O GUARDIÃO DAS VIAGENS


Imagem: Guardian of the Earth by Cosmosue

Viajo sempre. Viajo por todos os lugares. Viajo por diversos mundos. Viajo por dentro das pessoas. Sou viajante bem antes da chegada a este mundo. Meu itinerário é feito pelo universo e procuro não questionar.

Entro e saio, deixo marcas ou nenhum vestígio. Passo pelas estradas e pelos atalhos mais escondidos.

De vez em quando páro um instante, olho o infinito céu e busco, com o olhar da alma, os outros viajantes.

Não sou única. Não sou toda. Sou um pedaço. E um dia, se houver um destino final, hei de
conhecer as outras partes de mim.

(Ao fundo, Our Lives (The Calling))

De novembro de 2006



HORIZONTE VERTICAL


Imagem da net



Hoje eu não estou com vontade de falar. E nem de ouvir. Queria ficar aqui abraçada, envolta, enlaçada, protegida pelo silêncio. O silêncio incolor. O muro de paz.

Não quero o horizonte longínquo. Aquela linha entre o imaginável e o palpável fingindo fazer parte de um futuro inexistente. Seja a linha ondulante entre o azul do céu e o azul do mar ou a linha entre as montanhas nevadas e as brancas nuvens. O horizonte é a separação.

O horizonte e o silêncio estão fadados a se encontrar. Quando se fala e cruza a linha do silêncio alguma coisa se quebra. Quando se vai longe e longe e longe, a linha se se perde. Fica para trás.

Hoje eu quero ficar parada. Ninguém me leva daqui desta cadeira. Nem para o horizonte vertical da vida nem para o silêncio horizontal dos sonhos.

Eu nego tudo. E fico.

(Mas eu deixo Coldplay cantando Fix You...)



ESTA COISA...


Imagem: Manuscripsts of the forgotten words, de Ego Abramov


Eu queria escrever um monte de coisas. E ler as revistas que eu comprei ontem. E ver os filmes que guardei pra ver no final de semana. E continuar a minha pesquisa musical. E lavar roupas. E arrumar o armário. Telefonar pra mãe, ver os filhos, fazer o bolo que imaginei. Mas tudo o que eu consigo fazer é me manter no maior silêncio. Porque a dor de cabeça que ameaçou me pegar ontem voltou hoje com mais força. Ela ficou e confinou os meus desejos dentro de mim. Fim.


Carpe diem quam minimum credula postero
(colha o dia, confia o mínimo no amanhã)



ECOS DESNECESSÁRIOS


Imagem da net

Ai, ai. Tem gente que consegue falar tanto, mas tanto, que nem tem mais idéia de como é a própria voz (o sistema de eco interior já deu pane faz tempo...). Uau... posso dizer, hoje foi um dia daqueles. Só dava vontade de correr ou matar. Preferi correr desde que deu.



E NEM ERA PRA SER...


Imagem da net


E nem era pra ser hoje o dia de doer tanto. Hoje que recebi fotos que desde manhã me fizeram tão feliz! Hoje que foi um dia tranquilo... um dia sorridente... lá no fundo ela vinha vindo, cercando minha cabeça de espinhos, fincando, espetando, mostrando o quanto podia ser mais forte que eu.

Tentei ser mais. Tentei prestar atenção no azul do céu, no sabor de uma comida leve, numa gargalhada após uma boa piada. Tentei ser eu duas vezes mais. E ela cerrou ainda mais forte seus dentes contra mim. Baixei um pouco a guarda, engoli duas pílulas de tristeza. Com a esperança de vê-la partir.

Tudo em vão. Mais que em vão. Ela encarcerou a minha mente em sua maldita cela de horror. Agora só saio daqui quando ela quiser.

(Nem o silêncio eu quero mais)

De dezembro de 2006


JOGOS DE AZAR


Imagem da net


E mesmo se ela insiste em me perseguir meu olhar será mais profundo. E mesmo se ela persiste em me seguir, meu querer será mais forte. Por mim mesma serei o mundo. Jogarei e ganharei mesmo sem sorte. 

(George Micheal canta pra mim "Cowboys and Angels", com aquele sax de fundo....)

De dezembro de 2006 



INSTANTE PRESENTE


Genebra em 2006


Está frio, certas dores dormem, certos humores adormecem, outras vontades despertam, estranhas coisas avançam ávidas. A vida também é um futuro que não pede para ser lido, quisera esperado. Surpresas não são como arranhões sobre a pele. São mais como profundas úlceras.
Vamos aguardar.
Deixe-se tranquilo ser o que será. O sol, como tanto já se disse, amanhecerá. E para todos, sem ou com poesia, ele nascerá.


(Hoje estou em Genebra, é inverno e Martin Steven canta Love is in the Air. Amanhã? E eu que sei?)

De dezembro de 2006



SURDEZ DE PORTA


Imagem da net


Tem coisa mais chata do que falar com gente que parece mais surda do que parede? Pode ser que tenha, mas aí mesmo é que valorizo o silêncio e repudio o eco.
Não falo da surdez como problema natural, mesmo porque este último a pessoa faz o que pode para vencer, lutando contra as barreiras próprias e alheias.
Falo da surdez da ignorância. Da surdez dos insensatos e dos completamente impregnados de si mesmos e que sequer encontram um espaço no eco da própria voz para ouvir uma outra.
Falo dos surdos por escolha ou que, por ventura ou numa ventura, deixaram de ouvir até mesmo o silêncio.
Diálogo de surdos. Adoro esta expressão. Mas detesto o sentido. Como detesto a expressão surdo como uma porta.


(La vie en rose, com Louis Armstrong, só pra contrastar e me deixar de bom humor!)

De dezembro de 2006 



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