CORACIONAL, Coisas que vêm de dentro

 


Extratos do segundo capítulo:

OLHARES INTRA-URBANOS


SANTO FAROL

Há mais que a lua cheia

Iluminando o paiol

Onde se enfeita a rendeira

Há o facho do farol...

É de Santa Marta

Dos pescadores, das redes

Nova versão de Esparta

Velha canção nas paredes...

Ilumina, meu Farol, o escuro

Que cobre o mar e as pedras

Lá onde vai o barco, e os augúrios

Das esposas com suas rezas.

Abre os caminhos, Farol da Santa

Guia os guerreiros da fome sem medo

Estende sobre eles tua manta

Desvenda do mar os seus segredos...

Santo Farol que nas noites brilha

Pouco a pouco espalhando a luz

Santa Marta contigo partilha

A força divina que nos conduz.



MEMÓRIAS CORTADAS

Lembro porque conversei. Ouvi. Tantas vezes. Nunca o suficiente. Pessoas vindas de lá para cá com a intenção de ficar, fazer a vida, melhorar de vida, multiplicar, se exercitar, ver diferente, sonhar diferente. Outros, os outros, muitos outros. E os de passagem. Por uns dias, por uns anos, por uma vida.

Todos vieram por motivos semelhantes: o parente ou amigo que visita o país e fala das vantagens de se viver longe. Sem mencionar o trabalho duro, a solidão dura, a saudade dura, as humilhações duras. A curiosidade de ver como é a cara do estrangeiro: o primeiro mundo é primeiro mundo porque mesmo? A certeza de que nasceu no lugar errado. O amor, a paixão que acontece e atravessa milhares de quilômetros de mar, de terra e de fronteiras.

Saem para viver a família nova, para trabalhar, ganhar dinheiro, estudar, viver diferente e acabam aprendendo o significado muito profundo de sobreviver. Sobreviver. Viver  sobre a dor de não ser e não estar.

São poucos, muito poucos, os que se dão bem. A ilusão de que o jeitinho brejeiro de agir resolve tudo leva tanta gente para aquém do sonhado... São bem poucos os que chegam a viver realmente bem. Sem fingir que conseguiu adaptar-se. Sem fazer de conta que nada faz tanta falta assim. E raros são os que saem e não passam por várias pontes estranhas na nova vida. Inclusive quebradas.


OS PASSOS DA LAVADEIRA

Dona Custódia vinha sempre com seus passos lentos e seu sorriso simples. A trouxa na cabeça, as roupas batidas, ela tinha a imagem que se guarda da mulher.

Nos cabelos que se adivinhava longos, trazia um lenço sem cor e sobre a saia descolorida, uma outra em forma de avental.

Quando falava, falava mansa e tão baixo... era preciso falar mais e mais, perguntar coisas. Então ela sorria e via-se um mundo em pedaços.

Seus passos sem pressa eram guiados pelas pernas fortes, mas cansadas, daquela que levava o peso sobre a cabeça como se levasse ali somente mais alguns pensamentos. Vinha caminhando, ora delineando a lagoa, pés descalços, os calos tocando o chão. Ora pisando os paralelepípedos e respirando a poeira das ruas.

Impossível tentar vê-la sem a grande e branca trouxa feita de lençóis cheios de roupa na cabeça. Roupas que eram pedaços de gente, que eram fatias de universos dos quais ela não fazia parte.

Levava mundos e imundos panos sobre a cabeça erguida. Gestos e traços, saliências do cansaço de ir e vir sob o sol. Quando ia, levava as sujeiras sem delas conhecer os nomes e as histórias. Mergulhava-as nas águas da lagoa, embranqueci-as com o sabão e a areia. Na sua volta, nem recordações. O cheiro então era de novo, o cheiro de limpo da dona Custódia, a lavadeira.

Perto dos olhos, os caminhos dos anos afundados continuavam seus ingratos percursos pelas faces, pelos lados dos lábios, pelo pescoço descoberto.

Mas de dentro dela, aura pacífica e terna, emanava a beleza da mulher simples conquistada pelo tempo.

Mulher sem muitos sonhos, a vida alva transparecendo nos doces olhos da lavadeira.Sua imagem percorre ainda minhas lembranças como um sentimento bom. Em mim, vai morar para sempre.


Um dos meus maiores incentivadores, o tio Jacques leu o livro mas não em sua forma final. Foi embora antes!


Nenhuma referência. É tudo o que quero dar a quem ler o que escrevo. Que seja o mergulho, ao profundo de cada linha, a mostrar o quanto somos iguais.

Me pedes para ir aí, vontade não falta. Mas não de ir e voltar e recomeçar a cada vez. Não tenho mais ânimo. Nem vontade.

É preciso pensar e eu penso. Mesmo quando não é preciso pensar eu penso.

Entro em cena. Todas as falas estão prontas para sair. Os gestos ainda estão um pouco inseguros. Falta alguma coisa. O cenário está lá. Os outros atores também. A roupa!

Tempo de ir ou de vir. Vontade de ir ou de vir. Obrigação de ir ou de vir. O deslocamento é constante na vida como na veia se desloca o sangue.

Entrando nas páginas em branco encontro a minha alma perdida em leituras e medos. Ela vasculha todo o papel em busca das linhas e encontra o senso da vida espremido em palavras não ditas. Começa a aventura de descobrir e escrever e buscar todos os parágrafos para dizer qualquer coisa. Talvez um dia haja um fim, talvez não. Quem poderá saber?

Não existe a pretensão de contar a vida. A vida é um pronunciamento de outras infinitas vidas. Portanto, final: não é possível contar a história dela. Só fragmentos. De cada um, de cada outro, de cada todos. Fragmentos de uma existência sem fim.


                                                       Extratos no último capítulo na página seguinte.