Domingo à tarde, no horário de visitas, fui até o quarto onde Xaxá estava internado, no Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos. Antes conversei por minutos no corredor com seu genro Paulo Aisenman e com a filha Jacque Bulos.
Depois, adentrei ao quarto onde já se encontravam algumas pessoas lhe visitando.
Xaxá estava ao oxigênio e quase não se ouvia mais sua voz.
Quando me avistou, acompanhou-me com os olhos e com o olhar pediu-me que me abaixasse um pouco. Segurei sua mão e ele a minha. Indagou pela saúde de minha mãe.
Sempre aos sussurros, disse que seu fim estava próximo e nada mais havia a fazer. Ele sabia o que estava dizendo.
Há poucos meses Xaxá havia perdido a esposa, Terezinha Soares, fato que o abalou profundamente, ele que já se encontrava enfermo há muitos anos.
Xaxá foi meu guru na escrita, já afirmei isso nessas páginas.
Ele sabia fazer uma manchete chamativa, um texto primoroso, enxuto, que prendia o leitor. E sabia fugir das armadilhas das palavras.
Criticava, ferino, atos e fatos administrativos e políticos, mas o fazia de tal modo que muitas vezes o criticado ainda vinha lhe agradecer. Presenciei muitas dessas cenas. E ríamos muito com isso.
Em meados da década de 70, comecei escrevendo alguns textos no hoje extinto Semanário de Notícias. Ali na redação do jornal situada na esquina da então Praça da Bandeira (hoje República Juliana) com Barão do Rio Branco, Xaxá me deu as primeiras dicas sobre jornalismo e foi o começo de uma longa amizade que se perpetuou durante anos, passando depois pelo Jornal O Renovador, O Palanque, Voz da Laguna e outros. Foi um dos colaboradores do meu jornal Tribuna Lagunense, com suas charges, dicas e escritos curtos.
Xaxá tinha uma opinião formada sobre os enterros de familiares, amigos e conhecidos: não ia a nenhum deles, preferia guardar na memória a imagem da pessoa quando viva. Lembro nesses anos todos de convívio de somente uma vez tê-lo visto num sepultamento. Foi o do seu filho Karin, no cemitério do Morro da Glória. Por falta de condições físicas, nem ao de sua esposa ele foi.
Pediu-me que o levasse até lá e minutos após, ao som do barulho terrível, angustiante e asfixiante que faz a colher de pedreiro espalhando o cimento e lacrando a caixa, Xaxá foi embora comigo, em meu carro, mais o Flávio Bergler Nunes, nós três em completo silêncio.
Ao chegar a sua casa, na Vila Cohab, Xaxá me disse - e foram suas únicas palavras sobre a triste perda:
-Valmir, é terrível enterrar um filho, que ninguém passe por isso.
Pois tomo uma decisão: não irei amanhã às 10 horas ao sepultamento do Xaxá. Essa noite vou bebericar uma cerveja em sua homenagem, num copo baixo como ele gostava, ouvir umas gardênias e Edith Piaf cantando “la vie em rose”, que ele adorava, e orar pela paz de seu espírito.
Adeus meu amigo Richard Calil Bulos, Xaxá, que descanses em sua nova morada.
Artigo anterior de Valmir Guedes Jr, grande amigo do Chachá, escrito dez anos antes, abaixo: