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Por Francisco de Brito Peixoto


“Notícias da Povoação e Fundação da Vila de Laguna, feita por Francisco de Brito Peixoto, que foi Capitão Mor dela, e doou os seus serviços em seu sobrinho Diogo Pinto do Rego.

- Por ser muito do gosto do Rei D. Pedro II, de gloriosa memória, a povoação da Vila de Laguna entrou o Capitão Domingos de Brito Peixoto para dar princípio, mandando por mar um patacho seu carregado com ferramentas, e gente, e muitos escravos, para irem dar fundo, na parte onde lhe ensinaram e desembarcar para dita paragem, que era uma enseada chamada Mampituba, e aí procurarem a Lagoa dos Patos, e principiarem a dita povoação, teve a infelicidade de dar à costa, na altura dos Abrolhos, donde se perdeu o dito patacho e tudo o mais que nele ia.1

Não desanimado o dito Domingos de Brito Peixoto desta perda e infelicidade, por dar a gosto a seu Rei e Senhor, entrou com dois filhos seus, o Tenente Sebastião de Brito Guerra e Francisco de Brito Peixoto, a fazer esta conquista e povoação, por terra, levando muitos escravos e administrados seus e mais pessoas de sua obrigação que o acompanhavam, e depois de muitos trabalhos, percas e despesas, chegaram à dita paragem chamada Lagoa dos Patos, hoje Vila de Santo Antônio dos Anjos, donde estabeleceram e principiaram a dita povoação afugentando muitos gentios, onças, tigres, de que estava mui povoada aquela paragem, com perca de muitos escravos.2

Depois de principiada a estabelecida esta povoação, morreu nela o povoação, Capitão Domingos de Brito Peixoto, e o seu filho Sebastião de Brito Peixoto matou o gentio com veneno, ficando só Francisco de Brito Peixoto, que com valor igual a seu defunto Pai e Irmão continuou a Povoação, fazendo nela Igreja para servir de Matriz e vindo a Santos e São Vicente donde tinham sido moradores, levar casais para a dita povoação, Vigário a quem também pagava a sua causa.


Detalhe da Igreja Matriz em 2006. Foto de Geraldo Cunha (Gê).



Depois de bem estabelecida e fundada esta vila, entrou o dito fundador Francisco de Brito Peixoto a explorar e descobrir as campanhas que se seguiam daquela povoação para diante, passando rios caudalosos, como são os de Araranguá e Bepetuba e de Tramandaí e outros córregos...

                                               (Faltam páginas)3


- Que assim quando chegou ao dito sítio da Laguna fez por em terra os mantimentos e ferramentas que por mar tinha mandado na fragata e desembarcar a gente que amariava; e vendo juntos começaram a examinar a fertilidade da terra e se tinha comodidades de habitação e por mais que tudo estivesse cheio de matos virgens e lagoas profundas com alguma parte de campos, contudo, pela diligência que fizeram acharam se podia viver naquele sítio, cortando-lhe os matos para neles fazerem plantas de sustento, e fazerem passagens para lagoas em ordem a pescarem nelas e que ficavam os campos para os gados.


- Que o Suplicante com os mais se resolveram a povoar aquele sítio e estando assim deliberados sentiram naquela vizinhança andava gentio brabo e vagabundo, que não tinha domicílio em parte alguma, arreceando os desinquietassem e lhe tomassem a povoação depois de feita, trataram de os conquistar e os repelir, para o que os buscaram e depois de os acharem, tendo com eles muitas refregas em que mataram bastante gentio, o qual também nesta ocasião lhe matou cinco escravos e fugiu para o costão a dentro, deixando ao Suplicante e a seu Pai e Irmãos mais sossegados de seu receio.4


- Que assim como o Gentio despejou aqueles matos e campos, tratou o Suplicante de fazer plantas assim nos campos como nos mato, que fez primeiro cortar e queimar e juntamente levantou casas para se recolherem e nelas morarem, como também Igreja para receber os Sacramentos e assistir aos Ofícios Divinos, que o mesmo suplicante  que mandava fazer por sacerdote buscou a troco da grande porção que fazia por não haver Clérigo ou Frade que quisesse ir para terras tão remotas e inabitáveis. E desde então até o presente conservou sacerdote no dito sítio, pagando-lhe e fabricando a Igreja com todos os paramentos necessários.


Laguna na atualialidade, foto de Nsul.



Os traços da arquitetura açoriana. foto de Nsul.



- Que passando aproximadamente ano de habitação achou o suplicante pelo que tinha plantado a terra era muito frutuosa e respondia bem com o trabalho que lhe faziam em mantimentos que lhe plantavam, como também que era muito abundante de peixe, por onde se animou a romper e cultivar muito mais terras e acrescentar as casas para viverem nelas persuadiu rogou a várias pessoas de diferentes vilas que fossem vivem  com ele naquela terra, dando-lhe ajuda e favor para se pararem nela, e demais todos os mantimentos necessários para viver enquanto não colhessem fruto que para os plantarem lhe dava também ordens, escravos, como de fato deu, e sustentou aos que foram para o dito sítio desde o tempo em que se principiou até o presente. E demais mandou vir de várias e distantes partes, muitas variedades de gado como: bois, cavalos, cabras, ovelhas, carneiros e produziram tanto que hoje já muitos anos, vem daquele sítio todo gado vacum que se  gastam em a maior parte destas Vilas do Sul e fora delas vão para a cidade do Rio de Janeiro, continuando muitas embarcações de carne salgada de que se provém as frotas que vão para o Reino e, inumeráveis couros de bois, para a sola, e fora desta abundância manda outra semelhante de peixe salgado para a dita povoação, por ser só a parte em que se salga o peixe e manda fora vender.


- Que mostrando a experiência que o dito sítio produziu e a utilidade que dava com o gado e pescado seco, se foram muitas pessoas viver a ele obrigadas das ofertas e rogos que o suplicante e seu Pai lhe faziam e para ela mandaram vir embarcações por mar e outras comprou o suplicante e seu Pai, para trazer na carreira e prover os povos, onde se lhe perderam três carregadas, e se afogaram alguns escravos. E hoje de presente se acha o dito sítio feito uma grande povoação, pois tem mais de cinqüenta casais, fora os escravos, com tanta quantidade de gados que não é possível numerar-se nem estinguir-se, e de contínuo se vai acrescentando com novos moradores, pela utilidade que nela tem.


- Que a dita povoação resultou um proveito comum a estas vilas do sul e a cidade do Rio de Janeiro, pelas carnes salgadas e peixe seco e legumes que tiram dela de que dando notícia o Pai do Suplicante ao Senhor Rei D. Pedro II, foi servido mandar-lhe agradecer por carta este novo descobrimento e Povoação que fez com a promessa de remunerar, a qual carta se perdeu em uma das ditas embarcações, porém haviam muitas pessoas que dela podem testemunhar.5


D. Pedro II, Imperador do Brasil (Fonte: Biblioteca Nacional Digital).


- Que assim o Suplicante como o Senhor seu Pai, enquanto foi vivo gastaram muita fazenda neste descobrimento e nele lhe morreu o outro filho solteiro, o Tenente Sebastião de Brito Guerra com muita quantidade de escravos que lhe mataram e se perderam.


- Que o Capitão-Mor Domingos de Brito Peixoto, pai do Suplicante, faleceu na mesma povoação...6

(Faltam as página finais)


NOTAS


1 Lagoa dos Patos – Os vicentistas chamavam de Patos aos índios Carijós da região. Povo pacífico, sedentário, por isto mesmo fácil presa dos predadores paulistas.

Mampituba – Hoje este nome é dado ao riacho da divisa, na costa, entre o Rio Grande e Santa Catarina. É o que, logo a seguir, chama de Bepetuba.


2 Francisco de Brito Peixoto é o primeiro bandeirante explorador, como representante do rei Português, do território a que se chamou Continente de São Pedro do Rio Grande. Lembrar que os Jesuítas espanhóis já haviam implantado ali florescente civilização atestada por imponentes ruínas e por farta documentação. Aos Lagunenses coube ocupar para o mundo Português as primeiras terras gaúchas até os limites destas Missões. Paulistas e sucessivos tratados acabaram por anexar ao Brasil o território dos Sete Povos das Missões.


3 Lamenta-se a falta destas páginas. Não estando numeradas no manuscrito, ignora-se quantas faltam; muitos problemas em que se debatem agora os historiadores talvez pudessem ter nelas solução. É o caso da fundação: 1676 ou 1684? E o nome? Por que Santo Antônio dos Anjos?


4 Os índios Carijós tinham sido pacíficos. Mas, quase exterminados pelas contínuas razias dos Paulistas que escravizaram várias dezenas de milhares deles, tornaram-se arredios e ferozes adversários do branco. Não é de estranhar pois, que haja “gentio brabo e vagabundo”. Talvez já nem sejam Carijós ou  Patos, mas Xokengs ou Botocudos, caçadores, nômades das floresta da orla atlântica. Terríveis terão sido os combates. Cinco escravos e, mais tarde, um filho do fundador, foram mortos pelos bugres. Mas quantos deles tombaram diante das armas de fogo dos colonizadores? Os que sobraram internaram-se na floresta, onde sobreviveram mais dois séculos, quando colonos, serranos e bugreiros, completaram o genocídio iniciado pelos vicentistas.


Índios Carijó, gravura de Ulrich Sschmidl, 1559.


5 Que pedira o Suplicante Francisco de Brito Peixoto ao Rei de Portugal? Ele que dera, com o pai, talvez toda a fortuna da família para fundar a Vila, que perdera quatro navios e numerosos escravos nesta fundação? Sabe-se de uma fazenda por ele pretendida, no Rio Grande, na restinga entre o mar e a Lagoa dos Patos. Talvez em suas aspirações estivesse uma Comenda do Hábito de Cristo, como seu colega Dias Velho, fundador da Vila de Nossa Senhora do Desterro.


6 Acaba assim, bruscamente truncado o manuscrito da Biblioteca Nacional. Almejamos que se descubram as restantes páginas deste fundamental documento da história da conquista do Sul do País. No Conselho Ultramarino, em Portugal, quem sabe, ou nos arquivos dos Reino, porque podemos supor que o nosso seja apenas cópia do documento enviado à Metrópole.


* Toto o texto é parte integrante do livro "Laguna Antes de 1880" de João Leonir Dalla'Alba.