Para quem já conheceu algumas das pinturas de Jaqueline Campos, aqui se abre uma outra porta: Jaqueline Poeta. Toda a poesia de um coração inteligente e de uma mente sensível. Ela capta tudo... Preparados?
(Pintura de Jaqueline Campos)
CARTAS DE AMOR
Você me disse uma vez Que após alguns anos Eu não me lembraria do seu nome. Mas ao reconhecê-la na rua Descobrí que você entrou em mim. Outro dia, num repente Juntei todas as nossas cartas de amor (Eu não tive coragem de reler) Mas levei todas, cuidadosamente E acendi uma fogueira por nós...
CORPO TRÊMULO
Noite alta Meu corpo trêmulo Nas tuas mãos Ninguém ouve meu gemido Abafado, múltiplo, multicor Com os primeiros acordes O pássaro da manhã Nas tuas mãos Ninguém sabe dos nossos vôos Torturantes, tormentos, torturados Nos suspiros da tarde Eu te suplico que me tenha Nas tuas mãos Ninguém sabe de nós Fugitivas, furtivas, fugidias E mais uma vez ainda é dia Nas horas que se duplicam e se completam Nas tuas mãos Ninguém imagina a entrega Segundos, minutos, horas Sem mais ter fim
PÁLIDA PORÇÃO DE SAUDADE
Enfim amanheceu meu amor Já ouço os pássaros lá fora Com os primeiros raios de sol Amanheceu junto Meu pé gelado E uma pálida porção de saudade Amanheceu também O cheiro do cappuccino E um resto de sonho embolado no edredom Amanheceu o gato, o sapato, o travesseiro O desejo, a música, a poesia Algum guardado, resquício do passado Amanheceram todos, felizes, destemidos Aguardando chegar a noite Procurando fazer sentido
(Pintura de Jaqueline Campos)
DESEJO
É essa distância que nos une Quando alta é a noite Em camas solitárias, divididas São "trocentos" e tantos kilometros De desejo em outra cidade (Tem que atravessar o mar) É essa lua que me olha de longe E de tanto me olhar perturba o sono Fim da noite, saudade em mim.
ENQUANTO VOCÊ DORME
Preciso escrever Enquanto você dorme Porque não posso Acordar seus sonhos Afujentar suas fantasias Preciso ver o tempo fluir A lua morrer do lado de fora Porque penso demais No tudo que se passou e ninguém viu Porque o sol Quando bate em você Reflete em mim Bom dia M.A.
FUGA ESPETACULAR
O amor fez sua fuga espetacular Numa noite de sábado Saiu correndo disparado Sem rumo, rumou um caminhão Cheio de Coca-Cola
O amor coitado ficou espremido Numa noite de sábado Entre o muro e o caminhão Sem trégua, caiu duro na calçada Cheio de mágoa
O amor então largou seu corpo Numa noite de sábado E foi subindo tranqüilo Com um rumo, rumou a lua Cheio de paz
PONTA DO FIO
Sinto seu perfume Gosto do seu jeito De estar sempre Um passo na minha frente (será que sou lenta ou você é esperta?) De alguma forma Você entra e sai Conforme a lua E me abraça (você é sempre assim?) Estou segurando A ponta do seu fio Não quero deixar Você desaparecer. (vamos seguir esta estrada?) 0 graus de calor Não sei se vem de fora Ou está dentro de mim ... O silêncio abafa o sonho Dá xeque-mate na ilusão Onde estou meu amor?
NIGHT AND DAY
“Night and Day”tocando ao fundo, meu amor Sua mão na minha, um descompasso da música Uma noite inteira seria pouco para bailarmos Meia hora antes à caminho daqui Seu corpo escorregava para o meu dentro do táxi
Você me segurava firme, aproveitando as curvas do caminho Peço mais um café e fumo mais um cigarro Você bem mais perto vira gato e começa a ronronar Acaricio suas mãos atrevidas por debaixo da mesa...
(Pintura de Jaqueline Campos)
EDREDOM
Então M.A. Você chega mansa Me tira o sono Me rouba Me provoca Morde depois sopra (que perigo são as ondas de desejo sem o mar) Então querida Já tentei de tudo Leite morno, carneirinhos Rezas, mandingas E nada me adianta E agora santa? (quando é que vou adormecer nos teus braços?) Então me deito nua Sua mão Na minha mão Seu carinho No meu corpo Eu e o edredom
PIJAMA
Debaixo do meu pijama Tem a minha fama Debaixo da cama Tem o gato Debaixo do gato Tem o tapete Debaixo do tapete Tem segredos na ponta dos dedos Debaixo da ponta dos dedos Tem o meu desejo Debaixo do meu desejo Tem o meu olhar Debaixo do meu olhar Tem o medo Debaixo do medo Tem os lençóis Debaixo dos lençóis Tem o amor Debaixo do amor Tem a paixão Debaixo da paixão Tem um nome, o seu
“Amantes de corações confusos Confundem Amantes de corações puros.”
(do filme “Até as vaqueiras ficam tristes”)
LANTERNA VERMELHA
Coloquei uma lanterna vermelha Na porta do seu quarto Esperei que você me notasse Acabei adormecendo No tapete perto da porta Acordei cachorro, carente Com frio e sozinha Feixes da luz do Sol no corredor Abriram meus olhos Desci as escadas, caminho da rua Feito um gato silencioso, displicente (patas de carpete) A lanterna amarrada ao rabo Flutuante e azul Já do lado de fora Dissimulada e perdida Nunca estive lá. Que lanterna ? Que vermelha ?
OLHOS
Nada faz muito sentido Quando você não está Eu queria não ter conhecido você Não me faltava nada antes E agora tenho certeza De que isso não é tudo Quando a vejo Não sei mais quem sou É injusto alguém ter Olhos tão lindos Não gostaria Que você tivesse estes olhos (eu não quero acordar sem saber se a verei de novo)
CINEMA VESPERTINO
Sobre nossa vida Me sinto perdida Quando reparo sua foto no mural Você parece tão normal Com aquele seu sorriso De anúncio de pasta de dente Nem me sente Me olhando desinibida (não fomos felizes?) Sobre o que restou de nós Me apego aos por menores Quando viajamos estradas escuras E nem por isso não nos víamos Muito melhor que hoje Bem menos que amanhã Tickets guardados de lembrança Recordações de cinema vespertino (não nos divertimos muito?)
CORAÇÃO DE SATURNO
Ela me olha Como se olhasse uma neblina Que cobre as trilhas Tomadas por mim Ela se move Como uma onda batendo nas rochas Um redemoinho que me consome E consome a ela O que resta a este meu borbulhante coração de saturno Onde a distância é a nossa permanência E o desejo a nossa constância?