A semana passa sem deixar mais do que o cansaço. Oscilando entre o sol e a chuva, o outono dá seus primeiros passos. Não quero dormir para o tempo não passar sem que eu perceba.Vou arregalar os olhos e arregaçar as mangas para viver todos os instantes dos dias que se aproximam. Afinal, o que importa é o presente.
Há sempre mais um sonho sobre o travesseiro quando os olhos se abrem pela manhã e o corpo desperta, mesmo cansado. Olho para aquele sonho e sei que ele guiará o meu dia. Fará de meu presente um ramalhete de esperanças para tudo o que eu deseje do futuro. E distanciará de mim os pesadelos que antes puderam dominar meus instantes sombrios. Todas as noites eu parto, todas as noites finjo aceitar a morte. Mas pela manhã, com ou sem dor, há aquele sonho sobre o travesseiro. Está lá calado mas eu escuto a sua voz. E levanto. Lavo o rosto. Visto as roupas guardadas. Desenho um risco preto sob os olhos e um sorriso sobre os lábios. Pego a bolsa, o livro, o casaco, as chaves e saio. E pouco importa o que todas as horas serão. Se eu voltar para casa, na hora de partir para uma nova noite além da realidade eu saberei que posso retornar. Porque o meu sonho de esperanças estará comigo pela manhã. Ele é a minha insistência em ser feliz.
Ouvindo: as pessoas falando. Só. Nem um pássaro, nem uma música, nem um pingo de chuva.
Por que acreditar em unicórnios se existe a certeza de que eles não existem? Para que torcer antecipadamente para o Harry Potter sobreviver no sétimo e último volume da série?
Pelo mesmo motivo que eu adoro cantar a música Sabiá do Chico.
Para dar comidinha pra este bichinho faminto que se chama Esperança...
Que ninguém venha me dizer coisas sobre o cansaço. E nem sobre a dor. Ou mesmo sobre perdas ou fracassos. Hoje sobre os meus ombros já pesa uma idade que não me pertence ainda e que nem sei se um dia me pertencerá. Mas sinto na respiração ofegante e nos passos sem rumo que envelheci séculos.
Me deixem em paz! Vou sentar num canto e descansar os olhos quase cegos. Não quero falar, não quero ouvir, não quero pensar. Preciso me reconciliar comigo mesma.
Não é lua cheia, não estava faltando sono. E no entanto, mais uma vez, uma noite insone. Tenho horror de passar noites inteiras catando a melhor posição pra dormir. Ou inventando a melhor historinha pra esquecer que não consigo dormir. Contar carneiros então, a maior bobagem!
Agora deu, já levantei antes das 5, já estou cansada antes de começar o dia.
Então, bebo mais um café para ajudar a manter os olhos abertos. Porque eu sei que o dia de hoje com certeza terá bem mais do que 24 horas. Só pra se vingar de mim. Eu sei, eu sei...
Certamente os que me conhecem sabem que quando desapareço o motivo é o mesmo. Quando o motivo é razoável, ainda escrevo alguma coisa, algumas vezes até olho os emails, telefone este já não me vê nem em perfeita saúde. Quando o motivo é forte demais eu esqueço que tem um mundo em volta. Aí vou andando... assim meio daquelo jeito. O tempo é sempre a questão pois entre o pouco e o insuportável podem passar-se semanas...
Coisas de mim...sob o meu silêncio esconde-se a dor. Como se alguém com raiva jogasse lixo sob o meu tapete. Meu tapete. Topete. Ai minha cabecinha
É bem verdade que por causa da saudade talvez possamos deixar de ver coisas que estão passando em baixo do nosso nariz e de apreciar outras que passam despercebidas sob nossos olhos ocupados e nossas mentes sonhadoras. Mas não se negue também que a saudade é o traço feliz de união que nos permite existir bem hoje por ter bem existido ontem também.
Afinal, não se sente saudades de fatos ruins, não é mesmo?
Nada é cem por cento certo. Nem ninguém. O erro tem que existir. É uma necessidade. Para nos mostrar o caminho para a perfeição. Para nos lembrar que poderíamos obter a perfeição. Para nos fazer sonhar com a perfeição. Para criar a inveja pelo que cremos perfeição.
Ainda bem que tem erro. Senão seríamos somente sombras de nós mesmos.
Não, ele não volta o tempo que em silêncio passa. E nem voltam todos aqueles que com ele aos poucos partem, deixando vãos entre o ontem e o amanhã.
E é tão amarga a constatação, dura mesmo, quando de repente sentimos as perguntas ainda não feitas e as palavras por dizer. E enquanto o pensamento teimoso se repete e as lembranças se formam insistentes, muitos outros segundos se passam, distanciando o que se foi e alargando ainda mais o vazio.
Para quem, enfim, sairão de mim todas estas palavras?
(Me sinto triste, ouço Yo-Yo Ma, sublime como sempre: "Song without words, Op. 109 - Mendelssohn")
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