A tela onde Richard pintou aquela procissão eu não conhecia. Vi no blog da filha dele, a poeta Jacqueline Bulos Aisenman. Lembrei-me daquela letra “olha lá vai passando a procissão, se arrastando que nem cobra pelo chão...” (Gilberto Gil)
Esse cara, o Richard Calil Bulos, atraiu minha atenção. Primeiro pela própria figura. E o olhar. Depois vieram as letras, o malho nos jornais que ele criava, os traços, as charges. Depois as cores, e por fim toda uma obra que Richard deixou em arte plástica.
Uns dias antes da revoada dele para o reencontro com o Grande Pássaro Pai-Mãe, toquei sua mão e ele me disse doçuras, como um poeta. Meu Deus que valente ele se mostrou a mim.Claro, puro charme de um bom franco-libanês.
Que impressão boa ele me deixou na sua arte onde traduz a via-crucis de uma classe. A classe das gentes ribeirinhas, das gentes ao redor das lagoas, dos homens que se lançam ao Atlântico, que ele retratou febrilmente até os últimos dias.
Mas foi além. O Richard compôs um documentário. A cabeça dele alçava vôos e escrevia, mas isto não explicava, então... os pincéis. A leitura que fazia da realidade passava para a tela.
Forjando o sujeito que se via, que se enxergava no outro sujeito. Na bigorna o tempo todo. Chachá.
Compreendo cara, você lia o mundo em grego, em javanês, aramaico? Mas traduzia em tempo real para a sua gente. E nós, a sua gente, ficávamos a olhar, a nos espelhar, e muitas vezes olhando sem ver. E mesmo vendo, sem crer...
Chachá gosto daquela frase do Sartre "o inferno são os outros".
Não tive tempo de dizer pra você o quanto eu gosto tanto, desta frase. Mas nos olhamos longamente. Querido. E a Tetê sabia da nossa pureza, amigo. A Tetê sabia que depois dela e os filhos, só as telas eram sua paixão. Sabe guerreiro, enquanto foram sepultar seu corpo fiquei em casa ouvindo Piaf cantar La Marseillaise.Combinava mais com o contexto daquela manhã.
Piaf é divina. A marselhesa já era, mas eu não queria o momento. Queria ouvir a marselhesa, então fiquei em casa. Você me chamou de eufórica lembra? Então, me comportei como tal. E fiquei arriada... marchemos, marchemos dizia Piaf.
Mas esta cartinha hoje vai incompleta, pois tenho mais a dizer-lhe. Preciso dizer da galera que você retratou.
Fátima
P.S: Ah! O quibe de forno que lhe prometi, encomendei. Rosana Kafouri fez. Eu comi, certo?
Vou anexar uma foto inédita que cliquei lá nos molhes. Olha só Richard, é para você!