Quando os liláses e os róseos pintam ipês, e bordam o capim-gordura das encotas do caminho, é o desamor que vem chegando.
Os cheiros da canela, do cardamomo, do aniz-estrelado que vêm do fogão de lenha entranham as vísceras, fazem doer o coração. Assim, de manso, tiram o sorriso dos lábios, mandam os olhos chorar.
Não vou fazer mais bordados, nem sianinhas, nem bicos de crochê, nem colcha de retalhos.
Nem lerei os peixes da Adélia que por muitas vezes povoaram meus sonhos de um casamento feliz.
Nem os cotovelos se escontarão ou se baterão, assim... de leve.
No meio de caminho, as flores róseas e liláses se intensificam. Aqui, ali, na mata ao longe,
às vezes indecisos, sozinhos, Eretos, fugidios, sem firmeza.
Sofrimento de amor é bonito de se ter!
Há quem diga que o olhar perde o viço. Mas buscam longe - lugar da solidão. Vê com as tintas do infinito onde os olhos buscam o perdão.
Sofrimento de amor é colcha de retalhos em cada parte, um verde, em cada som, um riso, em cada quadro o alguém para se lembrar.
(poema escrito em 03/06/2003)
OUTONO 2
Os primeiros pontos da estação Vêm tristemente com o vento que bate janela a dentro Céu cinzento Cor de alma que foi sem querer Cor de amor mal curado Cor de vida sem viver...
Bastam as cores das saudades que vêm E vêm soltas na amplidão do caminho sem volta Sem vida, seco de tanto não ser...
Minha alma está encerrada em si... Num canto Doloris Matter Chirstus E cerram as cortinas de cor púrpura Lacrando toda vida que sucumbe ao desamor
Desamor de alguém Desamor
DEUS É TRISTE!
Subindo a estrada de Passos que me traz para casa. Seis horas da tarde é uma hora singular.
Simplesmente porque os olhos de Deus, com a cabeça baixa, nos observa, guarda sua ferramentas do dia... leva o rebanho para os currais.
O sol deixa-se filtrar nas nuvens com brilho de cristal azul. Seriam as horas dos anjos? Penso que não. Eles nos encontram muito tristes no final de mais um dia. O ônibus desce lento pelas curvas de Minas.
As suas montanhas azuis. O verde ameno das forragens nos morros bem próximo à estrada... gramíneas, flores do mato. Percebi que Deus é triste. As sombras do dia deitam-se em paz sobre a paisagem, descansam os olhos. As casas perdidas no meio do sem fim. A fumaça encolhida das chaminés rabiscam o ar limpo. Um boi perdido balança o rabo com prepotência - como se dissesse "eu estou aqui porque quero! Ninguém me leva de volta à casa." Eu olho mais uma vez o espaço que quase toca o céu de tão alto. Meus olhos estão parados, firmes, imóveis pela beleza. Mas Deus é triste. Sinto como se tivesse em despedida. Talvez nem perdesse grandes coisas. Deixaram Deus tão triste... A paisagem muda com a marcha do ônibus. Vai escurecendo aos poucos. Aos poucos vou deixando a tristeza de Deus no caminho e vejo que já é noite. Um pouco da alegria que tenho volta porque o escuro faz a paisagem desaparecer. Foi salvação. Os anjos brincaram de tapar meus olhos...
de tudo que me cerca.
AS MANGAS
Por muitos anos, Nas férias de dezembro, Quando as nuvens pesadas encobriam as cidades e todos nossos sonhos De sair pelas estradas e pelos campos, Tu vinhas como um cavaleiro errante Sentavas diante da janela antiga da casa da minha avó.
Eu era Rapunzel. Ficava na janela e com um muxoxo Dizia: - Menino bobo!
Fechava uma das folhas da janela e escondia meus olhares atrás da outra. Pela janela eu via a mangueira da casa do vizinho. Eram rosadas entre os amarelados do quase doce. Depois olhava seus olhos negros brilhando na esperança de me ver.
Minha tia disse-me que meu Marco Aurélio apaixonara-se por mim vendo uma fotografia em branco e preto. Tinha meu olhar meio vesgo olhando os de minha irmã. Hilário. Na outra eu estava melhor. Meus cabelos lisos, a pele muito morena do olhar sorridente de sempre.
Às vezes nos ousávamos. Eu descia a escada rústica, abria o portão antigo de ferro. Sentava no degrau e ele se aproximava desinibido. Os seus olhos, o sorriso muito branco na pele morena azeitonada de outras terras. Seus gestos despachados contavam as travessuras de roubar manga, goiabas, caçar rolinha, pomba do ar pra comer.
Em encontros ainda mais ousados, Viajávamos pelas colônias da cidade na companhia do padre, Que um dia virou meu tio. Muitas vezes rompemos a poeira das estradas de terra na rural vermelha e branca do Dr. José. Outros meninos nos acompanhavam, Os irmãos, os colegas. Nos cercavam, Eu e minhas irmãs. Diziam que éramos sulistas, De sotaque arrastado...
Por várias férias O namoro assediava. Eu me recordo das mangas verdes roubadas, Daquelas outras que eu namorava da janela no quintal do vizinho. E ele abaixo sentado com os irmãos e os amigos. As mangas verdes que apertavam a boca de leve Suavemente surtiam na saliva sabores inexplicáveis. Sabores que escondiam o desejo de uma quase adolescente Que descobria o amor e o desejo Que muitos outros tocaram. Não meu cavaleiro errante, Meu Marco Aurélio.
As histórias memoráveis dos amores impossíveis Recordam-se na proibição dos anos que se foram. A Cleópatra, as jóias falsas do porta-jóias com tampa de tamareira e o viajante no camelo, O rímel que minha tia delineava meus olhares, E o espelho torneado da penteadeira. E você sempre lá, Sentado, os irmãos, os amigos E o sabor proibido das mangas verdes roubadas.
Lorêny: emoção pura à flor da pele
OUTRO LUGAR
Cê sabe que as canções são todas feitas pra você E vivo porque acredito nesse nosso doido amor Não vê que tá errado, tá errado me querer quando convém E se eu não estou enganado acho que você me ama também
O dia amanheceu chovendo e a saudade me contém O céu já tá estrelado e tá cansado de zelar pelo meu bem Vem logo que esse trem já tá na hora, tá na hora de partir E eu já tô molhado, tô molhado de esperar você aqui
Amor eu gosto tanto, eu amo, amo tanto o seu olhar Andei por esse mundo louco, doido, solto com sede de amar Igual a um beija-flor, que beija-flor, De flor em flor eu quis beijar Por isso não demora que a história passa e pode me levar E eu não quero ir, não posso ir pra lado algum Enquanto não voltar Não quero que isso aqui dentro de mim Vá embora e tome outro lugar Talvez a vida mude e nossa estrada pode se cruzar Amor, meu grande amor, estou sentindo Que esta chegando a hora de dormir
LORÊNY, perguntada sobre quem é responde: Em formação... (mas nem tão dolores assim...rs!) DOLORES Hoje me deu tristeza, sofri três tipos de medo acrescido do fato irreversível: não sou mais jovem. Discuti política, feminismo, a pertinência da reforma penal, mas ao fim dos assuntos tirava do bolso meu caquinho de espelho e enchia os olhos de lágrimas: não sou mais jovem. As ciências não me deram socorro, não tenho por definitivo consolo o respeito dos moços. Fui no Livro Sagrado buscar perdão pra minha carne soberba e lá estava escrito: "Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada, se tornou capaz de ter uma descendência..." Se alguém me fixasse, insisti ainda, num quadro, numa poesia... e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos... Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques, das que jamais verão seu nome impresso e no entanto sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas não recusam casamento, antes acham sexo agradável, condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo e varrer a casa de manhã. Uma tal esperança imploro a Deus.