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A PAIXÃO

SEM

EIXOS



Hoje, eu bebi tua voz.

Luta constante nunca esquecida, os medos grandes em formas profundas penetram a alma negando o sentimento. Esquecem as forças submersas, oriundas do ser, sublimadas pelo ser ele mesmo. De tudo quanto sinto eu não minto: o verbo amar é bem mais pungente. Sobre a amizade que também permito, somente eu sei, partistes, já não voltas.


Não vi quando os teus olhos se fecharam e teu sono te levou para longe de mim. Só peço que sonhes comigo. Porque o queres. E eu quero. Até que despertes ou durma eu.


Meu vestido que bailava branco sob as tuas mãos quentes. O brilho intruso das alças de strass que em choque com teu olhar arrebentaram e caíram. Teu riso. Meu riso. Nossa alegria, nosso momento. Nós.


Ah, agonia de existir tanto sem nunca demonstrar a imensidão do ser. Ser paixão e passionalmente sonhar sem viver.


Paixão. Chão que falta. Palco de luzes. Pão que alimenta. Paixão. Parte do infinito. Plenitude no afã de dividir-se.


Corpo presente e alma distante. Casal descombinado e moderno.


Por trás daquela magia estava a realidade mais simples de todas: a inconseqüência de um amor sem limite algum.

Me dá tua mão. Leva a minha a minha dentro da tua. Passo a passo eu quero seguir contigo e esquecer que um dia pude pensar viver sem ti.



Estou te abandonando, sonho que tive. Não saberei mais dos teus olhos e ainda menos beberei a tua voz. Deixar-te-ei órfã de todo o afã com o qual me imaginei e me lancei só e em delírios, me consumindo nas cismas tolas do platônico desejo. Faço isto por mim mesma, ainda que conhecendo as dores que me adornam o olhar quando fujo em direção à realidade. Mas reconheço, é preciso. Não devo mais construir muros de devaneios puros, que me cingem a alma e obstruem a concretização de uma vida. Estarei partindo lenta, triste, fatal, presumindo que adiante obterei a força para existir em carne e osso, aceitando compartilhar o amor humano que se abastece não somente das carícias imaginárias, mas do encontro dos corpos e das ambições.



ESTRANHAS ENTRANHAS

Emerge de mim o sonho,

ele se espreguiça e é branco.

O colo liso,  olhar manso,

me tira o sono.

Fosse ele a imaginação fremente,

o tilintar fugaz da vida à espera,

mas ele é chama e chama a quimera,

infinito e consequentemente.

Vem do âmago do corpo,

do desconhecido,

afastando ossos, peles, veias,

amordaçando a alma com sua teia,

revelando um eu subentendido.

Na garganta sinto... forte...

os braços se movendo em busca...

e o corpo todo trêmulo se vê,

querendo uma paixão que o suporte.

Sai de dentro o alívio sem pudor;

o sonho que vingou enfim.

Instante sem lucidez,

viagem com destino ao supremo.

Sonho ainda, já silente,

os olhos fechado e o suor.

Estou só.

Estou fantasiada.



LESÃO PERMANENTE


Ah, teus olhos que tão doce estavam

Infiltrados nos meus como uma lesão

E toda a insistência em ser ilusão

Longe e mais longe meus olhos ficavam

Por que não ser o amor que ensina

Fumaça, vaga lembrança, um cartão

As letras e as músicas e os dedos, violão

Ainda assim estando como areia fina

Caindo da ampulheta como sina

Seremos mais que nunca uma paixão.



SEM SUTILEZA


Tremi.

E o terremoto passou.

Longe,

a enchente penetrou

minhas ruas.

Umedeci.

Se outro vento vier,

um tufão,

eu vôo pra ti.




PASSIONAL

A paixão

Flui

No sangue

Os olhos cegos

Suor nas mãos

A paixão

Aviva

O corpo d’alma

Instiga

O ato febril

Dorme a razão

E a memória

Movem-se as sombras

No estranho duelo

Da existência.

A paixão

Toma a morte

Inebria

E é só.



O fotógrafo artista e amigo Gê, que recebeu o livro parece que gostou!