Hoje comecei o dia com o som do telefone (que literalmente me apavora) por volta de sete e pouca da manhã. Era só minha médica, marcando mais um exame. Se já fiz IRM? A senhora sabe que já... Do cérebro? Sei lá... Se eu sou claustrofófica? Não...(Não... não sei... talvez atualmente eu seja... sei lá). O dia está começando e meu coração disparado me pede pelo amor de qualquer entidade que eu o acalme. A única que eu conheço atualmente é cor de rosa, em forma de comprido. E se toma com água. Maldito telefone.
Faço lentamente minhas tarefas matinais e depois me dirijo à minha trincheira: o sofá. Nele estão meus livros, revistas e o laptop (o Jack Bauer) meu melhor amigo nestas horas em que a coluna também me impede de ficar lá sentada com meu outro grande amigo Hiro Nakamura (o outro computador... viu, sou fã mesmo de série de TV).
Coloco um disco de Nina Simone, ah, "Baby Brown" e tento recomeçar o dia sem a outra parte que continha o "copo de cólera". E então, sem nem mesmo entender como, vou parar há quase trinta anos atrás, em Campos Verdes, aquele lugar paradisíaco onde fui por alguns meses professora primária.
Cheguei lá tão crua, com a única experiência de, alguns anos antes, ter trabalhado com crianças no que era a parte da Febem de SC. Fui dar aulas para uma classe de terceiro ano primário, uma substituição. E um amor, recíproco, à primeira vista.
Amei aquelas crianças que tinham tanto para aprender e tão pouco tempo diante delas pois o trabalho (trabalho!) aguardava fora da escola. E elas amaram aquela professora jovem que tinha toda a paciência do mundo e um medo imenso das galinhas que invadiam a sala de aula!
Dividíamos nosso tempo entre o que o currículo considerava obrigatório, entre o que eles consideravam divertido e entre o que o eu tinha certeza que era necessário. Neste último ítem eu incluía coisas como catar piolhos ou arrumar um ônibus para levá-los para Laguna, conhecer, enfim!, a cidade deles mesmos.
Recebi muitas advertências. E não foi o fato de ter uma tia de minha mãe (saudosa tia Noêmia!) como Diretora, que me livrou de alguma!! Por dar aulas no meio do mato ao invés de permanecer na sala de aula. Por ir nas casas dos alunos solicitar às famílias uma maior presença dos alunos. E um monte de outros etc que não vem ao caso...
Pegava o ônibus todas as manhãs. Mas quando terminava a aula não tinha mais como voltar a não ser a pé. Então eu vinha... vez ou outra ganhava uma carona de bicicleta, de carroça... mas a grande maioria das vezes era a pé mesmo. E que importava? Se alguém já fez este trajeto que falo a pé sabe do que estou falando... é uma das maravilhas da humanidade... um presente para a vida...
Fiz muitos amigos, muita gente boa naquela terra querida. Lembro uma vez, minha tia Noêmia me dizendo para ficar, era uma sexta-feira, para um baile no sábado. E eu fiquei. Fui ao baile na noite seguinte com as roupas emprestadas da vizinhança empenhada em me alegrar e me embelezar.
No salão paroquial, tradicionalmente ao lado da igreja, o baile começou cedo (para os meus parâmetros). Minha surpresa não se continha minuto após minuto. Observava os jovens que dançavam junto aos velhos casais, as crianças que se penduravam nas janelas, algumas senhoras que cuidavam dos seus bebês perto da porta... e tudo normalmente. O "conjunto" tocava, todos cantavam, todos dançavam. Dancei com meu tio Marcelino que, muito orgulhoso, voltou para a mesa anunciando: "minha sobrinha parece uma pena!". Quando a música cessou, observei uma movimentação geral, um burburinho apenas, nada de muito importante.
- O que eles estão fazendo, perguntei? - Ah, respondeu sorridente uma vizinha, eles estão fazendo a conta pra pagar. Na mesma hora me levantei e peguei minha carteira. Uma outra vizinha, me olhando como se visse um objeto estranho...
- O que é que tu vais fazer?
- Vou lá pagar o que bebi e comi, vou ajudar nas despesas ora.
- Tá doida?! - ela estava mesmo ofendida - Aqui não é assim. Todo mundo no salão bebe e come. E quando o baile termina os homens dividem a conta entre eles. Ninguém vai ficar perguntando quem fez o quê.
Sentei. Poucas vezes tive aquela sensação. Continuei olhando o jeito deles, distribuindo o dinheiro, os abraços, estendendo as mãos, esticando as mãos em "até amanhãs" que seriam dentro de poucas horas... Me senti forte. Me senti segura. Me senti em paz.
Acabo de lembrar porque voltei para Campos Verdes na minha memória: não foi só o lugar maravilhoso. Foram os instantes maravilhosos que passei com aquele povo maravilhoso. Com aquelas crianças maravilhosas (que nem são mais crianças... antes de eu vir pra cá, há 17 anos, um mocinho um dia no ônibus no Mar Grosso bateu no meu ombro e me disse: "Tia, lembra de mim?")
Como se eu pudesse esquecer... E, só pra terminar, minha aventura terminou por causa de um menisco estourado e certas complicações. Muita temosia minha, muita insistência do Dr. Zalesky e uma das caras mais feias que já vi meu pai fazer me levaram a uma mesa de operação, alguns meses de recuperação e mudança radical de profissão. Coisas da vida.
(Já é de tarde... estou ouvindo o disco do Rod Stewart "The Great American Songbook Vol. 3", e quando eu estava acabando de escrever ele cantava, olha a coincidência... "What a Wonderful World", com o Stevie Wonder... vida, vida, que mar cheio de ondas que tu és!)
Naqueles que eu já começo a quase ousar chamar longínquos tempos de adolescência, muitos foram os momentos que marcaram. Definitivamente. Aqui vai um deles.
Nosso professor de Física vinha de Florianópolis para Laguna especialmente para nos dar aulas. Claro que na época fazíamos algum esforço para compreender o seu sacríficio pela educação de alunos que eu não chamaria de selvagens, mas de reticentes... Mas o esforço se acabava junto com a vontade de acordar aos sábados (sábados!) para começar as aulas exatamente às sete e meia da manhã. Não, adolescentes que me lêem, vocês não estão sonhando. Sim, pessoas com um pouco mais de idade do que eu que estão lendo agora, é a pura verdade. E vocês, colegas, lembram?
O professor Sérgio Nacif vinha de Florianópolis legar seus conhecimentos aos seus alunos conterrâneos! Sorte dele e nossa é que, no instante em que ele dava a aula por iniciada e desta forma começava então suas viagens através da Física, o mundo lá fora perdia o interesse. O mundo que ele nos trazia através de suas palavras, de suas experiências, comparações, tudo era tão cheio de importância que a gente esquecia que estava numa sala de aula. Esquecia o horário, o sábado e até o fato de que eram 3 aulas seguidas. Algumas vezes 4. Eu bem que disse... E é verdade.
Perdi o medo que eu tinha de trovões durante suas aulas. Chovia forte, raios e trovões me faziam pular da cadeira. Não sei se ele notou ou não. Mas sei que naquele dia grande parte de nosso curso foi sobre o assunto. Saí de lá com pose e suficiência para mim e para dividir (bem mais tarde, meus filhos pequeninos e eu, só mãe, dizendo: "... então, se a gente tá escutando este barulhão é porque o raio já caiu bem longe de nós, viu!").
Nesse mesmo ano Laguna entrou na famosa competição Cidade contra Cidade, qualquer coisa assim, lá do Sílvio Santos. E eu, como não perdia uma oportunidade de ganhar o meu ajudando aqui e ali (e se pudesse ainda aproveitando a novidade!), fui fazer extras na Prefeitura. Estas últimas palavras significando ajudar uma equipe estabelecida de pessoas a achar tudo o que fizesse Laguna ganhar a competição. E lá ia eu. Claro, assim também acabei indo ao próprio programa Sílvio Santos a cada vez, o que equivalia a perder as aulas de sábado...
Do programa tenho várias histórias para contar (o meu pai e seu monstro da lagoa - esta, eu juro que eu conto depois! - e seu papo de mais de meia hora com o dono do programa - que não foi ao ar; Sílvio Santos que queria me colocar pra concorrer; minha bolsa que desapareceu no momento dos aplausos e etc.).
Mas a melhor de todas, vêm de quando Laguna foi, que pena! desqualificada lá pela terceira vez de sua já famosa participação no Cidade Contra Cidade. Eu então, mais do que naturalmente, lá voltei em direção à sala de aula do CEAL para nossos matinais sábados de Física. Qual não foi minha surpresa ao ser recebida pelo professor Sérgio com um grande sorriso e em seguida as frases que me "colariam" na carteira até o fim do ano:
- Miss Laguna! A que devemos esta honra? Acabaram-se os compromissos? Não tem mais nada de mais importante pra fazer na cidade? Então bem-vinda! Espero que goste das aulas e fique conosco até o final do ano!
Ele nunca mais tocou no assunto. E eu batalhei pra ser o que ele esperava de mim: uma excelente aluna e não somente qualquer miss Laguna. Se consegui não sei, mas terminei bem o ano e, mais do que as boas notas e os conhecimentos de Física, guardo ainda hoje o ser humano dentro de mim. Ele e os seus sábados terrivelmente matutinos que hoje me fazem sorrir...
(Escuto agorinha mesmo Sacha Distel cantando "Beaucoup de Temps". Estou catando as minhas velharias pra ouvir... tem tanta coisa boa (tem horrores também, eu sei) que eu nem lembrava)