PASSOS PELO SONHO

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Estranhos passos passam lentamente diante da minha casa. Silêncio. Os passos transformam-se numa ânsia sutil. Abro a porta.

- Mas eu vous conheço, vós que passais assim fingindo nada ver... conheço vosso perfume tênue, vosso tilintar ligeiro... sei de onde viestes! Viestes dos meus sonhos, lá de onde ninguém tem um rosto mas todos são únicos. Andei mesmo recitando um poema de um outro, pois que em mim não encontrava palavras para descrever vossas feições... Espera! Peço que não partais agora, assim, já, como nos sonhos sempre o fizeste... Fica pelo menos um tempo curto seja ele, pois ao menos assim, quando na sequência das estradas da realidade nos perdermos, haverá o que ser guardado...


Mon rêve familier

 

Paul Verlaine

 

Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D’une femme inconnue, et que j’aime, et qui m’aime,
Et qui n’est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m’aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon cœur, transparent
Pour elle seule, hélas ! cesse d’être un problème

Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule les sait rafraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse ? — Je l’ignore.
Son nom ? Je me souviens qu’il est doux et sonore
Comme ceux des aimés que la Vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et, pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L’inflexion des voix chères qui se sont tues.


 

*Este poema de Verlaine coloquei logo no início do meu livro Coracional porque ele descreve, se é que posso dizer assim, sonhos que se repetem... e isto me acontece muito. Traduzir poemas eu considero quase um crime. Como já disseram, e eu concordo, não é "tradução", mas "traição". Mas (olha a exceção aparecendo...) resolvi fazer uma tradução livre deste porque me deu muita vontade de fazer. Pronto. 



Meu Sonho Familiar

 

Eu tenho sempre este sonho estranho e penetrante
Com uma mulher desconhecida, que eu amo, e que me ama
E que não é, a cada vez, exatamente a mesma
Nem exatamente uma outra, e me ama e me compreende.


Porque ela me compreende, e meu coração, transparente
Por ela somente, ai de mim!, deixa de ser um problema
Por ela somente, e a umidade de minha testa pálida,
Ela somente a sabe refrescar, chorando.

 
Seria ela castanha, loura ou ruiva? - Eu ignoro.
Seu nome? Eu me lembro que ele é doce e sonoro
Como estes dos amados que a vida exila.


Seu olhar é como o olhar das estátuas,
E, por sua voz,distante, e calma, e grave, ela tem
A inflexão das vozes queridas que calaram.


 

(Estou ouvindo Evanescence... acho que Verlaine, se vivesse hoje em dia iria gostar também. E a imagem é Luis Royo, desenhos que são sempre demais)

E sonho é sonho. As palavras preenchem linhas imaginárias ou concretas e deixam marcadas coisas que repetem ao sonho que pode voltar... mas será sempre um sonho. Não há despertar neste mundo. Nunca houve. E nunca haverá.... "and it's good enough".



PONTOS DE VISTA 

Cena do filme Drácula


Eu... eu tenho um ar de mistério. Um poder imperceptível, uma gota de qualquer coisa que não é possível perceber de imediato pois está sob camadas e camadas de... mais incógnitas.
Eu... eu tenho um amor infinito. Sou capaz de viver morta e, morta, permanecer viva pelo simples desejo de amar de novo o mesmo e o mesmo amor.

Eu... eu tenho em mim formas de sedução que me assustam mais a mim mesma do que qualquer outro ser... assustam e perturbam tanto que ele quer correr, se esconder.

Eu... eu já fui capaz de amar através dos tempos e dos séculos, contra tudo e todos os tempos, não exigindo, não pedindo, mas secretamente questionando.

Eu... eu sou intensa, eu vibro mesmo se eu não estou em cena. Meus olhos, incomuns, fortes, trazem um olhar doce, apaixonado.

Eu... eu sou capaz de esperar, mas esperar lutando, mesmo lentamente, de maneira quase invisível. Lutar por emoções e considerá-las vitórias.

Eu... eu tenho uma força além do comum, assim como a força para viver. Eu tenho fome de viver. E as emoções me fortalecem mesmo quando me abandono.

Eu... eu durmo na minha terra, eu vivo na noite e os óculos escuros não escondem jamais o olhar penetrante.

Eu... eu tenho palavras fortes a dizer.


 

Ele... ele tem um ar de mistério. Um poder imperceptível, uma gota de qualquer coisa que não é possível perceber de imediato pois está sob camadas e camadas de... mais incógnitas.

Ele... ele tem um amor infinito. É capaz de viver morto e, morto, permanecer vivo pelo simples desejo de amar de novo o mesmo e o mesmo amor.
Ele... ele tem em si formas de sedução que assustam mais a ele mesmo do que a qualquer outro ser... assustam e perturbam tanto que ele quer correr, se esconder.
Ele... ele já é capaz de amar através dos tempos e dos séculos, contra tudo e todos os tempos, não exigindo, não pedindo, mas secretamente questionando.
Ele... ele é intenso, ele vibra mesmo se ele não está em cena. Seus olhos, incomuns, fortes, trazem um olhar doce, apaixonado.
Ele... ele é capaz de esperar, mas esperar lutando, mesmo lentamente, de maneira quase invisível. Lutar por emoções e considerá-las vitórias.
Ele... ele tem uma força além do comum, assim como a força para viver. Ele tem fome de viver. E as emoções lhe fortalecem mesmo quando lhe abandonam.
Ele... ele dorme na sua terra, ele vive na noite e os óculos escuros não escondem jamais seu olhar penetrante.
Ele... ele tem palavras fortes dentro de si para dizer.

(Estava cantando Maria Mena, " Just hold me". A imagem é do filme "Drácula" de Francis F. Coppola, tema que inspirou. Esquisito se inspirar em filme assim para escrever? Pode ser... mas eu acho este filme lindo, uma belíssima história de amor - mesmo se em termos de vampiro eu ainda prefiro o Spike... Deixa eu. De vez em quando bate ...)



ESBOÇOS DA SAUDADE 


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As dunas se movem com o vento. Ninguém percebe, pois cada grão a mover-se rápido compõe a lentidão das areias brancas.

No céu, o branco das nuvens também se move. E o movimento torna-se perceptível somente à imaginação, quando algodão se pode ver, desenhos flutuantes a passar.

Meus passos também são vagos, afundando de leve na areia, recebendo os toques das ondas. Cada onda vem, mansa, bate em mim. Até sinto como se quisessem tocar-me mais fundo, mergulhar-me nelas, fundir-nos, fazer de mim parte dos seus grãos.

Ao longe, o mar se mostra calmo. Mas como ele engana! Quantas correntezas, quantas águas geladas, quando vidas obscuras ele oculta de quem dele se aproxima. E mais ainda de quem mergulha. Mas perto da praia sua impaciência afora em ondas e ele se joga, o mar lindo, lindo, curioso e carente, buscando sensações.

A paisagem que se desnuda é perfeita. Há tanto a ver quando a necessidade faz a demanda... E finalmente penso que é a saudade, esta companheira de tanto tempo, quem me delineia esta paisagem...

Tenho os cabelos soltos, os corpo vestido confortável. Os olhos perdidos em coisas de mim, um sorriso querendo sair. Caminho sem ter um rumo e isso não me preocupa. Tenho todo o tempo do mundo para descobrir.

 

 

(Ouvindo Elvis Costello cantando "Beautiful" e me deixando ir... nesta saudade boa)



FEMININOS INSTINSTOS 


Imagem: de Fabian Perez, Balcony at Buenos Aires

Ela se insinua lenta e lânguida, vem bem lá de dentro dela, de algum lugar que ela nem lembra muito bem haver já encarcerado. Ouve seus pés começando a se mover de um lado para outro. Quase consegue sentir suas mãos, recobrando o calor antigo. Abre bem os olhos, evita os pensamentos. Tenta pensar em outra coisa.

Impossível. Ela está viva. Murmura apenas, mas pode sentir de sua respiração ofegante o desejo de voltar. Seus olhos ainda estão fechados, ela ainda não percebeu que seu corpo está retomando formas e que em breve poderá enxergar novamente. Ai... O que fazer neste instante se ela nem tem mais as chaves? Se as tivesse retornava lá, aproveitava seu instante de fraqueza, matava-a. Fria e conscientemente. Mas ela estava tão certa de que a outra apodreceria lá...

A outra... continua a mover-se pouco a pouco. Aguça os sentidos e sente a proximidade de uma energia que ronda por ali. Forte. Vigorosa, intensa. E tímida. Abre os olhos e lembra então que está trancada ali naquele espaço há muito tempo... da última vez em que tentara sair fora jogada como um verme. Negligenciada, esquecida, largada. Agora pensava numa maneira de sair dali.

Fechou novamente os olhos e ligou-se mentalmente àquela que tudo fazia para ser o seu algoz. Sentiu a resistência, sentiu o medo, mas continuou.

Viva. Em vida. Tentando contactar. Pedindo para sair. Querendo a liberdade. Ela começara. E agora não haveria mais fim. Enquanto não tirá-la de lá jamais voltará a viver só. Jamais. Nem todos os instantes que passasse a fingir esquecimento serviriam a fazê-la desaparecer. Ela era forte demais, sensual e traiçoieira.

Entre um pensamento e outro, cruzaram-se os pensamentos das duas e, como num espelho, viram-se perdidas num mesmo desejo. O desejo forte, anseio acima de qualquer emoção comum, era a chave. Abriu todas as portas. E a fusão se fez entre a criatura temerosa e a mullher ávida.

 

 

(Um pouco de músicas bem "som de fundo" como Carmen Cuesta-Loeb cantando Dreams)



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