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                                                                      Celso Martins


Admirada no Brasil e idolatrada na Itália, onde morreu há exatos 150 anos, a humilde jovem lagunense Ana Maria de Jesus Ribeiro, conhecida como Aninha do Bentão, uniu-se a um revolucionário, foi soldado, enfermeira, esposa e mãe. Em todos os papéis, sua batalha sempre foi travada em nome da liberdade e da justiça. Tornou-se assim Anita Garibaldi, a "Heroína dos Dois Mundos"





Aninha vai bem e manda um abraço a todos, 150 anos após a sua morte. Ela está apreensiva, mas de consciência tranqüila, e não guarda rancores pelo que foi dito sobre ela ao longo de todos esses anos. Acompanhando os acontecimentos lá de cima, aguarda o momento de finalmente descansar em paz. Apesar de não ter aprendido a ler ou escrever, seguramente sabe contar, havendo contabilizado um saldo positivo a seu favor ao operar o balanço. Mas nem sempre o fiel ascendeu. Em alguns momentos ele foi lá embaixo, permanecendo algumas ocasiões sob o tapete.

Por volta de 1918 aconteceu uma. "José Boiteux, que foi um dos grandes historiadores nacionais, um dia se deu a procurar, para os lados do Rincão, a casa em que habitara. Bateu palma e, atendido por uma velha, teve aquela decepção que o povo sabe. Aquilo era um bordel e quem o atendera, uma exploradora de mulheres, lhe fez ver a Anita bem diferente da outra, que agora residia ali: a 'Anita das sete virgindades'." O fato ocorreu em Laguna e foi relembrado pelo jornal "Correio do Sul", no dia 10 de julho de 1949, pouco antes das comemorações dos cem anos da sua morte.

Quando se discutiu na Constituinte de 1934 a implantação do voto feminino no Brasil, alguém no plenário lembrou os feitos de Anita Garibaldi como heroína, usando o argumento em favor da proposta. Em aparte, o deputado de Santa Catarina, Arão Rebelo, fez umas "referências apressadas e de nenhuma consistência histórica sobre Anita Garibaldi, recusando-lhe certas condições à intangibilidade física da Heroína dos Dois Mundos, catarinense de nascimento", relata o advogado Renato Barbosa.

O "Diário da Tarde" de 29 de julho de 1939 lembrou que "um arrebatado orador, deputado à Constituinte, teve essa exclamação pesada, forte, insultuosa: 'Anita Garibaldi foi uma vagabunda'". Segundo o mesmo jornal, o parlamentar foi "imediatamente aparteado, pedindo a bancada paulista, pela voz de seu líder, que ele repetisse o que dissera. O deputado em questão desculpou-se todo, e deu todas as satisfações que lhe foram exigidas". Acusações desse tipo foram freqüentes ao longo de décadas. O radialista Evaldo Bento, descendente da heroína, recordou certa vez que "minha avó, ao ouvir o nome dela, ia logo dizendo que 'essa Anita que eles falam aí é a Aninha, aquela vagabunda'".





Aninha deve suspirar fundo e dar de ombros ao repassar tudo isso mentalmente. Consola-se com o brilho dos que saíram em sua defesa, como o citado "Diário da Tarde" de 29 de julho de 1939, ao assinalar: "Queiram ou não os moralistas severos da História - foi uma heroína cuja memória não será esquecida. Se a gente vasculhar a vida particular de muitos heróis emedalhados, possivelmente encontraremos nele muita roupa suja". Wolfgang Rau, por exemplo, insurgiu-se "contra os que, há mais de cem anos", lançaram "as sementes de umas tantas restrições, irreverências e contraversões à personalidade de Anita e não dissimulam sequer sua intenção maldosa e inglória de sombrear-lhe o nome e os feitos".

Citando Dante de Mello em seu "A Verdade sobre 'Os Sertões'", Rau ataca os "falastrões banais de esquina", de "parolagem fácil e inconseqüente, fazendo estendal da própria sandice contraditória - como os brutos que pateiam no próprio estrume -, contra a papagaiação que pretende suprir o exato conhecimento dos fatos e, também, contra os hipócritas que nos contradizem, com ênfase, entre um cigarro e uma informação futebolística".

Na introdução ao precioso "Anita Garibaldi - Uma Heroína Brasileira", de Wolfgang Rau, Oswaldo Rodrigues Cabral critica os "historiadores ufanistas", que procuram encontrar uma "justificativa para o ato de Ana de Jesus abandonar o marido e atirar-se nos braços de Garibaldi". Acha que não faz sentido pensar "que para ser uma heroína, para se ter ingresso na imortalidade, para se figurar no Panteão da História, é imprescindível atestado de boa conduta, folha corrida, carta e antecedentes ideológicos, atestado de vacina, CPF e outros documentos que nos situam no tempo e no espaço, a nós simples mortais, que figuramos do lado de cá da aurora boreal da glória".

Estes, segundo Cabral, "imaginam que o esplendor da imortalidade fica embaciado por falta do cumprimento de certas regras que marcam, na planície, o nosso comportamento de cada dia. Nada disto! É preciso que se diga que há muita santa venerada nos altares cujo pecado se não foi o de Anita, talvez tivesse sido muito pior... E que, para ser santa, não se lhe exigiu mais do que a coragem da fé, a bravura do martírio ou a penitência do arrependimento... Anita deixou o marido, abandonou-o porque se apaixonou pelo aventureiro de bela estampa, audaz, que lhe prometia (e lhe deu...) uma vida fora da obscuridade da Carniça ou do Passo da Barra. E está acabado o assunto".

Uma grande paixão arrastou Aninha de Laguna. Ela seguiu Garibaldi, a quem conheceu em 1839, vivendo um romance que durou até a sua morte, dez anos depois, em 4 de agosto de 1849, em Mandriole, Itália. Aninha começou a virar Anita quando Garibaldi a conduziu triunfalmente por meia Itália para o túmulo em Nice. Foi quando se recordou sobretudo sua bravura militar nas batalhas de Imbituba e da Barra, a fuga espetacular na serra catarinense e na pequena São Simão gaúcha, a dedicação como mãe e sobretudo o profundo amor pelo marido, fatores que a transformaram em mito. Anita foi símbolo da Unificação Italiana. Seu nome foi "glorificado" para servir aos interesses do posivitivismo após a proclamação da República no Brasil.

A lagunense continua atenta. Nas décadas de 30 e 40 o mito serviu aos interesses no fascismo na Itália, no Brasil tinha a imagem usada pelo integralismo direitista, enquanto muitos núcleos do Partido Comunista se denominavam Anita Garibaldi, nome que foi dado à primeira filha do lendário Luís Carlos Prestes. Tudo isso simultaneamente. Tanto ecletismo talvez a incomode. Mas isso não desvia a sua atenção para o alarido sobre onde deverá, afinal, descansar em paz - se na ilha de Caprera, junto a Garibaldi, em Laguna, para onde falam em levá-la, ou onde está, no Gianícolo, em Roma.



Monumento em Roma, onde se encontram os restos mortais de Anita.



Municípios disputam cidadã ilustre


Diferentes estudos indicam que Anita Garibaldi pode ter nascido em Laguna, Tubarão ou Lages. Certeza, entretanto, ninguém tem, mas a primeira versão é a mais difundida.


As polêmicas sobre o local e data de nascimento de Anita Garibaldi começaram há quase um século, alimentando o mito ao longo das décadas e mantendo o nome da heroína no noticiário. Até o final do século passado havia um consenso entre os historiadores - destacando-se Henrique Boiteux e mesmo Virgílio Várzea, em seus primeiros escritos sobre o tema - de que ela havia nascido na localidade de Mirim, hoje pertencente a Imbituba, na época sob jurisdição de Laguna.

Quando escreveu "Garibaldi na América", em 1902, Várzea pediu a ajuda de "um amigo de Tubarão, que pediu a outro amigo para ajudar, e este localizou um senhor com mais de 90 anos de idade, Anacleto Bittencourt. Este senhor Anacleto disse haver conhecido Anita ainda pequena, em Morrinhos de Tubarão, onde ela também teria nascido", explica o pesquisador lagunense Antônio Carlos Marega. Essa possibilidade ganhou um reforço importante por volta de 1911, com o depoimento de Maria Fortunata da Conceição, a dona Licota, que teria vivido até os 120 anos.

A versão foi colhida por José Luís Martins Colaço, filho do coronel João Luís Collaço, "prestigioso chefe político tubaronense", segundo Walter Zumblick, sendo publicada inicialmente no jornal "Folha do Comércio" (agosto de 1911) e transcrito na revista "Poliantéa" (7 de maio de 1936), comemorativa ao centenário de Tubarão. Segundo Licota, Anita teria nascido em Morrinhos de Tubarão, nas margens do rio Seco, um braço do rio Tubarão. Esse foi "o local onde a família de Bento Ribeiro da Silva sempre residiu", diz Zumblick, após ter vindo de Lages, onde se casara e residira algum tempo.

O aparecimento de Licota estabeleceu um divisor de águas, dando origem às polêmicas que periodicamente ressurgem entre Laguna (Mirim) e Tubarão (Morrinhos). Com base em documentos sabe-se que Bento Ribeiro da Silva, pai de Anita, era tropeiro, natural de São José dos Pinhais, filho de Manoel Colaço e Ângela Maria, tendo se casado em 13 de junho de 1815, em Lages, com Maria Antônia de Jesus, nascida em 12 de junho de 1788, filha de Salvador Antunes (natural de Sorocaba) e Quitéria Maria Soiza (lagunense). Ao todo o casal teve nove filhos.

Quando o escritor Wolfgang Rau publicou os primeiros resultados das suas pesquisas, surgiram revelações que alimentaram mais polêmicas. A localização pelo pesquisador dos registros de batismo de quase todos os irmãos de Anita encorajou o pesquisador lageano Licurgo Costa a publicar uma terceira versão do local de nascimento da heroína. Além de citar depoimentos ouvidos na infância, apegou-se a um detalhe importante: a irmã mais velha de Anita foi registrada em Laguna em 1º de novembro de 1816, não havendo registros das seguintes, Manoela e Anita. Os dois irmãos posteriores, Manoel e Sissília, foram registrados em Lages (1822 e 1824) e os demais em Laguna. Ana Maria nasceu em 1821.


Monumento em Laguna



Socorro


Essas revelações reforçaram o que contava Francisco Correia, na casa de quem Anita pernoitou em janeiro de 1840, quando fugiu da prisão em Curitibanos e estava à procura de Garibaldi. Segundo ele, Anita afirmou na ocasião "ser filha de mãe lageana, que o pai era fazendeiro, no Tributo, e que nascera numa fazenda chamada Socorro, para as bandas da serra Geral. Diante deste testemunho, no tempo em que ainda não se discutia qual era o lugar de nascimento de Anita, parece-nos esclarecido um assunto que tem dado margem a tanta celeuma", diz Licurgo Costa. Correia narrou esses fatos à avó de Licurgo diversas vezes.

Outro depoimento citado pelo mesmo escritor é o de Ezírio Rodrigues Nunes, nascido em 1822 e falecido aos 94 anos, em 1916. Sua neta, Maria Palma de Haro, esposa de Martinho de Haro, dizia que Ezírio "muitas vezes contou que uma de suas companheiras de brinquedos e travessuras, na fazenda de Nossa Senhora do Socorro, onde ambos nasceram, foi Anita Garibaldi, que então era conhecida como Aninha do Bentão". Acrescentava que "ele, Ezírio, nascera no ano da independência do Brasil - 1822 - e que Anita era um ano mais velha que ele, tendo, pois, nascido em 1821".

Licurgo reforça sua tese revelando que Dom Joaquim Domingues de Oliveira, "alguns anos antes de falecer, se comprometera a fazer uma conferência sobre Anita. E, como tinha gosto pelos assuntos históricos, meteu mãos à obra e começou a pesquisar os arquivos de sua diocese e outras fontes. Um dia, com o trabalho já quase pronto, comentou para seu secretário que não poderia fazer a conferência: uma revelação que obtivera poderia 'causar atritos muito desagradáveis em Santa Catarina'. E cancelou a conferência". O escritor lageano, contudo, reconhece que foi em Laguna que Anita "se destacou para o mundo".


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