O ARTISTA E O SEU LUGAR: UM OLHAR SOBRE A ARTE DE CHACHÁ

Monagrafia de Fabiano Espíndola Siqueira (continuação da página anterior)


Atualmente (em 2005, pois ele faleceu em 2007) o artista não escreve. Segundo ele, não ganhava nada para tal. E como não tem aposentadoria, vive exclusivamente da pintura de suas telas. E em 1999, na gestão do prefeito João Gualberto Pereira (1997 - 2000), recebe o título de Cidadão Lagunense.   

Chachá completa setenta anos de vida no ano de 2005. Boêmio, como sua própria esposa o designa; figura folclórica na opinião de vários amigos e “inimigos” seus; artista-plástico poético na visão de sues admiradores. Contudo, é sua esposa que melhor o define:

                                                 "Ele é um ‘camaleão’” (Sra. Terezinha Soares Bulos).

 
Em seu olhar, dona Terezinha ressalta a habilidade de Chachá em criar suas variadas obras: cronista, caricaturista e artista plástico, que é exatamente que irei apresentar no decorrer do presente trabalho.

Neste estudo, conforme já anunciado, tenciona-se, na tentativa de apreender um pouco da essência de sua arte, homenagear um dos mais versáteis artistas que a cidade de Laguna possui.


UM OLHAR PARA O LADO JORNALISTA DE CHACHÁ 
 

Conforme foi apresentado anteriormente, Chachá inicia na imprensa lagunense como colunista e editor-chefe no antigo Semanário de Notícias, o atual Jornal de Laguna, no fim da década de 60, logo após abandonar a vida de caixeiro-viajante. 

Em 1970, Chachá fundou, juntamente com Eraldo Silveira, o jornal: O Camboim, em formato tablóide, impresso na gráfica do tubaronense Edgar Nunes. Segundo Chachá, vem de “cambuí”, um tipo de madeira rígida usado para a fabricação de cacetes. O nome é uma metáfora, querendo exprimir “descendo o porrete” nos maus administradores públicos. Infelizmente, o artista não possui um exemplar deste e de muitos outros jornais fundados ou não por ele. Os dois únicos exemplares que ainda restam são das gazetas O Palanque (edição de outubro de 1988) e O Diabo (editado em outubro de 1993). Sobre, por qual razão Chachá não guardou essas raridades? O próprio artista responde: “Para quê guardar, se tudo nesta vida se perde?”.

Eis muitos outros jornais em que Chachá se fez presente como fundador, co-fundador ou redator:

 

·         O Renovador – fim dos anos 70, fundado com Mário José Remor, José Paulo Arantes (já falecido) e Júlio Sampaio Teixeira. Chachá trabalhava como redator e editor-chefe;

·         A Voz de Laguna – de 1980. Na época, o segundo jornal manuscrito do país; (Observação da filha Jacqueline: Nós fazíamos juntos o jornal sentados na cozinha. Como era manuscrito, ele escrevia o jornal inteiro e me dava para revisar. Um dia, olhando minha letra ele falou: "É como a minha, pega estas páginas e escreve tu." Assim passamos a dividir o trabalho da escrita e lhe sobrava tempo para algo que ele adorava: recortar revistas para fazer montagens e desenhar suas caricaturas."

·         O Palanque – 1988/1989, junto com o Srs. Alvino José Júnior, Walmir Guedes e Nazil Bento, este como jornalista responsável;

·         Le Juste (O Justo em francês) fundado no início da década de 90. Depois muda o nome para O Diabo, no qual saiu apenas um exemplar, pois os patrocinadores e alguns leitores achavam o nome muito pesado. Chachá teve a colaboração de Alvino José Júnior e Flávio Bergler Nunes (este como jornalista responsável);

·         O Correio – fundado em 1995, de propriedade do Sr. Paulo Sérgio Silva, juntamente com o radialista João Vicente. Chachá escrevia para a coluna “Em baixo de meu pincenê”. Depois, muda o nome para “Em baixo de minha úlcera”, devido a uma úlcera duodenal que quase o levou à morte. Publicou neste periódico muitas de suas caricaturas e charges com o nome de “Drachir”, o nome de Richard escrito ao contrário;

·         O Pharol – fundado em 1998 pelo Sr. Álvaro de Oliveira. É o primeiro jornal em cores publicado na cidade de Laguna, com circulação também em Florianópolis, Tubarão, Criciúma, Imbituba e Capivari de Baixo. O quinzenário conta com vários colunistas e colaboradores. Chachá escrevia para a coluna “Nas coxas do cotidiano”, onde registrava alguns fatos passados e presentes: lembranças de amigos, entes queridos, sua estada em Genebra, etc. A uma edição e outra, uma tela ou alguma charge do artista era impressa na manchete;

·         O Tambor – Fundado em 2001 por Chachá, Sr. Flávio Bergler Nunes e Sr. Alvino José Júnior. Segundo o artista, o jornal mais lido nos últimos tempos, ganhando em vendagem dos “fortes concorrentes”. 

Recentemente, Chachá publicou suas sátiras no editorial e na coluna “Na ponta do Alfinete – a coluna que acompanha o fato no nascedouro”, ambas do jornal O Tambor (que teve seu primeiro exemplar lançado em 2001). Atualmente, o “rufante” (como é apelidado este quinzenário) está sendo dado baixa. A mais recente edição saiu no início do ano de 2003.

Neste mesmo periódico, o artista e seus “assistentes” escreviam frases no cabeçalho do jornal, como estas: “Lembre-se, corrupto só prospera por falta de denúncia da sociedade”; “À câmara cabe legislar, não dizer ‘amém’ ao executivo”; “O único de rabo preso com o leitor”; “O Tambor é como a ‘folha’: não dá para não ler”; e uma das mais hilárias “seja um político, minta com convicção”; entre outras. 

O russo Vladimir Propp (1976) em seus estudos sobre o cômico justifica que o aspecto do riso estritamente ligado à comicidade seja aquele que chamamos de riso de zombaria. Para Propp, este é o tipo de riso que mais se encontra a na vida e na arte:

“A comicidade costuma estar associada ao desnudamento de defeitos, manifestos ou secretos, daquele ou daquilo que suscita o riso” (p.171).

Esta citação reforça a intenção dos textos de Chachá, a de provocar o riso através da paródia, que segundo Propp:


(...) é um dos instrumentos mais poderosos da sátira social. (...) A paródia é cômica somente quando revela a fragilidade interior do que e parodiado. (...) é preciso distinguir a utilização para objetivos satíricos de formas de obras comumente conhecidas, dirigida não contra os autores dessas obras, mas contra os fenômenos de caráter sociopolítico (p. 87).

Chachá não possui algum tipo de formação na área jornalística. Para que suas publicações possam circular, conta atualmente com Flávio Bergler Nunes, jornalista responsável desde o jornal Le Juste (ou, O Diabo). Chachá se considera “um jornalista de fato, não de direito”. Segundo Chachá, a Lei de Imprensa determina que toda publicação jornalística tenha, por obrigatoriedade, um jornalista responsável.

Chachá pretende pôr em circulação, juntamente com o jornalista Flávio Bergler Nunes, o semanário A Luneta, nome escolhido pelo artista que denota a aproximação do olhar. E o próprio Chachá imagina o slogan: “Se está muito longe de seus olhos, use A Luneta”.

Com este novo projeto, Chachá alega que não se dedicará mais à crítica política, devido não somente aos problemas de saúde, como ele diz estar cansado em escrevê-las.  



FIGURA 17: Manchete da edição do jornal O Palanque, de 29 de outubro de 1988.




FIGURA 18: Manchete da primeira e única edição do jornal O Diabo, de outubro de 1993.      




FIGURA 19: Manchete da edição 110 do jornal O Pharol, de 04/05/2001.




FIGURA 20: Manchete do jornal O Tambor, da primeira quinzena de setembro de 2001.


(Continua na próxima página)