De que adianta observar a vida passar, esperando o dia de vivê-la quando a campainha tocar, quando o telefone tocar, quando alguém chamar, quando o tempo passar...
Enquanto a vida vai desfilando seus minutos pelo relógio esfomeado, lá se vão todas as nossas horas embora pela janela do escritório e de casa. O sol chega e parte e nem vimos a mudança de cores do céu. Não vimos a breve chuva que acalmou a sede da terra agradecida.
Para que serve nosso esforço incansável e diário para manter a rotina? Serve para manter a vida à distância? Para apagar a chama da vida?
A chama da vida que nos forçaria a romper laços e padrões, mudar caminhos, erguer a voz, chorar, rir, cair, se machucar... usar tantos verbos fossem necessários para cumpri-la! Vida!
Resta aos observadores da vida o silêncio do tempo. Da noite que vem com ele. A velhice que traz a lembrança. E as lembranças que trazem tão pouco. Tão pouca gente. Gente tão longe. Longe demais. Demais...
Estou ouvindo comovida "The Swan" de Saint-Saens interpretado divinamente por Yo-Yo-Ma"
Certas saudades criam-se no peito em silêncio e a gente sabe que elas estão ali, esticando seus galhos, suas folhas... mas tentamos fazer de conta que elas não existem. Fingimos que é possível conviver com elas, viver sem a causa delas, ir adiante sem buscar sanar a ferida causada por elas. Certas saudades são fortes porque pouco se pode fazer para se livrar delas... talvez mesmo nada... a não ser deixar a vida fazer o que tiver que fazer pedindo baixinho para que ela não nos abandone a nós mesmos.
Pouco importa quanto tempo você possa passar sem ouvir a sua própria voz. Importa mesmo é quanto tempo você possa passar sem ouvir a voz de outrem. Pois dentro do seu silêncio pode estar a voz do encontro interior. Mas na exclusão da voz do outro pode estar a negação de si mesmo.
Quando diante de mim se abre uma janela, ou mesmo uma fresta dela, e através eu posso entrever um mínimo que seja de esperança, tudo em mim se transforma. Minhas células se renovam. Meu coração melhora seu ritmo. Minhas pernas caminham com forças outras. Palavras que desconheço juntam-se ao meu vocabulário. Mesmo as lágrimas que descem, apenas me umedecem a face.Passo a viver da magnífica energia de saber que é possível. Que vale a pena. Que posso esperar.
Me deixem adormecer, deste sono lento que permite tantos, tantos sonhos... me deixem encostar a cabeça aqui mesmo, esticar as pernas, descansar um pouco. Quem quer diferenciar o que quer que seja? Quem? Estou buscando o sono tranqüilo, o sono dos exaustos, dos sem causa, dos deserdados da vida. Me deixem dormir em paz. E quando eu dormir, não me acordem. Não me chamem. Se a fome me chamar, se eu quiser vou só. Se a sede me chamar, se eu tiver vontade, levanto e vou. Se qualquer outra coisa me chamar eu decido. E se eu resolver levantar, me deixem passar em silêncio. Provavelmente será só uma crise de sonambulismo.
Eu detesto meio-termo, sou uma excessiva nata. Meio-termo comigo nunca funcionou pra nada, nem pra educar filho e nem pra aprender coisa alguma na vida.
Mas devo confessar que todo excesso é realmente passível de condenação, até mesmo e, principalmente, da Natureza. Excesso, até de água faz mal. Que dirá de letras. De papel. De curiosidade. De espera.
Li tanto que agora a cabecinha pediu arrego. As luzes foram se apagando, o sono foi chegando, a dor foi aumentando... aí lembrei dela. Da enxaqueca. Ela que eu rezei pra não ter sábado. Pra não ter domingo. Fui atendida. Mas hoje é segunda-feira. E a enxaqueca pegou como se tivesse sido um pacto firmado há muito tempo. Pegou rápido e forte para ter certeza de que eu não teria como me livrar, como ter tempo para achar o bom remédio e poder viver um resto de dia ou de semana normal.
Ela que se dane. Ela e a minha cabeça. Vou me esconder dela e do mundo embaixo do travesseiro. Mas agora eu já sei o que queria... e não adianta, maldita, a minha sede de saber sempre foi maior do que tu.
(Silêncio! Vou ter que ir deitar... não dá pra mais nada... esgotaram-se as pilhas)
Quero um papel melhor na minha própria vida. Quero encerrar esta figuração e iniciar o ensaio para o papel principal. Se o meu palco é este planeta e o roteiro é o presente, chega! Não aceito mais fazer figuração! Retirem os maus atores, sumam os falsos pretendentes... neste teatro a vida aqui ainda me pertence!
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