Quase quatro horas da tarde. Me chamam na recepção do meu trabalho. Uma pessoa me espera para entregar alguma coisa. Desço com o coração batendo forte, nem sei se sorrio. Arrumo a saia, os cabelos, os andares passam, térreo.
Lá esta ele, vou ao seu encontro, cumprimento e recebo de suas mãos "o pacote": ali dentro está um grande sonho, a prova final do meu livro.
Trocamos algumas palavras, acertamos os detalhes e decidimos que na segunda-feira próxima devolvo "o pacote" para que a alquimia se faça em poucos dias!
Após a despedida, após o elevador, sento, pego, abro, folheio e suspiro...
Chamei a atenção? Que bom. Era bem isto que eu achei que ia acontecer...
Não, não foi aos 20 anos quando, era bem verdade, eu tinha um corpo que merecia ser exposto e do qual eu nunca morri de vergonha. O fato de eu vir de biquine da praia até em casa, passando pelo supermercado ou qualquer outro lugar era meu natural. Não tinha nada de exibição. Eu não botava nada por cima porque sentia calor, não tinha vontade e muito menos achava necessidade.
Também não foi antes não. Eu tapava buraco em concurso de miss para colaborar com a tia que trabalhava com o turismo ou meu amigo que dirigia nosso grupo de teatro. E me divertia com a brincadeira da coisa...principalmente me divertindo com a seriedade de algumas meninas e fazendo novas amizades.
Depois? Ah, depois... ali pelos 30? Eu já estava aqui em Genebra... diziam (aqui em casa) que eu continuava a mesma. Longe... com outro nome, um pouco de Photoshop versão 1.2... podia, né? Mas não, não foi. Aí nessa época eu estava com a cabeça bem "Roberto Carlos", cheia de problemas, dois filhos em idade quase aborrecente (desculpem adolescentes, mas a gente quando passa por esta fase aborrece mesmo: a si mesmo e ao mundo. E ponto. Pronto.).
Então... foi estilo Yoná... estilo Ângela Vieira... coroa inteirinha... mostrando a toda a sensualidade através da pele?
Foi não meu povo. Minha Playboy foi muito mais difícil do que ir para Trancoso, lá na bela Bahia, me jogar nas ondas e tirar fotos belíssimas e me sentir belíssima...
Minha Playboy foi coracional. Eu mostrei o útero. Mostrei o que há por dentro dos meus seios: um coração batendo, veias, artérias, sangue pulsando. Abri tudo de mim, mostrei os ossos. Entreguei minha alma. Dei tudo o que tinha de mim nas páginas daquele livro que agora anda por aí me mostrando mais do que pelada pra todo mundo.
Fiquei nua, coracionalmente nua.
Enfiei o pé na jaca. Não é a moda?
(Estou aqui ouvindo Nalanda cantando "Pressentimento", entre outras)
Imagem: Não. Não sou eu. Não sei quem é. E com o editor de fotos vai ser difícil saber quem é:)