ELIAS

 The Card Players with Pipes, Paul Cezanne


Jogava suas horas todas no carteado

Mãos de ás, de dois, de reis, valetes

Sob a manga outro às e um canivete

Que a vida também era jogo marcado.


Passada a idade da escola

Passado os tempos das moças

Passado o tempo da bola

Tinha vida, e ela era insossa.


Jogo era gosto, júbilo, dinheiro

e ele em seu pensar mais ardiloso

apostava mais que o cativeiro

pelo sim ou não tão saboroso.


Passada a idade das festas

Passado o tempo das danças

Passado o tempo e os restos

não deixaram a vida mansa.


Varava noites no velho bordel

Putas, baralho, bebida e dados

Ali ele era o dono do cartel

das luzes da ribalta arrebatado.


Passada a idade das crenças

Passado o tempo da ilusão

Passado o tempo da paixão

a vida agora eram as doenças.


Com o jogo ainda correndo

e ele só no pescanço

tentando a sorte e antevendo

o seu dia de descanso...


Na vida ele era safado

No jogo um grande trapaceiro

Mas em seu ombro cansado

nem chegava travesseiro.


Na vida ele andava perdido

No jogo mais um trambiqueiro

Mas em seu coração partido

não vingava amor inteiro.


Lançada a sorte já fora

no dia do seu nascimento

e fora lançada fora

pois o azar era seu jumento.


Chegada a idade das tripas

Chegado o tempo da morte

Chegado tempo na vida

de deixar abrir o corte.


Ergueu então desajeitado

o braço e o canivete de menino

e o grito foi, ô cara safado

e o tiro foi o seu destino.