Olho as águas sem vê-las profundas ou rasas. Elas estão em meu sonho, abrigam corpos que não sei se estão vivos ou não. Fico pensando se não deveria chamar tudo isto simplesmente de pesadelo.
Vejo tantas estradas. Elas estão imóveis, mas vejo-as correrem como loucas sem nunca ter fim. Movo-me com medo. Eu preciso parar para pensar.
Tenho momentos de ilusão eterna. Momentos de interna solidão.
Não existem mais segredos que a vida me possa contar. Se ela me falar baixinho, tentando dizer-me algo que eu ainda não saiba, já nem vou crer. E será somente mais um monte de palavras sem sentido que não desejarei ouvir e nem guardar.
Quantos pincéis, quantos vidros ou baldes de tinta, quantas faces brancas eu precisaria para pintar minha vida? Talvez se eu vivesse de outras maneiras fosse possível deixar tudo em branco...
Continuo a caminhar.
Enquanto eu penso o tempo passa. Enquanto passo, penso. Dou-me um tempo.
Estou nua, leve das vestes que não ocupam os meus espaços. Sou náufraga do barco que me abriga a alma.
Procuro a porta de saída. A casa é de espelhos.
Todas as vestes são negras, da noite sem lua cheia. Entre o bailar das folhas de outono, é longo e triste e certo o presságio.
IMPRECISÕES
E não é sempre que sonho acordada,
olhando as ruas e vivendo o firmamento,
mas quando a vida faz de mim
a ré sentada numa arquibancada.
Por nada ver através dos vidros,
por muito ver além e mais além,
do tempo preciso e nunca mais vivido,
do tempo perdido por outros.
Construo sonhos apesar das chuvas,
neles caminho como alma livre
e vou suprema,
o imortal me vive
enquanto o sonho a lágrima enxuga.
VELHAS RIMAS
O dia segue só, perdi seu rastro
descalça, parada,os olhos buscam
dentro estão as dores que ofuscam
dentro está meu universo vasto
Queria tudo o que não quero há tempo
sem mais vagar na escuridão das ruas
e nem sentir o peso das palavras cruas
a ecoar de longe através do vento
Pergunta alguma obtém respostas
estar calada ainda vale a vida
é bem melhor do que ser reprimida
Minha garganta está seca, não respiro, vou morrer. E dentro de mim está um feto, sei disto e espero sobreviver. Alguém vê, alguém grita, eu grito. Ainda há algo de mim que grita pela sobrevivência e tenho que encontrar o que é.
Um frágil frasco de suave perfume. Quebrado. No chão, os cacos. No ar, a fragrância. Nem mesmo a mão que o quebrou pode guardar do perfume a sua essência.
(Extratos dos próximos capítulos na página seguinte)