A COZINHA É UMA ARTE E A COZINHEIRA UMA ARTEIRA.


Era inverno, a cidade estava em festa, os turistas e os conterrâneos afloravam. A madrugada fria não espantava ninguém.

Hora de fechar as portas do bar, os últimos clientes se despediam. Foi quando ele entrou, simpático, elegante, discreto. Sentou-se e com um gesto chamou.

- Pois não...

- Eu sei que é um pouco tarde, mas gostaria de jantar alguma coisa. O que vocês poderiam me sugerir?

Meu sorriso escondeu o pânico total e minhas mãos esconderam o cardápio mais próximo. Não tínhamos mais nada para servir além de alguns petiscos e docinhos.

Ele continuou, pensativo.

-... Pensei em comer uma pizza, disse buscando com os olhos um cardápio. Vocês servem, não?

- Claro, respondi aflita. Mas.... infelizmente, devido ao horário... só temos agora a pizza....a pizza da casa.

- Maravilha! Pode trazer. Com uma cerveja, por favor.



Corri até o balcão, pedi a cerveja ao Paulo e fui para a cozinha com ares de mártir. Da mesa ele não via meu rosto, o que agradeci em silêncio.

Naquela hora minha cozinha estava parecendo necrotério sem velório: fria, vazia e completamente silenciosa.

Coragem, pensei. Olhei a geladeira, abri e a sensação de pânico aumentou. Fechei. Abri os armários e o desespero cresceu fulgurante. Se eu somasse tudo o que havia ali daria um resultado parecido com quase nada. Lembrei das conservas da frente do bar, fui e voltei com duas latas nas mãos. Golpe baixo!

Felizmente, a massa de pizza pronta e fresca na geladeira existia ainda e não era uma alucinação. Amém. Espalhei a farinha e comecei o ritual que alguns meses antes eu nem imaginara existir quando entrava num restaurante, sentava e pedia: - Uma pizza, por favor!

Gestos monótonos, mas rápidos, espalhei toda a massa. Olhei e tentei vê-la como se fosse uma tela em branco. Invoquei todos os mestres da arte moderna, reabri armários e geladeira e dali retirei tudo o que pude e que pudesse ser bom e colorido (e que, por céus!!! fizesse volume!). E comecei meu trabalho artístico na velocidade do som.

Pingando o queijo restante nos lugares em que ele seria mais visível e distribuindo palmitos, ervilhas e meus "um pouco de tudo mais", fiz. A azeitona final foi quase minha assinatura. Coloquei no forno e fui até o salão ver como estava nosso cliente.

Calmo, havia solicitado mais uma cerveja e estava lendo um dos livros do Boulevard. 

Minutos depois Paulo levou a ele a obra-prima/pizza da casa e serviu como se estivesse servindo a minha cabeça.

- Bom apetite!

- Obrigado. Parece boa, ele respondeu.

Quase me afoguei na cozinha.

Nosso mais novo cliente, muito educado, jantou, pagou, despediu-se e partiu. Tempo suficiente para que eu me imaginasse tendo uma crise cardíaca, sendo massacrada ou pior. 

Tudo o que o que eu conseguia pensar quando fechávamos as portas e olhava a funerária da Dorza, esposa do falecido Pastel, bem em frente da nossa porta: meu sonho... lá se foi o nosso barzinho... mas eu fiz com tanta boa vontade... ai... tomara que ele não passe mal... que não morra...

E fomos dormir.

Na noite seguinte, uma movimentada sexta-feira, casa cheia, olho para a porta e vejo: nosso cliente, ele!, lá vinha ele outra vez... vai me matar...

- Boa noite, como estão? 

- Boa noite, que prazer revê-lo!

- Adorei este lugar. Voltei com alguns amigos. Você nos consegue uma mesinha pra quatro, por favor? E olha: queremos jantar sua recomendação, a pizza da casa. Fantástica!

Não desmaiei e não morri (estou aqui, não estou..) mas foi duro criar uma resposta em menos de trinta segundos:

- Com o maior prazer! Só tenho que avisá-lo que nossa pizza da casa varia todos os dias e hoje o sabor é direrente...

- Ah, e qual é?

- Sempre uma surpresa... é o que chamamos de "humor da cozinheira"!

Ele riu, seus amigos riram e aceitaram. E criei mais quatro obras. Com material. E anotando a receita...


(Estou ouvindo um disco da Marina.... agora está tocando "Eu Preciso Dizer que Te Amo")