O ARTISTA E O SEU LUGAR: UM OLHAR SOBRE A ARTE DE CHACHÁ

Monagrafia de Fabiano Espíndola Siqueira (continuação da página anterior)


Seus Escritos


Conforme Chachá os define, seus escritos são sátiras pesadas. Seus textos atuam “no sagrado exercício da cidadania”, como o artista afirma. Suas crônicas são direcionadas, principalmente, ao bloco político do município de Laguna. E acrescenta: “Como cidadão de Laguna, prezo pelo bom uso do dinheiro público”.

Sendo assim, suas publicações revelam “o lado negro” dos poderes executivo e legislativo da cidade. Tais escritos custaram a ele vários processos na justiça, alguns ainda em vigor. Isso reforça a idéia de que a liberdade de expressão, segundo a Constituição de 1988, não condiz com a realidade:

“É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. (Art.5º, parágrafo IX; p.9)

Entretanto, Chachá esclarece que suas “farpas” são apontadas aos procedimentos tomados por determinados administradores, não a eles em si.  

Vejamos agora uma crônica de Chachá, começando pela publicada na edição nº 2 do jornal O Tambor, da segunda quinzena de abril de 2001:

 

Soco na Boca do Estômago

Centro Social Urbano. O Comício de Cadorin e Hilda Bicca reunia surpreendente número de curiosos, dezena deles do lado de fora, por falta de espaço, mesmo assim, aplaudiam a todos que abusavam da palavra.

A vice, chapéu de palha branco, vestia um longo vermelho escalarte com bordados dourados na barra, adquiridos na Maison Royal, em Paris. As meias roxas que afagavam os joelhos e os sapatos azul marinho, completavam o todo. Divina, como diria Nivaldo Mattos.

Cadorin, como de praxe, foi o último a discursar. Usava camisa verde bandeira, aberta na altura do peito, exibindo os pêlos brancos da vivacidade. No pescoço, lenço. Mais abaixo, as bombachas e belo par de botas.

Entre as muitas promessas, num repente, descobre no meio do povo uma bicicleta improvisada em carrinho movido a manivela, carcomida, dura condução d’um aleijado. Dentro dele, o popular “Banana”. Pronto! Ali estava o que precisava para sensibilizar ainda mais a platéia: “Estão vendo esta criatura esquecida? Ela receberá de minhas mãos e das de dona Hilda, uma cadeira motorizada”. Aplausos, emoção à flor da pele. O comício estava ganho. E os votinhos também.

Quatro meses depois, encontramos o “Banana” com a mesma desgraçada condução. 

  

Narrado em terceira pessoa, o ocorrido mostrado no presente texto, aconteceu na Associação Bairro Progresso – Centro Social Urbano. Adílcio Cadorin, advogado; e Sra. Hilda Soares Bicca, Pedagoga; pleiteavam, nesta ocasião, um cargo no poder executivo como prefeito e vice respectivamente, na campanha eleitoral do ano de 2000. Nesta oportunidade, foram eleitos para a gestão 2001 – 2004.

“Todos que abusavam da palavra”, neste caso, vêm a ser os candidatos a vereador coligados na campanha Cadorin – Hilda Bicca.

Nivaldo Mattos, juntamente com Chachá, é um dos colunistas do jornal O Pharol.

E o “Banana” é o vulgo do Sr. Valdir Carola. Teve uma de suas pernas amputadas procedente de uma trombose. Seu meio de locomoção é uma cadeira de rodas movida à corrente de bicicleta. Banana é um dos muitos personagens que Chachá cita como descaso da administração pública. 

Nesta crônica, Chachá ironiza a promessa não cumprida do então futuro prefeito, que na tentativa de sensibilizar muitos eleitores, proferindo em voz alta que presentearia a “criatura esquecida” com uma cadeira de rodas motorizada.

 

Até mesmo um serviço de utilidade pública não escapou às “setas inflamadas” de Chachá. Na coluna Na Ponta do Alfinete – A Coluna que Acompanha o fato no Nascedouro, o artista satirizou o serviço com a seguinte crônica publicada na edição de nº 26 do jornal O Tambor:

A Prefeitura lançou, orgulhosamente, o DISQUE CIDADÃO. Eis alguns exemplos da eficiência desse generoso serviço:

 

-          Alô é do DISQUE CIDADÃO?

-          Sim, J. Raulino, às ordens.

-          Sou ex-servidor, o que devo fazer para receber o salário de dezembro de 2000?

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          É do DISQUE CIDADÃO?

-          Sim, J. Raulino, às ordens.

-          Teu prefeito atirou na edição 26 do jornal O TAMBOR na cara do Gaúcho, coordenador do comitê do PPB. Que feio, não?

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          Com quem falo?

-          Do DISQUE CIDADÃO, J. Raulino, às ordens.

-          Gostaria de receber a relação das famílias beneficiadas com o programa Bolsa Escola. Como proceder?

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          DISQUE CIDADÃO?

-          Sim, J. Raulino, às ordens.

-          Meu filho brigou na creche do CAIC, ficando todo arranhado. Ao pedir explicações à diretora, ela simplesmente colocou o piá pra rua. E agora?

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          Alô DISQUE CIDADÃO?

-          Sim, J. Raulino, às ordens.

-          O ex-secretário de obras continua negando a devolução do dinheiro da compra de lajotas para calçamento da rua Professor Édio de Oliveira. Não é uma aberração?

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          Alô é do 6460033?

-          Sim, J. Raulino, às ordens.

-          Não sentem vergonha em entregar a merenda escolar em sacos de lixo?

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          DISQUE CIDADÃO?

-          Sim, J. Raulino, às ordens.

-          Se Lula Ganhar, teu chefão terá de ir à Brasília na companhia de Célio Antônio. Senão...

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 


Vimos, então, que o DISQUE CIDADÃO é um serviço aberto ao público para devidas reivindicações. O responsável pela ouvidora era o assessor do prefeito Adílcio Cadorin, Sr. J. Raulino.

O texto é, na verdade, uma crítica bem humorada de Chachá, uma paródia onde o autor imagina, na prática, a “eficácia” deste utilitário.

Na edição seguinte, os editores do jornal O Tambor concederam direito de resposta à assessoria da Prefeitura Municipal de Laguna, publicado na edição nº 27 da segunda quinzena de novembro de 2002, na mesma coluna:

 

Direito de Resposta concedido pelo Jornal ao prefeito

O serviço DISQUE CIDADÃO implantado desde cinco de agosto desse ano, exerce um papel importante em benefício dos moradores, não podendo ser admitida qualquer ironização a respeito ou tentativas de colocar dúvidas sobre sua natureza e objetivos. A abordagem feita pelo responsável dessa coluna, com deselegância e desconhecimento sobre as atividades desenvolvidas pela equipe, confunde a atenção dada aos problemas e às sugestões dos moradores de Laguna com interesses políticos. Uma falsa afirmação diante dos excelentes resultados alcançados em tão pouco tempo. O reconhecimento da população em relação ao DISQUE CIDADÃO, que funciona pelo número 646-0833 – ao contrário do que afirma o colunista, mostrando mais uma vez seu desconhecimento, tem sido exemplar. Os índices se satisfação oscilam entre 85 e 95%, conforme se pode aferir pelas soluções dadas às reclamações aos usuários. É importante salientar que o DISQUE – CIDADÃO foi criado para resolver pequenos problemas da comunidade, acelerando o atendimento nos casos onde é possível uma rápida intervenção do Poder Público.

         O DISQUE – CIDADÃO é um serviço disponível a todos os cidadãos e cidadãs de Laguna, independente de sua ideologia política, sua religião, cor da pele ou qualquer outro meio de discriminação. O nome DISQUE – CIDADÃO identifica uma ação do Poder Público voltada a valorização da democracia e a liberdade que cada individua tem de participar das ações.


E ainda na mesma coluna:

 

NOTA DOS REDATORES

Tanto o prefeito quanto seu assessor, J. Raulino, conseguiram responder os apelos contidos na edição anterior, portanto, na presente edição, iremos continuar mostrando novos exemplos de eficiência do serviço disponibilizado à comunidade:

 

-          Alô, DISQUE-CIDADÃO?

-          J. Raulino, seu criado.

-          Diga pro Cadorin que a gente leu a cartinha pedindo ao estado suspender nossas propagandas. Coisa de moleque!

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          Alô, DISQUE-CIDADÃO?

-          J. Raulino a todo vapor.

-          Dona Scopel ta fazendo o “Gaguinho” de palhaço, com relação ao abaixo-assinado visando à volta do Dr. Sílvio pra unidade sanitária da Cohab. Esse posto virou a referência da vergonha.

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          Alô, DISQUE-CIDADÃO?

-          J. Raulino, sempre alerta.

-          Quando chega o Batalhão de Engenharia de Lages para apressar o recapeamento do anel viário? O da avenida João Pinho já está descascando. Serviço de porco.

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          Alô, DISQUE-CIDADÃO?

-          J. Raulino, seu arcanjo.

-          To desempregado, me consegue uma boquinha na fábrica italiana de luminárias?

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

-          Alô, DISQUE-CIDADÃO?

-          J. Raulino, seu Mordomo.

-          Cadê a cadeira motorizada do “Banana”? A Bíblia diz: quem promete e não cumpre, acaba abanando o rabo do Diabo.

-          Pi, pi, pi, pi, pi...

 

Conforme percebemos, o quinzenário O Tambor também concedia direito de resposta à prefeitura. Mesmo assim, Chachá e seus editores revidavam com uma crítica ainda mais severa e irônica.

No primeiro parágrafo deste texto, Chachá ressalta a ida do prefeito Adílcio Cadorin ao Ministério Público Estadual com finalidade de suspender a circulação deste periódico.

Dona Scopel, na ocasião a primeira-dama da cidade, responsável pelas ações sociais do município. O “Gaguinho”, como é conhecido na Cohab do Bairro Progresso, foi articulador de um abaixo-assinado reivindicando a volta do clínico geral, Sílvio Barbosa Castro, à unidade sanitária desta comunidade.

A fábrica italiana de luminárias foi um dos objetivos de campanha do prefeito Cadorin, visando gerar empregos para a população. Chachá ressalta um projeto que não saiu do papel. Em algumas edições do jornal O Tambor, ele chamava a fábrica de iluminarias “Ilusiones”. 

 E por último, a presença do popular “Banana” (ou Valdir Carola, que espera até hoje sua cadeira motorizada), citada, também, nesta crônica.

Destacamos ainda que além da administração prefeito Adílcio Cadorin, outros administradores municipais foram alvo dos textos de Chachá. Segundo o artista, começou pelo ex-prefeito de Laguna, Saul Ulysséa Baião, no início da década de 70.

Em 1993, na gestão do prefeito e cirurgião Jorge Tadeu Zanini, falecido em 2003. O artista lamenta o processo de afastamento do então prefeito com a seguinte crônica publicada na manchete do jornal O Diabo:


QUEM TE VIU, QUEM TE V.

Excelente médico. O dinheiro ganho com seu talento, não foi o suficiente para mantê-lo na meritosa profissão. Quis também o PODER. Lutou honestamente e conseguiu. Apenas, pensou que poderia usar a pena com a mesma destreza com que manipula o bisturi.
Caiu do cavalo. E perdeu um exército de amigos. – Jorge Tadeu Zanini.  

Nem mesmo a personagem histórica Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Anita Garibaldi, foi poupada. Como podemos ver nesta crônica publicada no jornal O Tambor, na segunda quinzena de outubro de 2002:

Inédito na Câmara: vereadores lembram do sapateiro corno

O prefeito de Laguna enviou para apreciação dos vereadores, projeto de lei, instituindo o título de “EMBAIXADOR DE LAGUNA”, que seria oferecido a pessoas com destaque no cenário nacional.

         Só para exemplificar, a ‘bodyboarding’ Soraia Rocha poderia ser uma “embaixadora”. Só que os vereadores não entenderam assim.

         Célio Antônio (PT), por exemplo, usou a tribuna para dizer que a cidade não é um país e por isso não pode ter embaixadores. “Precisamos de mais atenção nas escolas e no serviço de saúde do município, isso sim. Nada Justifica a encenação da Tomada de Laguna. O que Garibaldi e Canabarro vieram fazer em Laguna, foi caçar padres. Eles não merecem tipo algum de homenagens”, disse o vereador petista.

         Em aparte, Jorge Zanini (sem partido), disse já ter ouvido falar sobre o assunto, com o Dr. Erwin, “ele sabe tudo da história de Laguna”, disse o vereador.

         Jefferson ‘Finho’ Crippa (PSDB), disse que, se o projeto fosse aprovado, o primeiro a receber o título deveria ser o sapateiro, “o que era casado com Anita. Pelo menos foi o primeiro corno reconhecido no mundo inteiro”.

         Em votação, o projeto do ‘italiano’ foi rejeitado por seis votos a cinco.

        

No presente texto, Chachá deixa evidente a vontade do prefeito Adílcio Cadorin em querer prestar homenagem a alguma personalidade lagunense. Essa ânsia, segundo Chachá, deu-se com a eufórica e espetacular encenação da peça A Tomada de Laguna.

            O “sapateiro corno” refere-se a Manoel Duarte de Aguiar, primeiro marido de Ana Maria de Jesus Ribeiro, a conhecidíssima Anita Garibaldi, que segundo a historiografia tradicional, foi abandonada pelo marido para alistar-se ao Exército Imperial e combater os revoltosos Farroupilhas.

            Numa das entrevistas ao artista, ele destaca que a história do abando do marido é uma afirmação errônea. Na opinião de Chachá, foi Anita quem o abandonou e esse caso foi abafado. Pois para os padrões tradicionais da época, a separação era um verdadeiro escândalo. E Chachá acrescenta: “(...) tanto que Anita e Garibaldi tiveram que oficializar matrimônio no Uruguai, pois na época, não havia no Brasil uma lei para o divórcio. Infelizmente, somos obrigados a aceitar uma história deturpada”.

Encerramos, portanto, este capítulo com um depoimento de Flávio Bergler Nunes:

Falar sobre Chachá, jornalista sagaz na busca da verdade é tarefa fácil para quem conviveu com ele nas redações e nos bares da cidade, onde muitas vezes os jornais eram fechados. Sério conhecedor da Língua Portuguesa, nunca deixou de consultar um dicionário. Homem inteligente, sempre tinha um toque de humor em suas notas. Chachá deveria ser homenageado todos os anos pela história que tem com o jornalismo lagunense. Quando forchamado pelo Criador, deixará uma lacuna que jamais será preenchida por outra pessoa.


(Continua na próxima página)