DESPEDIDAS NO ANO DE 2007

 

Carta para Richard Calil Bulos


Maria de Fátima Barreto Michels


A tela onde Richard pintou aquela procissão eu não conhecia.
Vi no blog da filha dele, a poeta Jacqueline Bulos Aisenman.
Lembrei-me daquela letra “olha lá vai passando a procissão, se arrastando que nem cobra pelo chão...” (Gilberto Gil)

Esse cara, o Richard Calil Bulos, atraiu minha atenção. Primeiro pela própria figura. E o olhar. Depois vieram as letras, o malho nos jornais que ele criava, os traços, as charges. Depois as cores, e por fim toda uma obra que Richard deixou em arte plástica.

Uns dias antes da revoada dele para o reencontro com o Grande Pássaro Pai-Mãe, toquei sua mão e ele me disse doçuras, como um poeta. Meu Deus que valente ele se mostrou a mim.Claro, puro charme de um bom franco-libanês.

Que impressão boa ele me deixou na sua arte onde traduz a via-crucis de uma classe. A classe das gentes ribeirinhas, das gentes ao redor das lagoas, dos homens que se lançam ao Atlântico, que ele retratou febrilmente até os últimos dias.

Mas foi além. O Richard compôs um documentário. A cabeça dele alçava vôos e escrevia, mas isto não explicava, então... os pincéis. A leitura que fazia da realidade passava para a tela.

Forjando o sujeito que se via, que se enxergava no outro sujeito. Na bigorna o tempo todo. Chachá.

Compreendo cara, você lia o mundo em grego, em javanês, aramaico? Mas traduzia em tempo real para a sua gente. E nós, a sua gente, ficávamos a olhar, a nos espelhar, e muitas vezes olhando sem ver. E mesmo vendo, sem crer...

Chachá gosto daquela frase do Sartre "o inferno são os outros".

Não tive tempo de dizer pra você o quanto eu gosto tanto, desta frase. Mas nos olhamos longamente. Querido. E a Tetê sabia da nossa pureza, amigo. A Tetê sabia que depois dela e os filhos, só as telas eram sua paixão. Sabe guerreiro, enquanto foram sepultar seu corpo fiquei em casa ouvindo Piaf cantar La Marseillaise.Combinava mais com o contexto daquela manhã.

Piaf é divina. A marselhesa já era, mas eu não queria o momento. Queria ouvir a marselhesa, então fiquei em casa. Você me chamou de eufórica lembra? Então, me comportei como tal. E fiquei arriada... marchemos, marchemos dizia Piaf.

Mas esta cartinha hoje vai incompleta, pois tenho mais a dizer-lhe.
Preciso dizer da galera que você retratou.

Fátima

P.S: Ah! O quibe de forno que lhe prometi, encomendei.
Rosana Kafouri fez. Eu comi, certo?


Vou anexar uma foto inédita que cliquei lá nos molhes.
Olha só Richard, é para você!