelos e lembra da primeira vez. Complicada como se fosse coisa de adolescente. Nem achava que ainda existisse um homem no mundo de hoje cavalheiro como ele, tímido daquele jeito, que ficasse cor de rosa, vermelho mesmo, só com um olhar. Ingênuo? Pensava que não. Mas talvez fosse. Doce... tão cheio de carinho, um poço! E forte, tocava nela como se fosse um tesouro, uma peça única, rara. Com ele não havia necessidade de fingir, de ser outra. Era ela a outra. E bastava. Ainda sentia o corpo todo arrepiar, um friozinho besta passar... o desejo continuava forte e a porta estava só precisando ser aberta.
Demora! Passavam já cinco minutos do horário marcado. Tudo bem, não era nada. Demora da hora, demora dela, demora da saudade, demora desta vontade louca de tê-la e nunca mais devolvê-la! Ele tinha esquecido quanto tempo fazia que não usava estes termos: saudade, amor, paixão! Com ela tudo vinha mágico, sem raciocínio, apenas a pele clara, o corpo maduro da mulher que ele abraçava e desejava que fosse só seu. Uma vez, há muito tempo atrás, pensara no fato de ter uma amante, como a maioria dos seus amigos. Descartara a idéia. Agora, quando a via entrando, sorrindo, lentamente chegando e beijando seu rosto, seu corpo, suas mãos ultrapassando seus limites, ele se perguntava ainda. Não conseguia chamá-la amante, mas sim, de amor.
Ela sentia o rubor encher-lhe a face esvaziando os pensamentos. Quanto estavam juntos não queria que o tempo passasse. E se passasse, que acabasse ali, de uma vez, para que não precisasse retornar a nenhum outro mundo. Nem deixá-lo tampouco. Eram mundos diferentes e, cliché, iguais. A velha história do tudo que é igual separa. Apenas, quando seus lábios deixavam de ser seus lábios e se tornavam uma fonte inesgotável de paixão, sabia-se capaz de tudo. A cada instante. Desejava dele o momento. E no momento, o corpo e a presença. Amava percorrer todos os caminhos daquele ser temeroso de deixar-se ir.
Ele havia perdido os preconceitos do corpo imperfeito, da idade não mais tão jovem. Hesita e abre os olhos. Ela está ali! A cada vez é a mesma coisa... quer olhá-lha... mas tem medo que o desejo afugente o sonho.... Logo agora que com ela havia se descoberto novamente homem. E era novamente todo princípio. E fim. E não num sonho perfeito, mas na sua realidade, imperfeita que fosse.
(As músicas são antigas, neste momento tem Dusty Springfield cantando You Don´t Have To Say You Love Me)
Há certas coisas que são impossíveis de dividir. Impossíveis ao ponto de a gente tentar agir como se fosse normal, fazer tudo para que seja normal e sentir tudo gritando lá de dentro que não, não é normal.
Sempre achei que fosse egoísmo... pensava: mas que ego hein filha! Só que ontem uma sensação esquisita me bateu e hoje eu acordei com a mesma sensação esquisita me dando ordens, esbofeteando, cortando meus pensamentos pela metade e arrasando com todas as minhas conclusões em geral conciliadoras.
Não, eu não sou egoísta. Mas tem coisas na minha vida que eu não gosto de dividir e entre elas está a lembrança mais do que viva de certas pessoas. Porque compartillhar esta lembrança seria admitir que num determinado ponto da vida houve uma encruzilhada, pontos, pessoas, vidas se cruzaram e viveram situações em comum. E eu não quero, não aceito, não tolero, não desejo partilhar com ninguém de certos instantes e ou pessoas que possam ter sido importantes demais na minha vida e que naquele mesmo momento foram por poucos instantes roubadas de mim.
Escrevo e meu coração acelera como um louco. Minha mente já não está conseguindo explicar coisa alguma... mas uma raiva imensa e surda e afiada sobe e me corta a face para que o sangue escorra e eu não esqueça: não há partilha. Estas lembranças são minhas. Se no passado já houve invasão de domicílio com certeza no presente não acatarei invasões em minha terra tão duramente cultivada.
A raiva do momento vai passar, o coração vai acalmar, vou dormir e descansar. Mas o que é meu é meu. Foi meu. E será meu.
(Minha nossa que agonia que eu tava desde manhã... agora escrevi isto e coloquei E.S. Posthumus pra ouvir... pra me acalmar... pra voltar ao meu mundo...)