O ARTISTA E O SEU LUGAR: UM OLHAR SOBRE A ARTE DE CHACHÁ

Monagrafia de Fabiano Espíndola Siqueira (continuação da página anterior)


A arte pode ser também um dos modos simbólicos no qual o ser humano confere significados condizentes ao que está em sua volta, mostrando por meio de um objeto, as possibilidades do real ou não. Em outras palavras, a arte fala à imaginação do homem. Por isso, sua compreensão requer sensibilidade treinada, disponibilidade de conhecimento de história geral e de história da arte. Analisar uma determinada obra é sempre um exercício de conhecimento e sensibilidade que amplia nossa compreensão perante o real (CUMMING, 1998; p.3).

A Função Social da Arte


Na continuidade destas reflexões, chamamos a atenção que as artes possuem importantes funções para os povos. Com isto, destacam-se, não só pela criação de novas formas de beleza, mas por despertar, em muitas pessoas, sentimentos puros e nobres, além de proporcionarem-lhes maneiras de pensar e desfrutar os momentos.

A arte pode contribuir para manifestar e expressar as aparições mais profundas das pessoas e das situações históricas. O artista é, muitas vezes, aquele que demonstra sensibilidade aos questionamentos de seu tempo e consegue decifrar, em síntese, as inquietações e os problemas de seu povo. Conforme Kowalski, 

A arte é uma hipótese pessoal que é a seguir verificada pela sociedade. Se esta não se interessa, o artista permanece isolado e não tem público. O artista cria coisas e as coloca no mundo. Estas coisas podendo ou não se transformar em necessidades para o público, dependendo de seu maior ou menor interesse. O que quero dizer é que a arte tem uma função social desde o início. Mas é o público que permitirá à arte cumprir sua destinação social. Voltamos a Duchamp: são os espectadores que fazem arte (PIOTR KOWALSKI apud MORAIS, 1998, p.173). 

Destacamos ainda que se a arte pode surgir da necessidade do artista de transmitir aos outros os seus sentimentos e pensamentos, mesmo que tal obra artística se distancie da realidade, caracteriza-se com o produto de um tempo, uma vontade que quer ser materializada.

A pintura, não consiste em uma imitação de idéias ou de formas essenciais, mas sim, representa aquilo que o indivíduo pode sentir ante realidade exposta.

“A arte não é apenas prazer. (...) Sua função é enriquecer e desenvolver a consciência humana” (SUSANNE LANGER, apud MORAIS, 1998, p. 203).


A arte pictórica pode ser apresentada como instrumento de denúncia da realidade social. E no presente estudo pretende-se, ao focalizar as obras selecionadas, dar ênfase a função social que delas se depreende.

Enfim, compreendemos assim que a arte é todo trabalho criativo, ou seu produto, que se faça consciente ou não com intenção estética, ou seja, com a finalidade de alcançar resultados belos.

Ao longo dos tempos e, à medida que se sucedam as gerações, a arte experimenta em sua maneira de ser e cabe à história da arte avaliar a importância dessas modificações. Assim como o historiador da arte deve ordenar por classes os fatos de que dispõe, segundo um critério de qualidade.


CRÔNICA: ORIGENS E SUA FUNÇÃO NA ARTE LITERÁRIA


    Mito de Cronos (ou Saturno)



  FIGURA 3: Saturno devorando seus filhos, de Goya. Museu do Padro, Madri.


A figura enigmática de Cronos representou, na mitologia, um claro exemplo dos conflitos religiosos e culturais surgidos entre os gregos e os povos que habitavam a península helênica antes de sua chegada.

Cronos era um deus da mitologia pré-helênica ao qual se atribuíam funções relacionadas com a agricultura. Mais tarde, os gregos o incluíram em sua cosmogonia, mas lhe conferiram um caráter sinistro e negativo.

Na mitologia grega, Cronos era filho de Urano (o céu) e de Géia ou Gê (a terra). Incitado pela mãe e ajudado pelos irmãos, os titãs, castrou o pai - o que separou o céu da terra - e tornou-se o primeiro rei dos deuses. Seu reinado, porém, era ameaçado por uma profecia segundo a qual um de seus filhos o destronaria. Para que não se cumprisse essa previsão, Cronos devorou todos os filhos que lhe dava sua mulher, Réia, até que esta conseguiu salvar Zeus. Este, quando cresceu, arrebatou o trono do pai, conseguiu que ele vomitasse os outros filhos, ainda vivos, e o expulsou do Olimpo, banindo-o para o Tártaro, lugar de tormento.

Segundo a tradição clássica, Cronos simbolizava o tempo e por isso Zeus, ao derrotá-lo, conferira a imortalidade aos deuses. Era representado como um ancião empunhando uma foice e freqüentemente aparecia associado a divindades estrangeiras propensas a sacrifícios humanos.

Os romanos assimilaram Cronos a Saturno e dizia-se que, ao fugir do Olimpo, ele levara a agricultura para Roma, com o que recuperava suas primitivas funções agrícolas. Em sua homenagem, celebravam-se as saturnálias, festas rituais relacionadas com a colheita. Não é à toa que a palavra inglesa “Saturday” (sábado) é uma homenagem do povo celta a Saturno, ou, “o dia da colheita”. Alguns astrólogos ainda dizem que uma pessoa saturnina, aquela que nasceu sob influência do planeta Saturno, tende a ter um temperamento agressivo ou melancólico.  


 A Crônica – conceitos básicos 

“Alguém já disse que crônica é a literatura sem tempo”

(LUIS FERNANDO VERÍSSIMO)


Mesmo que ela tenha surgido como modalidade literária somente no século XVIII, suas origens remontam a Grécia Clássica. Em sua etimologia, a palavra crônica, se origina de "Chronos", que na mitologia grega, está relacionada ao deus do tempo (Cronos, para os gregos; Saturno para os romanos). Daí a concepção de que o dia-a-dia atua como ferramenta de trabalho dos cronistas. Talvez seja por essa relação com o tempo, com a atualidade, que as crônicas estejam tão associadas ao jornalismo, que, por sua vez (e não por acaso), vem do francês jour (dia).

Nos primórdios da era cristã, denominava-se crônica a uma relação de acontecimentos organizada cronologicamente, sem nenhuma participação interpretativa do cronista. Nessa forma, ela atinge o seu ponto mais alto na Idade Média, após o século XII, quando já uma perspectiva individual da história (...). As simples relações de fatos passam, então, a chamar-se “cronicões”. E no século XVI, o temo “crônica” começa a ser substituído por história (SOARES, 1993, p.64).

Assim, contar histórias e interpretar fatos, a partir da realidade ou oriunda de informações não muito confiáveis, a crônica faz parte da existência de todos os povos. Diversas delas, tornam-se ícones de uma geração, pela forma como são narradas e atravessam o tempo sem perder sua densidade literária e impacta naqueles que a lêem.

No século XIX, com o desenvolvimento da imprensa, a crônica passou a fazer parte dos jornais. Ela apareceu pela primeira vez em 1799, no Journal de Débats, publicado em Paris. Esses textos comentavam, de forma crítica, acontecimentos que haviam ocorrido durante a semana. Tinham, portanto, um sentido histórico e serviam, assim como outros textos do jornal, informar o leitor. Nesse período as crônicas eram publicadas no rodapé dos jornais, os chamados "folhetins".

Na concepção atual, a crônica é um gênero literário de assunto aberto e livre, quase sempre apoiado em pequenos fatos do cotidiano e prestando-se a reflexões sobre política, crimes, processos, divulgações acerca de incidentes diversos, enfim, tudo que um bom observador atento pode extrair ou representar do dia-a-dia das pessoas. 

A prática da crônica foi trazida para o Brasil na segunda metade do século XIX e era muito parecida com os textos publicados nos jornais franceses. Daí, então, crônica naturalizou-se brasileira, ou melhor, carioca, conforme comenta o norte-americano Gerald M. Moser, citado por Massaud Moisés (1978). De qualquer modo, a crônica tal qual se desenvolveu entre nós, parece não ter similar em outras literaturas, salvo por influência de nossos escritores. Na seguinte citação, Moser conceitua:

Não só os mais brilhantes cronistas estão vinculados com o Rio, como também seus comentários refletem a implicante malícia, de mistura com solidária sentimentalmente e irônico ceticismo que têm sido associados com o carioca (GERALD M. MOSER, “The ‘CRONICÁ’: A NEW GENRE IN BRAZILIAN LITERATURE?” apud MASSAUD MOISÉS, p. 246).

O cronista brasileiro Carlos Heitor Cony, em entrevista ao portal do jornal Folha de São Paulo do dia 06 de setembro de 2004, faz uma diferenciação entre a crônica jornalística e a crônica literária:

O jornal é opinião e informação. A crônica é um gênero marginal na literatura e no jornalismo. É um texto literário sim, mas de uma literatura datada, e jornalístico, mas não obrigado a pagar o tributo da informação e da opinião, que é a finalidade última da imprensa. A crônica se obriga a ser bem escrita, a ter um tratamento literário, mais agradável ao leitor. Por isto tem o prestígio que tem. As informações são chatas, o quê, quem, quando, onde - é uma fórmula que não é prazerosa. A crônica tem por obrigação ser prazerosa. Mas não tem característica de permanência, é uma reflexão provisória, de tempo marcado. A popularidade da crônica é grande no Brasil, nunca faltaram bons cronistas. É como clube de futebol, cada um tem o seu.
(CARLOS HEITOR CONY)

Em idéias atuais, enquanto literatura, este gênero permite o exercício da subjetividade (do autor), o prazer e o sabor do texto próprios à arte da narrativa e da reflexão sem compromisso. A crônica é mais que uma fotografia, quase uma pintura de cores leves, talvez uma aquarela.

Toda crônica é, entre outras coisas, um relato ou comentário de fatos corriqueiros do dia-a-dia, o restante depende do olhar de cada um... Ela é publicada primeiramente em jornais, depois cada autor seleciona as melhores, as mais universais, e montam seus livros com elas. É um gênero dos tempos modernos, de leitura rápida, que se adapta bem à Internet, como é o caso dos blogs, os chamados Cyber Diários.

Fernando Sabino comenta que: “A crônica é um comentário leve e breve sobre algum fato do cotidiano. Algo para ser lido enquanto se toma o café da manhã.”

Enfim, a crônica é uma das formas de comunicação literária mais antigas da humanidade. Sua construção gramatical e literária atual ocorreu de forma gradual. Não surgiu simplesmente nas páginas dos livros, mas em conversas dos homens, discutindo suas idéias. Historicamente, em torno das fogueiras que muitas histórias foram contadas. Vindos de excursões em busca de alimentos ou em defesa de territórios, os homens narravam suas lutas, proezas, valentias, os sofrimentos superados, as perdas, para os atentos ouvintes que permaneciam em casa ou nas aldeias. Para Walter Benjamin:

Quando alguém faz uma viagem, então tem alguma coisa para contar, diz a voz povo e imagina o narrador como alguém que vem de longe. Mas não é com menos prazer que se ouve aquele que, vivendo historicamente do seu trabalho, ficou em casa e conhece as histórias e tradições de sua terra (1980 p. 58). 

(Continua na próxima página)