O ARTISTA E O SEU LUGAR: UM OLHAR SOBRE A ARTE DE CHACHÁ

Monagrafia de Fabiano Espíndola Siqueira (continuação da página anterior)


ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DA ARTE 

Iniciamos o presente estudo destacando que a arte é mais do que um reflexo: é a representação dos sentimentos, da história, da interação, da vida humana.

Mikail Bahktin, em um de seus estudos sobre manifestações artísticas, diz que não se contrapõe à arte nenhuma realidade em si, nenhuma realidade neutra. Ou seja, o autor defende que é preciso apenas sermos claros consigo mesmos para que possamos compreender o verdadeiro sentido de nossa apreciação. E ainda conclui:

... Naturalmente, a obra é viva e significativa enquanto obra de arte, não no nosso psiquismo; nele ela também está apenas empiricamente presente com um processo psíquico, localizado no tempo e regido por leis psicológicas. A obra é viva e significante do ponto de vista cognitivo, social, político, econômico e religioso num mundo também vivo e significante...  (MIKAIL BAHKTIN, 1975; p. 30)

Bahktin reforça uma concepção que muitos estudiosos ou até mesmo apreciadores da arte já tinham. É importante também, quando possível, tentar apreender que o artista tenciona expressar em seu trabalho. Logo, questões de tempo e espaço são relevantes para podermos apreender a essência, seja ela em quaisquer tipo de manifestação artística.

Robert Cumming (1999, p.3) enfatiza que toda obra tem um tema específico, cada uma com sua essência, com sua idéia principal, com sua mensagem significativa. Geralmente o público familiariza-se com tais abordagens que o artista certamente as presume num determinado trabalho. 

Evidenciamos ainda que a idéia de cada espectador tem sua própria interpretação naquilo que está se apreciando numa determinada obra, independentemente do ponto de vista do próprio criador. 

Segundo José Roberto Teixeira Leite (1999), há três características importantes para tentar conceituar um fenômeno como arte: (1) é produto de um ato criativo; (2) a cada instante ela corresponde, direta ou indiretamente, às concepções ideológicas da sociedade em que aparece; e (3) é íntima ao ser humano, ao longo de sua história. A partir daí, pode-se dizer, em primeira instância, que toda criação artística constitui em resultado de atividade do homem. Já os fenômenos físicos e naturais não são considerados como obras de arte, ainda que em alguns casos sejam belos e até para serem assim denominadas, é necessário o testemunho do ser humano. Com isto, a definição de arte é subjetiva, seja qual for o tipo de expressão artística. David Hockney acrescenta: “Não acredite nunca no que diz um artista, veja, antes o que ele faz” (apud MORAIS, 1998; p. 13.).

Em se tratando de beleza estética, Santo Tomás de Aquino (1225-1274) ressalta:

São necessárias três condições para a beleza: primeiro, a integridade ou perfeição, pois o que é incompleto é feio por isso mesmo; depois, a devida proporção ou harmonia e, por último, a claridade, pois aquilo que chamamos belo tem cor brilhante (apud MORAIS, 1998; p. 25).

 
O que vemos quando admiramos uma obra depende da nossa experiência e conhecimentos, da nossa disposição no momento, imaginação, e principalmente, daquilo que o artista pretendeu mostrar.

Um outro ponto de vista de arte é deflagrada por Marcel Duchamp. Segundo este artista contemporâneo:

A arte pode ser ruim, boa ou indiferente, mas qualquer que seja o adjetivo empregado, temos de chamá-la de arte. A arte ruim é arte, do mesmo modo como uma emoção ruim é uma emoção (DUCHAMP, Marcel – 1957, citação 42; apud MORAIS, p. 34).

 
Ainda no percurso pelas concepções de arte, torna-se importante acrescentar que segundo Herbert Read:

A arte não tem com a beleza relação necessária alguma, uma posição perfeitamente correta e lógica se limitarmos o conteúdo do termo àquele conceito primariamente estabelecido pelos gregos, e continuado pela tradição clássica romana (1998, p. 27).


Mediante a tais considerações, observamos que a contemplação não depende especificamente daquilo que nos fascina. A estética em si pode ser conceituada, em caráter filosófico, como a diversidade de sentimentos e emoções que suscitam no homem. Segundo estudos de grandes filósofos, a estética não é simplesmente o estudo do belo. Esses pensadores trataram do assunto, empregando noção de beleza. Todavia, Francis Hutcheson afirma que a beleza reina onde quer que a percepção apreenda relação agradável, e deixe claro que o belo é espiritual, mas que sua produção depende da sensibilidade.

Um exemplo é o quadro Guernica, de Pablo Picasso, no qual podemos observar que as linhas e as formas se distanciam dos padrões simétricos conservados pelos clássicos como anunciadores do belo. Neste caso, a essência da obra expressa um panorama reflexivo. Assim como em muitos movimentos de vanguarda, como no Surrealismo, pode-se apreender o espírito da artedo espanhol Salvador Dali, mesmo em imagens e cores que ultrapassam os limites da realidade. 



FIGURA 1: Guernica, de Pablo Picasso. Exposta no Museu do Padro, Madri.         




FIGURA 2: A Desmaterialização do Nariz de Nero. Coleção particular de Salvador Dali.