PERCURSO SÓ EM MIM

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Esta parte do caminho eu farei só. Não porque quero e muito menos porque tenha sido uma escolha voluntária e consciente. Irei só porque não há outro meio. Desta caminhada sobrarão pedaços de mim, sobras de pele, excesso de um corpo enfraquecido pela espera de poder mostrar-se são. E a cada passo mais de minha mente e de meu ser inconsciente abrirão caminho e virão eles também tentar observar a luz do dia. Será daí provavelmente que sairão os pedaços maiores, mais visíveis e mais dolorosos. Quando eu não serei forte no conceito banal dos humanos que se esforçam uns pelos outros. Quando eu finalmente poderei baixar os braços, largar uma lágrima seca e parar. Parar de ser tudo o que desejam que eu seja e ser o que nem eu sei que sou. Chorar talvez. Por dentro, por fora, para dentro ou para o mundo. E nunca mais voltar pelo mesmo caminho, mesmo porque, que caminho? Se ele era feito de nada??


( Estava ouvindo o disco e a música "Winds of the Lost Soul" me faz sempre o mesmo e profundo efeito: um mergulho interior... Mas para o que sinto hoje, para o que o caminho que... bem, "March of Loss"... caiu bem)


DIVÃ DA VIDA 

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Filhos passam o tempo todo testando a paciência dos pais e depois infernizando a vida destes últimos repetindo que são adultos e que não precisam de conselhos. Pais passam o tempo todo perdendo a paciência com os filhos e repetindo os conselhos sobre a valia da experiência vivida. Se ao menos uma das partes em um momento da vida se desse conta, enquanto houvesse vida, que tudo o que conta é a presença, a constância do amor, quão irreal possa ser ele na visão de um ou outro... Enfim... Pais e filhos, filhos e pais... serão sempre amados e por isto mesmo sempre estarão esticados no divã da vida reclamando da carência ou do excesso. E há quem queira entender.


(Ouço ruídos lá fora e não quero ouví-los. Fecho os ouvidos. Depois substituo por Coldplay, The Scientist...)

 

FATAL SILÊNCIO

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Silêncio. O mundo está calado. Interrompeu-se alguma coisa. Engraçado... tenho a impressão que ainda existem vizinhos... e que mais adiante nas ruas alguns carros acabaram de passar. Que silêncio será este? Este silêncio que não é calma, que não me dá paz, que não amaina nem por um segundo a minha cabeça plena de pensamentos incessantes... Talvez eu devesse também me abster de falar. Até mesmo com as letras. E quem sabe ou viria alguma sensação de bonança ou o silêncio deixaria de existir...


INSENSATO

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O bem-estar é um conceito abstrato. Ele independe da realidade, da vontade, do desejo e da espera. Na verdade, a melhor solução para alcançar tal estado seria fazer total abstração dos conceitos e se permitir uma evasão total através do que nunca obteve um nome. Mas para isto seria necessário antes de tudo saber que o abstrato já é um nome. E carrega consigo o peso de muitos outros.


VAMOS PASSEAR NO BOSQUE...

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Os contos de fada estão cheios de príncipes ingênuos e seres tolos que se deixam massacrar e escravizar por princesas hipócritas e criaturas impostoras. Tudo em prol de um final feliz. Feliz? Pra quem???


FENDAS

Que força, que movimento, que energia, o quê, em suma, faz jorrar de dentro de nós palavras que poderiam para sempre permanecer pensamentos? Por que sentimos necessidade de extravazar o que poderia permanecer para sempre como um hiátono platônico. Ou mesmo... ainda menos... nem mesmo reflexões, mas simples emoções no fundo sentidas e nunca, jamais explicadas ou faladas. Há circunstâncias verdadeiramente incontroláveis... indomáveis... e para elas sempre haverá uma primeira vez.


(Ouço algo que estou gostando, nunca tinha ouvido antes... "The Call of the Serpent" (de novo), do disco Draconican Poetry de Sephirot. Já ouvi outras do mesmo disco agora há pouco e fiquei impressionada como certos sons são capazes de entrar na gente... perfurando intensa e cegamente.)


DISFARCES E FANTASIAS

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Não é carnaval em nenhum lugar do mundo. Nem mesmo em minha cabeça. E no entanto estou sentindo esta vontade irrefreável de me disfarçar. Vestir qualquer roupa de qualquer personagem que me permita assumir por alguns tempos uma personalidade bastante distante da minha. Nada de mim. Eu desaparecida. Sumida. Completamente perdida em algum mundo ainda não descoberto. Enquanto isto, fantasiada sou toda devaneios e crio tudo o que desejo ver e ser.

Nada de horários, de tempo, relógios. Nada de nomes, de tramas, destinos. Somente a vontade de se deixar ir, sem dissilimulação alguma, em direção ao que não tem e nunca teve direção. Ir sem ir. Ficar, estar, aproveitar, excessiva e impetuosamente.

O cansaço da cabeça parte pouco a pouco. O corpo sente a vida voltar. Só porque não é carnaval mas eu vou brincar fantasiada nas ruas... em busca de outros como eu... que tenham certeza que vale a pena não viver exatamente como andaram marcando em livros por aí.

 

(Aqui estou eu ouvindo o disco desta cantora - Maria Mena - que é realmente uma delícia)


NADA IGUAL

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Como é possível simplesmente continuar fazendo de conta que tudo continua igual? Igual é um sinal que serve para questões inúteis e quando não há verdadeiras comparações a ser feitas. Porém quando no decorrer da existência registra-se alguma coisa de profundo, alguma coisa que não tem um nome certo e nem mesmo uma certa razão de ser, explicações e sinais de igual servem para nada. Nada.

Como é possível não se sentir afetado por uma situação que ocorre, independente do que nossas ações, amarradas pela distância, pelo tempo, pelas limitações humanas... nada permite... nem um passo... nem uma palavra... nem um gesto... nada.

Aparentemente esta é a vida. E aparentemente é isto que ela espera de nós, experiências que nos fortifiquem. Eu diria maldades que nos mortifiquem, pouco a pouco, pouco a pouco, lenta e dolorosamente para que o sabor de fel nunca seja substituído por nenhum outro. E o vazio da dor irreparável, nunca mais resposto, em lugar nenhum de si... de forma alguma... nem inconscientemente, nem em sonhos, para que nunca mais haja um instante de paz.

Me deixa, vida, chorar enquanto eu posso. Enquanto os soluços ainda são permitidos. Enquanto ainda tenho uns restos de voz na memória e um rosto no coração.


AVIDEZ


Imagem: Balcony at Buenos Aires de Fabian Perez


 

O prazer da carne que é negado e sucumbido. O prazer recatado e poucas vezes retribuído. O prazer que invade a pele e adentra a epiderme fingida para não mostrar os arrepios. O prazer incontrolável de fechar os olhos e buscar com as mãos um outro corpo. O corpo que já vive na imaginação fremente e delirante. O prazer insaciável que transtorna o corpo e amolece as pernas. A comoção de se sentir de um instante para outro ressucitado dentre os mortos. O prazer de compartilhar o prazer. De doar o prazer. De abrir os olhos e sentir o prazer. Para finalmente descobrir que haviam dois seres. Antes incompletos, agora completamente um.

 

(Ouvindo Metallica, Nothing Else Matters)



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