CORTE SEM COSTURA


Uma época, em Laguna, fui me inscrever num curso de Corte e Costura. Eu estava grávida de minha filha e achava que, além de trabalhar o dia todo, nada mais natural do que, à noite, aprender a fazer roupinhas para o futuro rebento e para a família. Se eu soubesse...

Comecei alegremente com um grupo de pessoas bastante aberto e de idade bem variada, algumas outras também grávidas. A professora, de uma gentileza e paciência extremas, explicava cada passo todas as vezes que pedíamos (e eu pedia, podem crer, eu pedia...).

Tudo no início era uma maravilha: um monte de papel, lápis, giz e tesoura (meus instrumentos favoritos da infância, viva!) para desenhar e recortar. Não tive uma dúvida sequer: jamais havia entrado num curso melhor para mim do que aquele!

A professora nos dava os "moldes" e a gente copiava. Tiro e queda! Sem pestanejar! Jacqueline fazia e ainda sentava para descansar.... nossa, que delícia, que simplicidade, que coisa boa!!! Durante várias aulas aprendemos vários tipos de moldes (desenhos) e como recortá-los de acordo. E eu sempre nota 10. Mas a barca virou...

As aulas chamavam-se corte e costura e o que é óbvio, fez a costura aparecer logo em seguida. De acordo com a professora, nada mais simples: seguir os moldes, cortar o pano, alinhavar o pano, costurar o pano. Comecei a ficar com medo. Mas tudo bem, fui lá.

Peguei o meu molde, coloquei em cima do pano e cortei. Uau! Aí olhei em volta e vi aquela penca de mulheres com as agulhas na mão... alinhavando.... não.... pensei...não... e saltei. Corri na máquina de costura e costurei a danada da peça. Erro bom não tem, a professora veio, desmanchou tudo e mandou alinhavar. Comecei a alinhavar.

Na terceira aula de "costura", eu ainda estava alinhavando e a professora desmanchando... enquanto todas iam seguindo e aprendendo novas "costuras"....

Não aguentei e perguntei: Por que é que a senhora não me deixa costurar esta porcaria direto lá na máquina e assim a gente já parte pra outras? E ela, que provavelmente só estava esperando por isto: Na verdade, eu estava era querendo que você desistisse, porque você não tem jeito nenhum pra coisa... mas já que não vai desistir mesmo... tá expulsa, ok!

E fui expulsa, de um curso de corte e costura. Com sorrisos da professora e abraços das colegas. E depois a D. Betinha se espantava no ginásio quando eu levava um ano fazendo "um pé" de sapatinho de tricô.

É, acho que aqui em casa nunca vai ter capa em cima de liquidificador...



DA TORTURA DAS ALMAS E DOS CORPOS CANSADOS 


Escultura de Rodin



Já dizia Nietzsche quando falava sobre "O Julgamento dos Homens Cansados", palavras tristemente sábias: "Todos os esgotados maldizem o sol: para eles, o verdadeiro valor da árvore - é a sombra!".

Não pensei chegar aqui, mas cheguei: ando maldizendo o sol e agradecendo das árvores somente a sombra. A que ponto da vida cheguei? Aonde penso que irei? Chegou a hora de perguntar de onde vim?

Olho para os olhos fechados que se repousam diante de mim e tento fechar os meus. Não. É melhor não. A cabeça anda doendo muito e se eu fechar um olho é bem capaz do meu corpo achar que é hora de dormir.

Ouço o burburinho do oxigênio que se faz e se mistura no ar com a respiração ofegante e lenta. Tento lembrar. Tento não lembrar e tento então explicar. E então não quero as explicações que surgem. Não as aceito porque são egoístas. Mesquinhas. Pasmas!!!

Estamos os dois sós, entre quatro paredes que têm a inútil tendência de nos sufocar. Nos olhamos às vezes. Nos evitamos... Nos olhamos... E sabemos. Sabemos que de todos os que se foram e que tanto amávamos talvez sem nunca ter mesmo gritado e reconhecido como abertamente seria o caso... desses todos que se foram e que tão, tão profundamente amamos.... ah!... ai que dor!.... nós somos os únicos (e os últimos...) a jamais ter dado o devido valor à vida, esta insistente!, que faz questão de nossa presença em seu teatro rouco e insano e provocador.

Silêncio. A confissão inesperada e clamorosa acelerou os corações. Ela soltou-se com tal ferocidade das entranhas que agora só há o silêncio...

O tempo que passa e avisa que talvez não esteja mais disposto a passar. O ar que era um vento breve e calou-se, resmungou algo como "castigo" e desapareceu.

Busco a respiração. Busco a presença. Na verdade, depois disto busco as presenças. Porque olho e diante de mim há uma imagem que, como num espelho aflito, me devolve o reflexo do abandono.

Fomos abandonados!! Os que queriam e amavam a vida e não tinham em seus corpos almas torturadas, descobriram o nosso segredo e usaram do abandono para nos coagir... e nos deixaram aqui, cansados, esgotados, traídos por nós mesmos, sentados à sombra de uma árvore eterna a maldizer o sol.


(Escrevi sexta-feira... lá onde vou agora diariamente, várias vezes e muitas vezes.... lá onde a música são as vozes alheias e o som dos aparelhos que se pede aos céus não calarem)



O DIA DA ESCULHAMBAÇÃO GERAL 


Pintura do Chachá


31 de outubro, de manhã cedo

Levanto depois de uma noite mal dormida e vou me vestir. Hoje não penso em ficar bonita. Visto o jeans velho e rasgado. A primeira camiseta, a mais próxima eu pego. As sandálias de dedo perto da cama. Os brincos de ontem. Chega. Ansiedade, preocupação, agonia, não acho sequer o nome da coisa que está me incomodando no peito. Ando passos perdidos e tento encontrar um pouco de paz. Não há. Ligo o computador em busca de alguma música que traga o que preciso. Maria Bethânia, como conversávamos ainda há uns dois dias atrás, nossa preferida, começa a cantar:
“Quando eu morrer voltarei para buscar todos os instantes que não vivi perto do mar...”.
Fecho os olhos. Há alguns dias quando estávamos chegando, pela estrada eu o pressentia na minha terra. Primeiro foi a visão lá de longe. Ai que lindo, se esconde atrás dos morros e das dunas... que vontade de ali mesmo parar, saltar, correr ao encontro dele! Depois foi o cheiro no ar. Aquele cheiro que eu gosto, que fica em tudo e pega em tudo. Em seguida, o barulho. Aí, com certeza eu soube que estava em casa. Foi quando eu chorei. E chorei de novo quando no outro dia, molhando os pés naquela água fria que eu amo tanto e que eu gosto que me toque enquanto o vento me balança os cabelos. Chorei me fazendo a pergunta de sempre: Por quê? Para que? Por que tive que me distanciar tanto deste mar que eu amo tanto e que eu preciso que corra dentro e fora de mim para que eu possa me sentir viva?
A música acabou. Resolvi ver meus emails antes de sair correndo. Abri, vi umas fotos que me fizeram sorrir. Rir. Olhei uma em especial que me trouxe um pensamento imediato: Gente, este pessoal aqui saiu direto da Grutinha para esta foto! Como é que conseguiram juntar tudo isto aqui!!! Vou colocar ali no blog porque é muito egoísmo não dividir este monumento....
E esculhambei pela segunda vez...


Mr. Chácha



Só pra dizer que a tal da esculhambação vem de uma frase do pai muito freqüente na minha vida: “Não me anda esculhambada por aí!” Para evitar que eu andasse toda desarrumada ou arrumada do meu jeito.

Mas o dia me mostrou que era mesmo o dia da esculhambação geral. Cheguei lá, pus os pés diante de sua porta e ele se foi. Como se tivesse (e foi o caso, eu acho) esperado exatamente isto: que eu chegasse. Mas deve ter sentido que eu estava chegando toda esculhambada.... e fechou os olhos me dando a liberdade de continuar. Não sem antes garantir que eu fosse visitar a parte da família já partida e instalada lá no alto do morro, coisa que fizemos em seguida, no dia de ontem primeiro de novembro, véspera de finados (datinha que não me entra), às 10 horas da manhã.

Ele se foi. Esta foi a frase da enfermeira que veio me dizer da sua partida. Gentil como ele em seus dias bons. E ele tinha dias ruins, alguém diria? E eu respondo: conheçam sua filha, o gênio é o mesmo.

Tchau Mister Richard, e “bem feito”. Por não ter avisado que não queria nada do que fizemos, teve direito a um “grand finale”. Estavam falando em muitos amigos, e conhecidos e até mesmo quatro prefeitos! De minha parte, sou mais esperta, não avisei só pro Paulo que não gosto de velórios e exposições... já avisei metade dos amigos e agora, pelo blog, uma boa parte dos conhecidos e até desconhecidos: “Quando eu morrer, não quero choro nem vela...”.