DEPOIS DO VENDAVAL

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Cheguei...
Depois de um descanso
Depois de uma festa
Há quem me deteste
mas este eu amanso...
Eu trago o trabalho
o óscio, a preguiça
A chuva me atiça
me acalma, me atrai...
Comigo vai a saudade
vem a tristeza,
se dividem as idéias
se esvaem os pesos...
Levo a solidão
Trago-a nos braços
a vida se solidifica
e a morte se dissipa...
Meu tempo é teu tempo
Ares, abertos, estrelas
Paredes distintas se fecham
e nada de cheiro de tinta...
Cheguei...
Fico pouco... só as horas normais
vinte e quatro passando, passando
meus momentos serão soltos
meus momentos serão presos
meus momentos serão pressão
mas nunca serão banais...
O que eu serei
Eu já fui
E nunca fui
E nunca mais serei
O grito dado
O pedido negado
A respiração...
A respiração...
Cheguei...
e mesmo se sou o primeiro
me chamam segunda
a segunda-feira
da semana...
o dia a mais...
um dia a mais...
que ninguém almeja...

(Enquanto lá bem longe de mim o jornal fica anunciando tudo o que não me interessa...)


DE MORTAS FLORADAS



Quem me dirá se aquela flor voltará a nascer? Quem me dirá se sua vida iria valer?
Quanta dor senti ao deparar com a noite escura
observando a imagem que se refletia em meus passos
Nem se pode chamar de loucura
Os devaneios da mente sem compassos...
na estrada estreita e cheia de pedregulhos
Olhando ao longe, o mar divino se precipitar
A vida recolhia reprimida seus entulhos
Sem que as luzes conseguissem se dissipar
O mar refletia a lua, não seus brilhos
O trem voava na terra, sem seus trilhos...
Aquele amanhecer silente
A última estrela que surgiu
As lembranças tão recentes
Não sumiram com a dor e o amor sumiu...
Os pés não sentem a caminhada
Porque as vezes a fraqueza se fantasia
Quando a alma se corrói bem desvairada
Ou será porque a força se distancia?
O que seria de meus sonhos tolos e bonitos
Se apenas uma estrela não tivesse nascido...
Estariam hoje esquecidos... esquisitos...
Frente aos meus olhos cegos e vividos.
Se aquele foi o primeiro sol da madrugada
De encontro a um horizonte sem destino
Ah, eu me sinto tão menina
A pular e florescer entre floradas...
Pois que nenhuma bebida embriaga tanto
quanto palavras feitas para iludir
E a vida da flor tão morta eu canto
Antes que minha consciência me venha pedir...
São confusões físicas, anormais, tão impossível...
Que o coração por tanto sentir já não mente
E pergunta ao tempo se ele é de real irreversível...



CONHECER SENDO O SER


Imagem: J. Davidson


Por não me falares mais de ti

Cresce uma curiosidade intrigante

Muitas vezes creio que conhecer dói

E que gostar, preocupar, chorar...

Estas coisas assim, pelos outros...

Por outros sinto e assim conhecer

enriquecer...

Faz gostar, ajudar e rir...

E se chorar fizer parte da questão

Ombros no instante se dão

E dedos procuram lágrimas

Para tentar evitá-las...

Isso significa que não

me é medo, um medo qualquer...

O feio que te crês por dentro

Abusa do teu coração e te

faz esquecer que

és o que os meus olhos vêem

e o que o meu ser sente...

E se a tua feiura para ti mesmo

envolve sexo e a tortura mental

envolve as emoções profundas...

Adeus complexos!

Tanto de mais complexo seja

Já vi, já sei e bem possível seja

Entenda... eu posso compreender

Os teus receios...

E posso mostrar-te que também

sou feita de realidade

Uma permuta de amizade,

parece que assim se chama....

E finalmente, que não nos nos assole

o senso absurdo do ridículo!


NUVEM NO CÉU AZUL


Imagem de Andral Ludovic


Tenho uma verdade para entregar-te
não vem de fundo nenhum, nem de mim
talvez da tona, do plano, da frente
do que vês...
É hora, é tempo, é vez...
Tenho uma mentira para mim
não vem de fora, vem de mim
e mesmo se em palavras parece-se
muito comigo... parece minha filha...
filha da mentira, ela carece
de consistência...
E se eu quisesse brincar
de machucar
Poderia chorar por nada
Quando fores me tocar...
Então quando fores me tocar
Por favor, avisa...
Não sei o que posso...
O que em mim não precisa
meus esforços são
meus comodismos...
Deixa-me brincar sozinha
Eu sempre brinquei sozinha
é bem melhor brincar sozinha
Nem só, sozinha...



(Ouvindo Kid Tunstall, Hold On - Antes passaram outras.... agora chega Tiago Lorc com Nothing But a Song...)



RESSACA

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Derramar a poesia

versos cheios

de palavras tardias

entrelinhas,

entre os meios

Folhas carregadas

de tinta e de coisas

sentidas

bem fundas

cortadas além da

pele...

sem mentiras que

gelem o desejo

de transferir

todo o sangue..

Coisas caladas e

insinuadas

coisas quase

esquecias

das tantas vividas

das outras queridas

derramar a poesia

como um amontoado

de dias e dias

uma profusão

de luzes ou lágrimas

que nunca

aconteceram...

 

(Ouvindo deliciosamente calma a voz de Leila Pinheiro... tudo que ela canta fica bom)




VERSÃO


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Vertem versos

Pelos poros da carne

Encarnado o espírito

Consciente o prazer

Reverberam versos

Que sentimentos foram

Ora soando em letras

Perpetuando o querer...

Quantas vezes trago

A figura na imaginação!

Vivemos tanto

e tão pouco vivemos...

Como o fosse

Por mérito e gosto.


ERVA DANINHA


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Quero entender o teu recheio

O teu misterioso recheio

Tão bem encoberto...

Ah, tu... põe-me ao invés, desperta

Talvez como não desejarias...

Ao ver do chão o verde que germina

Teus talvez, respostas,

reações tão prontas...

se esperas reconhecer daninha

a erva que vinga à tua mão...

Tu... com tuas mãos...

deixá-la vingar...


(Ouço Andre Rieu e suas músicas suaves...) 


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