FOME DE MAR .

Teu peixe que pulou na rede
É música pra minha fome
Pescador seu nome
Que tem a sede
do mar...
Traz um peixe pra mim
Traz uma rede pra mim
Quero ajudar
a pescar
Quero ajudar
a plantar
peixes
no mar
pra não faltar
peixes
na mesa do
jantar.



SÉCULOS


Séculos
De história
De lutas
labutas
inglórias
Tentáculos
Da vida
invólucros
de insípidas
vitórias.


CANSAÇO DE FALAR


Pela garganta uma voz
Vem se chegando e
chega aos lábios
Numa pronunciação
exata
Qual mais inexato
dos lábios
mas o cansaço é maior
No corpo inteiro dormente
E as pálpebras se fecham
lentamente...
Não adianta se chegar
Devagar, com ou sem
carinho
Estou tão longe e sem vontade
de voltar...
no sono profundo
as palavras se libertam
formam dizeres já escritos...
impossíveis de ouvir!



MENTIRAS

Conta-me uma mentira
Diga que o mundo é santo
Que o pobre tem um manto
Que a dor se recolheu...
Mas conta-me... conta-me uma
mentira
Fala que a fome sucumbiu
Fala que a política caiu
Fala que a guerra
se destruiu...
Conta-me outra... gostei...
outra mentira...
Diz aí sobre o fim da solidão
conta que a tristeza se foi
E que há muito não se vê mortes...
Mas olha, só me faz um favor
Quando te sentares ao meu lado
para me contar as mentiras
Conta assim, com o entusiasmo vitorioso
de quem fala a verdade...
E não te desmintas nunca
Pois a mentira é uma enfermidade.
Se eu sei que mentes
Mas a mentira é bela
Por um instante esqueço que
existe realidade e
fecho os olhos...
Mas se vens desmentindo depois...!
Agora deixa...
esquece e conta outra...
Outra mentira... como aquela de antes...
sobre o fim da solidão!


(Meu poema feito em 24 de outubro de 1979)



ULTIMA RATIO RERUM


Infiéis.
Eis o que sois
Diante
Da imensidão
De dor
Do avassalamento
total
Anunciado
Pelos infernos.
Preferistes os falsos céus
Preteristes a ferida
verdadeira
Por uns dias a mais
Enganosos...
Impostores, eis o
que sois!
Nós ao menos somos
reais...
infernais,
disgraciosos
miseráveis,
mas reais...
Que vossos céus
Vos recebam hoje
e para sempre
Porque aqui no nosso
inferno não haverá
mais lugar
para vós e
para vossas
mentiras e
fraquezas.
Nem hoje.
Nem nunca.
Nem sempre.
E esta é a
derradeira
resolução.

*Ultima ratio rerum - A Última Resolução