O ARTISTA E O SEU LUGAR: UM OLHAR SOBRE A ARTE DE CHACHÁ
Monagrafia de Fabiano Espíndola Siqueira (continuação da página anterior)
A PINTURA DE CHACHÁ
FIGURA 25: acrílico sobre papel-cartão.
Um mês antes do natal de 1970, desempregado, numa situação precária, Chachá resolveu levar aos cartões as primeiras pinturas. Mal conhecendo as tintas, utilizou-se do guache. Vendeu estas à classe médica da cidade de Tubarão, conseguindo assim, um natal mais tranqüilo financeiramente.
Algumas de suas primeiras obras encontram-se expostas no Restaurante Caiçara (feitas em 1972), no Balneário do Mar Grosso e na agência do INSS, de 1975(segundo Chachá, a maior de seu acervo já doado), ambos locais situados em Laguna. Além de uma outra adquirida pela Caixa Econômica Federal, exposta em uma das agências de Florianópolis.
FIGURA 26: Acrílico sobre “eucatex”. Doado à agência do INSS (e não mais exposta)
Depois, utilizando a tinta acrílica, passou para a chapa de compensado (o “eucatex”) e depois para a tela. Atualmente, a técnica por ele usada ainda é o acrílico sobre tela ou cartão, com pincéis que variam do zero ao seis, optando pela “Pintura Ingênua” ou ArteNaïf.
A Arte Naif ou Arte Ingênua
Como o foco deste estudo volta-se para a arte Naïf, produzida por Chachá, torna-se importante, inicialmente, apresentar algumas peculiaridades sobre este estilo autodidata.
A Arte Naïf é um tipo de arte equivocadamente conceituada como arte primitiva, arte das crianças, arte dos doentes mentais, arte dos pintores de domingo, arte popular ou folclórica (Enciclopédia Eletrônica Barsa).
A expressão Naïf surgiu entre os filósofos franceses do século XVIII, como Montesquieu (1689-1755), Jean-Jaques Rousseau (1712-1778) e Diderot (1713-1784). Este último pensador,
“Nem tudo que é verdadeiro é naïf, mas tudo que é naïf é verdadeiro, de uma ingenuidade tocante, original e clara”.
(DIDEROT apud FINKELSTEIN, p. 28)
Lucien Finkelstein, francês radicado no Brasil, é um dos maiores estudiosos da arte naïf do mundo. É acadêmico titular da Academia Brasileira de Belas-Artes e presidente-fundador do MIAN – Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil.
FIGURA 27: Fachada do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil (MIAN), Rio de Janeiro.
FIGURA 28: O Casamento, de Henri Rousseau. Uma das obras deste francês precursor da Arte Naïf
Segundo Finkelstein foi por volta de 1890 que se inventou o termo “naïf” para designar a pintura de Henri Rousseau, que foi o primeiro naïf moderno a ter suas obras expostas, e o apelido “naïf” tinha relação tanto com sua pintura como a própria natureza do personagem. Essa denominação que pretendia ser pejorativa tinha uma influência das mais belas e já havia conquistado suas cartas de nobreza
A semelhança entre as artes primitivas e os naïfs é devida à simplicidade à pureza e à ingenuidade dos artistas que as praticam. Já a arte naïf é essencialmente uma arte individual, independente e sem nenhum engajamento;
· A arte popular, assim como a folclórica, é uma arte coletiva, padronizada e, geralmente, anônima. Ao contrário, o naïf é um criador nato, tudo vem dele mesmo.
· A arte das crianças é efêmera, pinta seguindo a fantasia do momento. A criança não se apropria de sua arte. O naïf não tem idade para aparecer, e quando faz é para ficar.
· A arte dos doentes mentais, ao contrário da arte naïf, é indefinível, delirante, sem conseqüência. Os naïfs, agradáveis de ver, repousantes e poéticos. O pintor naïf vive em boas relações com seu ambiente e em um equilíbrio adequado consigo mesmo.
Dentro dos conceitos citados acima, pode-se dizer que o artista naïf é um autodidata nato. Sua obra é de um caráter poético, suave. Não possui alguma formação sistemática, faz o que pode e como pode, com os meios que conquistou solitariamente, fazendo assim, valer sua força. Para os estudiosos: “Os pintores naïfs pintam molhando o pincel em seus corações”.
Finkelstein ainda denomina que não existe pintura naïf, mas pintores naïfs, pois cada um deles é um mundo em si e absolutamente diferente de todos os outros.
“(...) querer explicar a arte naïf é um paradoxo: não se pode definir o indefinível”. (FINKELSTEIN, Lucien; p. 28)
Segundo Chachá, suas telas são criadas pela manhã, sua hora de maior inspiração. O artista, particularmente, prefere denominar sua arte como ingênua a naïf. Ele comenta: “Na expressão ‘ingênua’, essa arte se expressa de forma mais clara, mais doce, todos nossos sentimentos”.
FIGURA 29: Acrílico sobre papel-cartão.
Chachá realizou diversas exposições pelo mundo, sendo que a mais importante, em sua opinião, foi em Varsóvia (Polônia) em 1987, fato pelo qual Chachá passou a ser o primeiro artista ingênuo b (ou Naïf) brasileiroa expor seus quadros em um país sob regime comunista.
No final da década de 80, Chachá recebe o convite da curadora Maria do Carmo Teixeira de Oliveira para participar do acervo do MIAN. O artista ainda cita outro museu de arte naïf na cidade de Assis – SP, onde, segundo ele, há uma obra de sua autoria exposta.
E em 1999, obra de Chachá passa a fazer parte do Museu de Arte de Santa Catarina. E, no ano seguinte, tem suas obras no acervo da Biblioteca Superior de Cultura - Fundação Simpósio, na capital catarinense.
Sua mais recente amostra aconteceu entre 11 e 23 de maio do ano de 2003 na Organização Mundial de Propriedade Intelectual, em Genebra, com o tema La Paix en Couleurs (A paz em Cores). Atualmente, a responsável pelas exibições das obras de Chachá é sua filha, Jacqueline Bulos Aisenman, hoje residindo em Genebra – Suíça. Já está sendo viabilizada uma nova amostra, prevista para setembro de 2005. (REALIZOU-SE NA OMC NA MESMA SALA EM QUE ELE REALIZOU SUA PRIMEIRA EXPOSIÇÃOGENEBR INA, EM 1991).
FIGURA 30: Cartaz de sua mais recente exposição, realizada na Organização Mundial de Propriedade Intelectual, em Genebra – Suíça – Com o tema “A paz em Cores”.