MEUS EIXOS

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Cadê?

A venda dos olhos

A mordaça

As cordas das mãos

e dos pés?

Cadê todas as ferramentas

necessárias

Que recebem os que nascem

para aqui viver

e assim não ver

toda esta farsa...

Procuro há tanto tempo!

Sem os olhos velados

Sem os lábios calados

E os membros doídos

de tanto me debater...

Nem me sobra a vontade

de usar como o ofício

um dom de escrever.



O FUTURO DAS PALAVRAS


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Quais serão um dia

as minhas últimas

palavras?

Serão as que direi

por último...

as que deixarei

escritas

ou aquelas que

nunca

conseguirei dizer?



MARCADA


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Quando passavam pela

minha vida

os vinte anos

me sentia velha

comovida e

cansada.

Dobraram os anos

E a mesma

centelha

não esquecida

me acanha

e me cansa

e me deixa

abafada.

O tempo

nada mudou

em mim.

Eu já era

assim

Marcada.



PERSONAGENS


Imagem: Acida


Mas tem horas que me sinto tão distante
de tudo
como seu eu não fizesse parte
deste presente
Como se fosse uma personagem de uma história
colocada em outra
história
Lobo Mau interpretando Robin Wood
Branca de Neve saltitanto em Peter Pan
Cinderela buscando os comprimidos
pra dormir na gaveta                                                                                                                                                       da Bela Adormecida.



UM ACRÓSTICO


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Depressa
Esvazia
Presas
Represas
Estanca
Sublima
Sacia
Agonia
O fio.



GUARDAR DE MIM


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Quero guardar
de mim
todas as boas
lembranças
de todos os bons
momentos
de tudo o que
pôde ser
bom
num minuto
no passado
mesmo se ausente
do futuro



EU ESTAVA VIVA


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Eu estava viva

quando os Beatles

gritaram

Help!

Eu estava viva

Quando John Kennedy

sorriu para as

câmeras e

abanou.

Eu estava viva

Quando Juscelino

cismou com o Rio de Janeiro

e inventou sua utópica

capital.

Eu estava viva

quando Médici

estampava todas as salas

e todas as mentes

do meu país.

Eu estava viva

Quando Luther King

confessou ao mundo

que tinha um

sonho.

Eu estava viva

Quando Celly Campello

dançou com a juventude

o biquine de bolinhas

amarelinhas.

Eu estava viva

Quando Gandhi

deu seus passos

silenciosos

em direção à paz.

Eu estava viva

Quando o primeiro Bush

armou o futuro do

povo iraquiano.

Eu estava viva

Quando Roberto Carlos

mandou tudo pro

inferno.

Eu estava viva

Quando a política

devastou o Líbano

em nome da fé.

Eu estava viva

Quando Bethania fez

chorar o sul

com seu nordestino

Carcará.

Eu estava viva

e vi tantas coisas...

outras passaram

e nem vi...

Mas tudo, tudo

profundamente

em meu ser

senti.



DESIGUALDADES


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Igualdade é o antônimo

De todas as outras

palavras vãs

jogadas na mídia

o pão ao povo

no circo da vida

ilusão de ótica.

Igualdade não existe

nem entre a imagem

do que fala e que

se olha no espelho.

Igualdade como seria

para vir de par

com a liberdade e

a fraternidade

para expulsar

a síndrome

"raças" ao vão

merecido,

esta igualdade

o egoísmo humano

tornou utópica e

relegou a um outro

universo.



PORTAS DA NOITE


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Noites iguais

Portas de saída

Se apresentam

Todos os dias

Com o bilhete nas mãos.

São manuais

de partida

Fossas de esgoto

Escoando sonhos

Restos da vida

Que poderia ter

sido.

Noites longas

desespero

Noites de curto

sono

Noites de uma

escolha

Querer ou não

despertar

depois.



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