SENSAÇÕES 

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Uma reflexão insone sobre as razões que nos movem a existir em algum lugar, por algum motivo, num tempo indeterminado.



O espaço e o tempo são termos interessantes. Neles residimos e depositamos uma confusão de sonhos e realidades intrinsecamente ligados à concepção nossa de vida.
No espaço procuramos nos situar, enfatizando as raízes as quais teimamos em constituir e fazer crescer, deslocando-nos o necessário para não pararmos.
No tempo, insistimos em residir, mesmo conhecendo as regras básicas da vida, onde sabiamente não existem regressos nem avanços por livre desejo. Tudo é espontâneo e se manifesta conforme invisíveis formas.
Somamos a nós energias análogas. E o que são elas? São todas aquelas que nos transmitem uma certa empatia. Seja por haver algo que se pareça conosco de alguma forma, seja por viverem experiências semelhantes aquelas que vivemos.
Inviabilizamos qualquer contato com o que nos ameace. Forças estranhas, medos idênticos, palavras bélicas. É impossível querermos ao nosso lado o que não venha a suprir mais do que as necessidades corpóreas, o essencial de ideais traçados.
E os ideais que traçamos, primeiro instintivamente, depois de forma mecânica e, mais além, como fonte vital, buscam uma localização em nós, dentro de um espaço e de um tempo que, apesar de mostrarem-se ilimitados, possuem limites próximos e frágeis.
Dentro do espaço? Possível. nòs mesmos formamos nossos horizontes e fronteiras. Dentro do tempo? Ah, aqui é que tememos. Aqui é que corremos, pois o tempo destitui-nos de qualquer poder em relação a ele, zombando das esperanças depositadas em algum lugar do futuro.
Entretanto, espaço e tempo são conjuntos e fluem sempre no mesmo rumo. Por isso, não importa que espaço ocupemos, o tempo para nós será sempre o mesmo.
Assim, melhor do que nos preocuparmos com o tempo a ser vivido, melhor é buscar o espaço ideal. Pelo menos, seja o tempo qual for, ao que chamamos de seu final ele nos encontrará naquele espaço delineado e aperfeiçoado por nós, como um corpo, uma alma, um infinito desejo de ser.

 

(Pra desopilar e contrastar com meu humor negro, estou ouvindo o disco "Grande Encontro do Samba"... e assim lembrando das boas coisas e buscando novos motivos...)



O VELHO DAS CALÇADAS


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Talvez o velho lá das calçadas nem fosse tão velho quanto parecia, lá encolhido sob a velha e surrada coberta que mal o cobria. Nem mesmo sei quantas noites ele fizera daquela calçada na frente daquele prédio o seu quartindo de dormir. Algumas vezes passei por lá, entre seis e sete horas, já noite ou anoitecendo, e o via do mesmo jeito: uma sacola feia e muito usada, o cobertor e ele. Mais nada.

Pensava nele todas as vezes em que fazia o trajeto para casa, tentando descobrir o que o havia levado até lá, tão solitário e encarquilhado, perdido em seu mundo, pousando volta e meia os olhos em um ou outro que por ele passavam.

Teria família? E se tivesse? Seriam eles desumanos por deixá-lo ali sem nenhum aconchego ou teria tido ele atos tão desalmados que fizeram com que a família dele se esquecesse? Teria o que comer todos os dias? Seus ossos apontavam o pouco visível de seus braços... e me diziam que não...

O velho ser prendia meus pensamentos como muitas situações caóticas prendiam, lancinando meu coração com as dores mais cruéis e atormentando a minha mente com o a dor do mundo, a dor imensa e não alheia, nunca e jamais alheia. Crianças, idosos, adultos, jovens, qualquer idade. Abandono, violência, fome, drogas. E uma impassividade que persiste em nos afligir como se fôssemos sempre o outro, nunca o sofredor.

Enquanto o velho das calçadas esticava dolorosamente seu braço esmolando, outros que tinham talvez sua idade governavam países e empresas, violentavam crianças, mulheres e contas bancárias. Enquanto a fome do velho das calçadas ia aos poucos crucificando seu corpo, sua mente, seu presente e seu passado, todos os passantes, de todas as idades, pouco a pouco, iam morrerendo de inanição.

O velho das calçadas, hoje, agora, quando escrevo estas linhas, provavelmente deve estar morto. E eu? E nós? O quanto ganhamos da vida nos últimos minutos? O que fizemos deles? O que?

 

(Toca "Sem Você", interpretado pelo fabuloso Ney Matogrosso... maravilhoso...)


REFLEXÕES PERPLEXAS

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Estava aqui refletindo, como me escreveu uma amiga outro dia, sem fazer rascunho (de qualquer maneira eu tenho mania de não fazer rascunhos....) pra não perder a idéia..., sobre palavras que têm me vindo à cabeça com frequência quando a gente vê o mundo em que vive: inveja, insegurança, ciúme, impiededade.

E comecei: para onde levam estas palavras? Para que lugar levam estes sentimentos? Que tipo de atitude tomam as pessoas tomadas por elas (eles)? O que vem buscar numa pessoa os que sentem em si mesmos a falta do que poderíamos chamar de humanidade? Ou seria justamente esta falta a prova mais segura de que há humanidade? A amoralidade se justifica assim por si mesma? Ou não há, pois somos todos simplesmente humanos?

Cruel, cruel...

Pois para mim a inveja é um freio potente, capaz de bloquear o bom senso.

A insegurança, uma trava fria, capaz de trancar qualquer comunicação.

O ciúme, vil sentimento, violento nevoeiro capaz de embaçar a mais sagaz visão.

A impiedade, esta, muitas vezes irrefreável, leva ao que pedirá ao outro a mais dura das respostas: o perdão.

Perplexamente percebo que o ser humano age assim grande parte do tempo sem nem mesmo se dar conta... mas se ele se dá conta, se sabe o porquê de sua inveja, de seu ciúme, de sua insegurança diante do outro, de sua impiedade, não importa.... que ele chame isto de seu ego ou de seu deus... eu chamo de malevolência, de ruindade, ignorância.

Cruel, cruel... Respiro fundo para afastar o enjôo e continuo ouvindo Beyoncé e Shakira cantando juntas "Beautiful Liar".



MINHA JANELA PARA O MUNDO 


Imagem: Nissum

Estava aqui debruçada na vida observando os passantes. Nos últimos tempos é uma das coisas que tenho feito e, confesso, começo a achar engraçado, ter um computador como janela para o mundo e a internet como uma espécie de energia movendo tudo, abrindo os espaços-estradas.

Aqui neste mundinho fechado ouço as minhas músicas, crio "coisas", escrevo...

O computador, que já era uma paixão (se eu posso chamar assim), agora é meu companheiro mor. Abro uma tela e vou em busca do que me interessa... vou ver se minhas séries favoritas começaram. Oba. Hora de dar sequência a um dos meus prazeres, minha evasão através de vidas que não são minhas... Antes eu fazia muito isto só com livros. Muitos e muitos livros. Mas agora, depois deste longo tratamento ao qual venho me submetendo, minha cabeça anda cansada... muito cansada.... leio menos, leio devagar.... então, porque aprendi a me respeitar e aceitar e me tratar bem, faço tudo aos pouquinhos....

Voltando ao computador, esta minha janela para o mundo. É só aqui que sou sociável. Sinceramente. Perdão, mas esta é minha realidade atual. Ando tão emotiva, tão só pele e coração que não consigo mais andar entre as pessoas de carne e osso.... (e não só porque o médico proibiu visitas, telefonemas, etc.). Ando bem longe de tudo o que faz de alguém uma pessoa sociável.... Calma! Não virei sociopata tampouco! Mas em algumas situações, por pouco...

Então me debruço nesta minha janela que dá pra vida e fico observando... de vez em quando encontro pessoas legais, curto os encontros, os reencontros, me divirto... e coisa doida e boa da vida chego até a conhecer pessoas novas que vêm preencher um pouco mais meus pedaços em branco. Depois volto para meu mundo, este que só tem aqui dentro de mim e que ainda não tem fechadura e nem porta.

 

Ah, esta vida é mesmo qualquer coisa...

 

 

(Agora tá cantando o Damien Rice... 9 Crimes)