O ARTISTA E O SEU LUGAR: UM OLHAR SOBRE A ARTE DE CHACHÁ

Monagrafia de Fabiano Espíndola Siqueira (continuação da página anterior)


 AS CARICATURAS E CHARGES DE CHACHÁ  

 

A palavra caricatura é de origem italiana (caricare), que significa desenho onde, pela escolha dos detalhes, acentua ou revela certos aspectos caricatos de pessoa ou fato. Na linguagem cênica, é uma representação burlesca em que se arremedam ou satirizam comicamente pessoas ou fatos. Pode ser ainda uma reprodução deformada de algo. Como pode ser também a representação plástica ou gráfica de uma pessoa, tipo, ação ou idéia interpretada voluntariamente de forma distorcida com a afirmação de seu aspecto ridículo ou grotesco.

Fonseca (1999, p.13) afirma que os jornais e revistas no mundo inteiro dão às mais diversas formas de caricatura espaço nobre, muitas vezes na primeira página dos diários, porque caricaturas e charges se tornam verdadeiros editoriais, comentários sociais que, velados pela ironia ou explicitamente opinativos pela sátira e pelo sarcasmo, mostram com simples figuras o que não poderia ser dito com menos de mil palavras. No campo da arte a caricatura se aproxima da sátira e do burlesco na literatura.

A caricatura é uma arte ferina que, através dos tempos, tem ridicularizado suas vítimas. Constatamos que gente de renome, políticos notórios, senhores de guerra, celebridades em geral, bem como eventos sociais e políticos em que estão envolvidos, têm sido alvos, direta ou indiretamente, do comentário gráfico ferino e impiedoso na forma dos desenhos e gravuras com que os caricaturistas os expõem à opinião pública.

Fonseca (1999, p.13) ainda diz que ninguém pode negar a importância do desenho humorístico na imprensa, seja como documento histórico, como fonte de informação social e política, como termômetro de opinião, como fenômeno estético, como expressão artística e literária ou como simples forma de diversão e passatempo.

A caricatura tem sido, através da história, voz contundente e impiedosa que, mesmo sob condições severas da censura, usando a linguagem metafórica, subversiva e contaminada de ironia, de sátira, de sarcasmo e de trocadilho, denuncia e reivindica os sofrimentos dos oprimidos. Esta arte é, portanto, arma aguçada que o povo aplaude ao ver muitas vezes ridicularizadas nela a força, o despotismo, o autoritarismo, a intolerância, a injustiça.

A caricatura também pode desempenhar um papel paradoxal. Segundo Fonseca:

Por um lado, ela deforma para melhor fustigar. Mas por outro lado, ela se encoberta com as vestes do moralismo, do puritanismo e até mesmo do conformismo. A exploração que faz do descontentamento e da inconformidade não se exime das ambivalências e contradições peculiares às situações políticas, caindo com freqüência no conservadorismo e na discriminação. (...) O mesmo aconteceu no Brasil, em 1907, quando os caricaturistas ridicularizaram a campanha de Osvaldo Cruz para erradicar a febre amarela no Rio de Janeiro e em outros pontos do país. (1999,  p.19).

 
O exemplo da citação acima deixa bem claro que mesmo numa campanha de saúde, de utilidade pública, promovida por este brilhante médico brasileiro, os autores desta dito cuja caricatura foram capazes até mesmo de hostilizar, deixando enfatizado a ambigüidade que este tipo de desenho às vezes exerce. Entretanto, no livro não há um exemplar desta sátira.  

Ao comentarmos sobre as caricaturas é importante destacar que foram as concepções estéticas e humanísticas do Renascimento que permitiram o nascimento da caricatura, e para compreendermos melhor sua essência é necessário que confrontemos com o que era vigente nos tempos medievais, onde a figura humana era associada a uma ordem universal. Beleza e feiúra eram representativas de virtudes e vícios que, em graus de valores, ligavam de alto a baixo dois infinitos: o Céu e o Inferno, tendo o divino como centro de tudo. Na Renascença, o caminho foi outro: o homem passou a ser medida de todas as coisas (antropocentrismo). Sagrado e profano, retrato, paisagem, natureza morta eram sínteses do campo de representação que o homem, antes objeto flutuante nas constelações divinas do universo das formas, passou a tornar-se o próprio objeto.


 As manifestações da caricatura 

Muitos se perguntam qual a diferença entre a caricatura e a charge. Fonseca (1999, p.26) procura classificar como formas de sua manifestação a charge, o cartum, o desenho de humor, a tira cômica, a história em quadrinhos de humor e a caricatura propriamente dita, isto é, a caricatura pessoal. Partindo para os desenhos caricaturais de Chachá, eles aproximam-se da charge, do desenho de humor e da caricatura pessoal que estão distintas por Fonseca (1999) nas seguintes acepções:

 

1.      CHARGE – palavra de origem francesa e vem de charger, carregar, exagerar e até mesmo atacar violentamente. Significa aqui uma representação pictórica de caráter burlesco e caricatural. É um cartum (do Inglês cartoon) em que satiriza um fato específico, tal como uma idéia, um acontecimento, situação ou pessoa, em geral de caráter político, que seja do conhecimento do povo (FONSECA, idem, p. 26).

2.      DESENHO DE HUMOR – é a designação que se atribuiu a um cartum que não tem como finalidade principal provocar o riso, mas representar, com os elementos da caricatura, um momento do ser humano que seja visto pelo prisma do humor (p. 27).

3.      CARICATURA PESSOAL - utiliza a deformação física como metáfora de uma idéia, limita-se ao exagero das características físicas de uma pessoa. Necessariamente não tem conteúdo satírico ou de comentário social, podendo manifestar-se tão somente como expressão artística ou de divertimento (p. 28).

 

As primeiras caricaturas de Chachá foram publicadas no Semanário de Notícias, hoje Jornal de Laguna, no início da década 70, onde Chachá era colunista e redator-chefe. Já suas primeiras charges surgiram no jornal O Palanque, no fim da década de 80.

Seus desenhos são direcionados a algum fato, ou personalidade, principalmente do meio político, como é de praxe. Quase sempre vêm acompanhados de duas minhocas dialogando, que o próprio artista as incluem com o intuito de facilitar o entendimento. 

Chachá nem sempre criava uma caricatura (ou charge) para ser publicada em um tablóide. O artista muitas vezes desenhava para fixar na parede de algum bar, ou dedicava a algum amigo seu.

O material usado por Chachá na criação de suas charges é a caneta esferográfica, preferencialmente de cor preta, já que na maioria dos casos, foram publicados nos jornais em preto e branco.


FIGURA 21: charge de Chachá que seria publicada em uma das edições do jornal O Tambor.

A Caricatura acima é do prefeito Adílcio Cadorin, gestão 2000 – 2004. Na oportunidade, estava sendo exibida na Rede Globo a minissérie A Casa das Sete Mulheres, que retrata a época da Revolução Farroupilha (1835 – 1845). Chachá, então resolveu entrar “na onda global” para satirizar a criação da CODELSA – Cooperativa de Desenvolvimento da Laguna S.A., criada pelo então prefeito Adílcio Cadorin. Em diversas edições do jornal O Tambor, Chachá criticou essa cooperativa alegando ser a “empresa do sonho de Zeus (Zeus é um dos apelidos colocados pelo também cronista, Munir Soares, para se referir a Adílcio Cadorin. O Olimpo é uma analogia ao gabinete do prefeito, situado no terraço do Shopping Tordesilhas.)


Observamos em sua obra que Chachá, ao dialogar com a “grande média”, satiriza a preocupação do referido prefeito com o desenvolvimento da cultura lagunense.Desviando o “bloco político”, passaremos a observar uma outra charge de Chachá ao jornalista João Carlos Wilke, do jornal O Pharol.


FIGURA 22: A dançarina Gisele Pavanati e o Jornalista João Carlos Wilke.



A jovem que interpreta a personagem “feiticeira” (à esquerda), é Gisele Pavanati, que na ocasião, se exibia em uma apresentação na praça de alimentação do Shopping Tordesilhas durante um evento de samba.

Wilke, em sua coluna O q viu o repórter, do semanário O Pharol, sempre destacava Gisele como sua musa. E Chachá, por sua vez, não deixou escapar. Inclusive mencionando na fala do jornalista a seguinte frase: “(...) o Armando vai à loucura”. Armando, como é conhecido o Sr. Mohamed Mashini, descendente de palestinos que se estabeleceram em Laguna, é proprietário do Shopping Tordesilhas, juntamente com o médico imbitubense, Manoel José Fernandes.   E como já são figuras habituais nas charges de Chachá, as minhocas ajudam a dar um tom ainda mais satírico ao ocorrido. Uma delas diz que “Essa Pavanati vai Longe”, enquanto a outra complementa “E o dançarino também”. Chachá desenhou seu colega de jornal trajando uma roupa de bailarino devido ao evento promovido por Wilke: o Festival de Dança de Laguna, evento anual realizado geralmente entre os meses de maio e agosto.




FIGURA 23: Charge de Jorge Tadeu Zanini e “Moela”


Esta Charge é uma sátira ao ex-prefeito de Laguna, o médico Jorge Tadeu Zanini. O “baixinho” citado neste desenho é uma referência ao Sr. Antônio Heleodoro de Pádua, conhecido como “Moela”, funcionário efetivo da Prefeitura Municipal de Laguna. Sucedeu-se que “Moela” fez duras críticas ao governo Zanini (1993-1994). E Chachá usou o termo “crucificar” como metáfora aos maldizeres do “baixinho”. Chachá trajou o Dr. Jorge com vestes da época de cristo, inclusive o enfeitou com uma coroa de espinhos. Chachá ainda põe um dizer: “Aconteceu na casa que nunca foi do povo” que faz referência à câmara dos vereadores, conforme o próprio artista diz: “É a casa da vergonha”.

Uma outra observação vista nesta charge é a ausência das minhocas. Com isso, podemos ressaltar que nem sempre estes personagens estão presentes.       

            Abaixo, um exemplo de uma caricatura pessoal. Trata-se de um desenho bem humorado que Chachá dedicou ao seu amigo, o jornalista Edgar Nunes, parabenizando-o pelos quarenta anos de profissão jornalística, no qual o artista se refere como “prisão domiciliar”, devido ao apego que o Sr. Edgar tem pelo que exerce.


FIGURA 24: Caricatura do jornalista tubaronense, Edgar Nunes. Original publicada na contra-capa do livro Tubarão Histórias e Lorotas. Aqui, Chachá retrata seu amigo veraneando no balneário Mar Grosso, em Laguna.


(Continua na próxima página)