O ARTISTA E O SEU LUGAR: UM OLHAR SOBRE A ARTE DE CHACHÁ
Monagrafia de Fabiano Espíndola Siqueira (continuação da página anterior)
Segundo Chachá, oitenta por cento das casas em Laguna tem pelo menos uma tela sua. Mesmo os nativos lagunenses residentes em outros municípios possuem uma obra de Chachá, talvez por se sentirem mais próximos da “terrinha”, ou como recordação da cidade de Laguna. Este artista não consegue lembrar qual atriz global adquiriu um quadro seu, mas ele cita que entre figuras famosas como o já falecido banqueiro suíço Edmound Safra, do Banco Safra e Ricardo Terra Teixeira, atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol, adquiriram telas de Chachá. Sendo que o “cartola" (Em jargão esportivo, ‘cartola’ designa algum dirigente de clube, ou entidade relacionada ao esporte. ) foi presenteado pelo irmão de Chachá, o Sr. Jacques Calil Bulos.
A maioria dos compradores é composta por norte-americanos e argentinos, chegando a pagar um ótimo preço pelas pinturas. Em se tratando do valor estipulado por suas obras, o próprio Chachá brinca: “Em tempos de ‘vaca magra’, eu barateio o preço”.
Outras pinturas de Richard podem ser encontradas, também, no salão nobre da Escola de Aprendizes Marinheiros, na Casa do Jornalista e na Associação Polonesa de Santa Catarina; todas estas três instituições situadas na capital catarinense. Além de uma outra obra adquirida para o Hospital Nossa Senhora de Lourdes, em Nova Iorque – E.U.A., através do diretor Joseph D. Abracci.
As Personagens das pinturas de Chachá
As paisagens de suas telas apresentam como tema os pescadores, lavadeiras e casebres. Essas procuram retratar o lado humilde da cidade de Laguna. A inspiração nasceu da convivência com o sogro, Pedro Mendonça Soares, que para auxiliar no sustento da família, tinha à disposição uma pequena embarcação. Chachá imagina o sogro indo à pesca, tendo como visão paisagens de Laguna como o extinto “Lagamar” (hoje Vila Vitória), foz do Rio Tubarão (ou “boca”, como é popularmente conhecida pelos pescadores), a localidade de Ponta das Pedras, Farol de Santa Marta e outras partes da Lagoa Santo Antônio dos Anjos.
Suas personagens são negras, uma homenagem aos antepassados açorianos do município. Percebemos também que aparecem sucitados nestas caracterizações o protesto ao racismo. Como o próprio Chachá as designam, estão quase sempre de costas ou com expressões de tristeza, devido ao pouco de cidadania e atenção que o país lhes dedica. Seus traços são singulares e promovedores de interpretações.
(Observação da filha Jacqueline: Conversamos várias vezes sobre o assunto em família. E a grande verdade é que ele pintava o que gostava e como gostava. O fato dos personagens serem pretinhos nada tinha a ver com racismo ou origens. Ele apenas fazia assim, saía assim e ele gostava. Uma vez tentou fazer um branquinho (tenho comigo o quadro) e não gostou. Outra coisa que ele detestava: gente que "encomendava" o jeito que ele deveria pintar, com as cores ou motivos que desejavam. Para ele, artista não tinha que se submeter a desejos alheios mas infelizmente, nas várias situações pelas quais passou na vida, apenas abaixava a cabeça e fazia o que tinha sido pedido.)
Segundo Chevalier e Gheerbrant, o preto pode tornar-se a soma ou a ausência de cor. É o extremo limite das chamadas Cores Quentes e Cores Frias. Ou ainda, cor oposta a todas as cores que ainda pode ser associada às trevas primordiais, ao indiferenciamento original. A cor preta indica uma ausência a ser preenchida (p. 140).
Verificamos ainda que pescar, no sentido psicanalítico, é também proceder a uma espécie de extrair dos elementos do inconsciente, não através de uma exploração dirigida e racional, mas deixando jogar as forças espontâneas e colhendo seus resultados. O inconsciente é aqui comparado à extensão da água, rio, lago, mar, onde estão encerradas as riquezas que a anamnese e a análise trarão à superfície como o pescador de peixes e sua rede (p.714).
A lavadeira,
(...) Livre de todo atributo ou qualificação social, ela é a polivalência, mas isto, de resto, não deixa tampouco de estar relacionado com o simbolismo geral da mulher, em seu aspecto mais elementar (p.537).
Chachá nunca utilizou esboços, sendo que o fundo de suas telas são realizados com os dedos. Uma característica que geralmente é percebida nas pinturas do artista é a utilização da mesma cor tanto para reproduzir o céu, quanto para retratar o mar. O mesmo ocorre numa fotografia quando tirada no momento em que o sol se põe na Lagoa Santo Antônio dos Anjos. O reflexo solar resplandece na água, fazendo com que o mar tenha a mesma coloração do céu. A partir dessa percepção, pode-se reforçar juntamente com a idéia de Fernando Pessoa (1888 – 1935) nos dois últimos versos do poema Mar Portuguêz:
“Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu"
Figura 31: Pôr do Sol na Lagoa Santo Antônio dos Anjos.
Diante da imagem sugerida nestes versos do poema, passamos agora a observar a preocupação estética de Chachá em criar suas telas, na qual podemos perceber que céu e mar possuem a mesma tonalidade, ou seja, a luz do sol, o azul celeste, ou ainda o brilho prateado da lua são refletidos na água, conforme mostra a figura 32. A luz solar se irradia na água em um horário entre dezoito e dezenove horas.
Vejamos abaixo alguns exemplos dessa visão em sua obra.
FIGURA 32: Acrílico sobre tela, impressa na edição nº 145 do semanário O Pharol.
De acordo com Chevalier e Gheerbrant (p. 230), diz que o céu é o símbolo da consciência. E ainda:
Emprega-se a palavra, com freqüência, para significar o absoluto das aspirações do homem, como a plenitude de sua busca como o lugar possível de uma perfeição do seu espírito, como se o céu fosse espírito do mundo... Compreende-se que o raio – rasgadura brilhante do céu – seja do espírito que é a tomada da consciência (VIRI, 108).
O azul, matiz mais evidente nesta pintura, é, segundo o Dicionário de Símbolos, a mais profunda das cores:
“Nele, o olhar mergulha sem encontrar qualquer obstáculo, perdendo-se até o infinito, como uma perpétua fuga da cor” (p. 107).
Para Chevalier e Gheerbrant, o azul é a mais imaterial das cores: a natureza o apresenta geralmente feito apenas de transparência (...). E complementam: “O azul é a mais fria de todas as cores e, em seu valor absoluto, a mais pura, à exceção do vazio total do branco neutro” (p.107).
O azul e o branco, cores marianas, exprimem o desapego aos valores deste mundo e o arremesso da alma libertada em direção a Deus (p.108-109).
E sobre cor, Pedrosa (2003, p.19) ressalta que a cor não tem existência material. Ela é, tão-somente, uma sensação provocada pela ação da luz sobre o órgão da visão. Em poucas palavras, a luz é o estímulo, e a sensação é a que chamamos de cor.
O mar, em sua simbologia, é designado como o símbolo da dinâmica da vida. Tudo sai do mar e tudo retorna a ele: lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos. Águas em movimento, o mar simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informes as realidades configuradas, uma situação de ambivalência, que é a de incerteza, de dúvida, de indecisão, e que pode se concluir bem ou mal. “Vem daí que o mar é ao mesmo tempo a imagem da vida e a imagem da morte” (CHEVALIER – GHEERBRANT, p.594).
Abaixo, na figura 33, observamos a tonalidade púrpura como predominante.
Cristina Jacó destaca que os roxos e lilases são as mais emotivas das cores, simbolizando dor, sofrimento, amor sem limites, paixão avassaladora, recato, repressão, temor, maldade, também sugerindo elegância, sensualidade, espiritualidade, religiosidade e criatividade. O roxo é uma cor muito voltada aos jovens e ainda é classificada como cor secundária através da junção do vermelho com o azul.