Lembro porque conversei. Ouvi. Tantas vezes. Nunca o suficiente. Pessoas vindas de lá para cá com a intenção de ficar, fazer a vida, melhorar de vida, multiplicar, se exercitar, ver diferente, sonhar diferente. Outros, os outros, muitos outros. E os de passagem. Por uns dias, por uns anos, por uma vida.
Todos vieram por motivos semelhantes: o parente ou amigo que visita o país e fala das vantagens de se viver longe. Sem mencionar o trabalho duro, a solidão dura, a saudade dura, as humilhações duras. A curiosidade de ver como é a cara do estrangeiro: o primeiro mundo é primeiro mundo porque mesmo? A certeza de que nasceu no lugar errado. O amor, a paixão que acontece e atravessa milhares de quilômetros de mar, de terra e de fronteiras.
Saem para viver a família nova, para trabalhar, ganhar dinheiro, estudar, viver diferente e acabam aprendendo o significado muito profundo de sobreviver. Sobreviver. Viver sobre a dor de não ser e não estar.
São poucos, muito poucos, os que se dão bem. A ilusão de que o jeitinho brejeiro de agir resolve tudo leva tanta gente para aquém do sonhado... São bem poucos os que chegam a viver realmente bem. Sem fingir que conseguiu adaptar-se. Sem fazer de conta que nada faz tanta falta assim. E raros são os que saem e não passam por várias pontes estranhas na nova vida. Inclusive quebradas.
OS PASSOS DA LAVADEIRA
Dona Custódia vinha sempre com seus passos lentos e seu sorriso simples. A trouxa na cabeça, as roupas batidas, ela tinha a imagem que se guarda da mulher.
Nos cabelos que se adivinhava longos, trazia um lenço sem cor e sobre a saia descolorida, uma outra em forma de avental.
Quando falava, falava mansa e tão baixo... era preciso falar mais e mais, perguntar coisas. Então ela sorria e via-se um mundo em pedaços.
Seus passos sem pressa eram guiados pelas pernas fortes, mas cansadas, daquela que levava o peso sobre a cabeça como se levasse ali somente mais alguns pensamentos. Vinha caminhando, ora delineando a lagoa, pés descalços, os calos tocando o chão. Ora pisando os paralelepípedos e respirando a poeira das ruas.
Impossível tentar vê-la sem a grande e branca trouxa feita de lençóis cheios de roupa na cabeça. Roupas que eram pedaços de gente, que eram fatias de universos dos quais ela não fazia parte.
Levava mundos e imundos panos sobre a cabeça erguida. Gestos e traços, saliências do cansaço de ir e vir sob o sol. Quando ia, levava as sujeiras sem delas conhecer os nomes e as histórias. Mergulhava-as nas águas da lagoa, embranqueci-as com o sabão e a areia. Na sua volta, nem recordações. O cheiro então era de novo, o cheiro de limpo da dona Custódia, a lavadeira.
Perto dos olhos, os caminhos dos anos afundados continuavam seus ingratos percursos pelas faces, pelos lados dos lábios, pelo pescoço descoberto.
Mas de dentro dela, aura pacífica e terna, emanava a beleza da mulher simples conquistada pelo tempo.
Mulher sem muitos sonhos, a vida alva transparecendo nos doces olhos da lavadeira.Sua imagem percorre ainda minhas lembranças como um sentimento bom. Em mim, vai morar para sempre.
Um dos meus maiores incentivadores, o tio Jacques leu o livro mas não em sua forma final. Foi embora antes!
Nenhuma referência. É tudo o que quero dar a quem ler o que escrevo. Que seja o mergulho, ao profundo de cada linha, a mostrar o quanto somos iguais.
Me pedes para ir aí, vontade não falta. Mas não de ir e voltar e recomeçar a cada vez. Não tenho mais ânimo. Nem vontade.
É preciso pensar e eu penso. Mesmo quando não é preciso pensar eu penso.
Entro em cena. Todas as falas estão prontas para sair. Os gestos ainda estão um pouco inseguros. Falta alguma coisa. O cenário está lá. Os outros atores também. A roupa!
Tempo de ir ou de vir. Vontade de ir ou de vir. Obrigação de ir ou de vir. O deslocamento é constante na vida como na veia se desloca o sangue.
Entrando nas páginas em branco encontro a minha alma perdida em leituras e medos. Ela vasculha todo o papel em busca das linhas e encontra o senso da vida espremido em palavras não ditas. Começa a aventura de descobrir e escrever e buscar todos os parágrafos para dizer qualquer coisa. Talvez um dia haja um fim, talvez não. Quem poderá saber?
Não existe a pretensão de contar a vida. A vida é um pronunciamento de outras infinitas vidas. Portanto, final: não é possível contar a história dela. Só fragmentos. De cada um, de cada outro, de cada todos. Fragmentos de uma existência sem fim.