Eu respiro o ar. E expiro as palavras. Escrever é a minha vida. Sem estes instantes preciosos não consigo existir. Sou como o aro vazio do anel que aguarda a pedra que fará dele um objeto único. Espero as palavras e elas me esperam. Em certos momentos nossos encontros são rápidos, em outros chegamos a cair tamanha a colisão.
(Ouvindo: a sugestão recebida, Cássia Eller cantando Por Enquanto. Foi tão bom que repeti a dose. E acabei ouvindo também com Zélia Duncan: "... mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está...". Vai, mais uma vez... só mais uma: "...estamos indo de volta pra casa...")
Imagem da net (como tantas aqui pela casa, recebida do amigo Danilo)
As vezes eu gosto de gritar. Gritar um monte. Pode ser cantando junto com o Evanescence ou com o U2. Pode ser comigo mesma na frente do espelho ou com a cabeça embaixo do travesseiro. Mas nestas vezes eu grito porque preciso mesmo. É uma necessidade de soltar mais do que ar, soltar tudo, tudo. E depois ir voltando ao que se chama normal. Baixo meu volume interior, ponho algo de mais doce também pra ouvir e me deixo levar pelo novo momento. O momento depois do grito. Aquele momento em que faço de conta pra mim mesma que a agonia passou, que os problemas ficaram pra trás e os medos também. Sem tempo para que as saudades se liquidificassem.
Entre o momento do grito e o momento da calma não há uma ponte. Apenas desligo eu mesma e ligo novamente o automático. E volto a ser doce como a música que ouço então.
(Depois de Bring Me to Life, Vertigo e outras assim... passo por Pink Martini e seu Let's Never Stop Fallin in Love e aterrisso, mansinha, com Michael Buble... I'll never smile again)
E não bastando ser, simplesmente existir, é necessário ser a essência de qualquer coisa. Viver por alguém sem deixar de viver a própria vida. Dedicar de si ao mundo em volta como se fosse ele o que circula de dentro de si. Exindo assim a essência, toma-se a vida com as mãos e o coração pulsa para ainda mais viver. Existência.
Para não pensar nas dores penso nas esperanças. Mesmo que a sensação de que dedos apóiam firmes sobre as minhas têmporas, ignoro. Busco com os olhos o infinito azul do mar que banha a tela do computador. Mergulho, sigo a correnteza, espero aportar lá longe, na terra tanto amada e que está realmente longe. Mas hoje o mar me basta. Meus longos cabelos disfarçam a cabeça dolorida. E as longas dores de cabeça se fazem belas sob os meus cabelos. Coisas tontas.
O esquecimento é fatal e cruel. O esquecimento é abençoado e pedido. O esquecimento. Fazemos de tudo para esquecer certas passagens de nossa vida. Fazemos tudo para não esquecer outras delas. Mas o esquecimento natural vem e liberta, seja trancando lembranças nos porões no inconsciente ou soltando ao vento coisas desnecessárias. O esquecimento é o remédio do tempo. E o tempo é o remédio da vida.
Hoje é lua cheia. Instintos soltos. Os gatos são todos pardos e os lobos uivam para os cordeiros. A claridade do céu engana. Tudo está mais sombrio e as intenções nada sóbrias. Acho que é hora de ir...
(Dido está cantando My Lover's Gone)
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