Saul Ulysséa e Ruben Ulysséa, assim como o pesquisador Salum Nacif, lagunenses, sustentam argumentos em favor da tese do nascimento de Anita em Mirim, onde também existe uma localidade chamada Morrinho. Bento Ribeiro da Silva teria procurado esse local para morar - vindo de Lages - por causa da presença de parentes seus, os Machado de Sousa. "Todos os velhos moradores em Mirim que conheci em 1876 não tinham a menor dúvida de que Anita ali nascera", destaca Saul em "Coisas Velhas", lançado em 1946.
João Fraga, morador de Laguna e sobrinho de Anita, "afirmava com energia que tanto sua mãe como sua tia Anita haviam nascido em Morrinho do Mirim", destaca Saul Ulysséa. Um "velho muito estimado em Laguna", Joaquim Maria da Silva, morador de Mirim, afirmava ter conhecido a casa onde Anita nasceu. Clemente José da Silva Pacheco, negociante em Mirim e chefe do Partido Liberal - "de muito prestígio e que dispunha ali da maioria do eleitorado" - também é citado por Saul como testemunha da sua tese. Um filho de Clemente, Júlio Pacheco, "conta que conheceu muitos velhos em Mirim que conheceram Anita muito pequena, antes de sua família se mudar para Morrinhos de Tubarão".
Ruben Ulysséa repete em 1949 os argumentos de Saul, acrescentando que Bentão viera de Lages se estabelecer com "lavoura e criação" em Mirim. Cerca de seis anos depois teria nascido Anita, "na casinha onde moravam seus pais". Os depoimentos colhidos pelos Ulysséa e Salum Nacif da tradição oral ainda são repetidos em Mirim. "O pai de Anita tinha parentes aqui. Desde pequeno ouço dos mais velhos que ela nasceu aqui", conta o comerciante mais antigo do lugar, Jairo Cardoso, 75 anos de idade. "Como os negócios dele não iam bem, acabou se mudando para Morrinhos de Tubarão", destaca.
Ele afirma ter ouvido de Joaquim Ezequiel Pacheco que a mãe deste foi madrinha de batizado de Anita, o que teria ocorrido na igreja de Vila Nova, próximo de Mirim e também no município de Imbituba. "O Álvaro, filho do Clemente Pacheco citado por Saul Ulysséa, costumava nos contar, quando eu ainda era criança, que Anita nasceu no Morrinhos daqui", acrescenta Jairo Cardoso, fazendo questão de mostrar o local onde, "diziam os mais velhos", teria existido a casa onde Anita nasceu. O sítio indicado fica junto à antiga estrada estadual que ligava Laguna à Capital, coberto por um denso e descuidado bananal.
Próximo dali reside a família Machado. "Uma neta da Anita que esteve aqui em 1970 queria colocar uma placa aí na frente, indicando o local de nascimento, mas o meu marido não quis, pois ia haver muito ajuntamento", afirma Dona Renê Dautd Machado, 83 anos. Sua sobrinha, Isabel Terezinha Machado, 31, afirma que "o nosso parentesco com ela é muito comentado na família", destaca. Nas proximidades existe uma fonte usada para a lavação de roupa, "onde Anita foi procurar a sua madrinha antes de viajar com Garibaldi", acrescenta Isabel.
Naturalidade
Foto de Raphael Bonelli.
Neto de João e filho de Pedro, Vilmar Pedro Machado, um pedreiro com 35 anos de idade, recorda as palavras do avô, repetidas pelo pai. "Eles diziam que Anita nasceu aqui por perto e que éramos parentes dela. Falavam isso com muita naturalidade. Era uma coisa normal", assinala. O comerciante Jairo Cardoso acha que o silêncio dos descendentes de Anita, durante décadas seguidas, deve-se ao fato de serem pessoas simples. "Os Machado, por exemplo, são lavradores, desconfiados, ressabiados e temerosos de que estejam querendo tomar as terras deles", interpreta.
A descoberta recente de um documento no Museu Anita Garibaldi, em Laguna, reforçou a tese do nascimento da heroína em Mirim. A descoberta foi feita pelo pesquisador Amadio Vetoretti, do Arquivo Histórico de Tubarão, que, ao folhear o livro de "Querelas" de 1815 a 1830 de Laguna, encontrou e registro de um auto que dá João da Costa Coimbra contra Bento Ribeiro da Silva. O querelante acusa o pai de Anita de atacá-lo com uma faca, em 1822, na região de Morrinhos de Tubarão, na época pertencente a Laguna. Como Anita nasceu em 1821, a presença de Bentão no local no ano seguinte serviria como confirmação da versão de que ela também nascera ali.
O pesquisador lagunense Antônio Carlos Marega, que abrira as portas do museu a Vetoretti, ficou intrigado e resolveu investigar melhor a descoberta. Constatou, depois de muito trabalho, que o documento não era de 1821, mas de 1826, o que veio reforçar a tese do nascimento em Mirim, onde Anita teria residido até 4 ou 5 anos de idade, quando a família se mudou para Morrinhos de Tubarão. Ainda menina Anita teria feito amizade com Licota, levando essa última a acreditar, dezenas de anos mais tarde, que a heroína também teria nascido ali. Tudo isso se encaixaria perfeitamente, não fossem a versão e os argumentos levantados por Licurgo Costa de que Anita nasceu em Lages.
Itália adotou primeiro versão sobre Tubarão
Monumento italiano.
A versão do nascimento de Anita Garibaldi em Morrinhos de Tubarão foi a que prevaleceu junto ao governo da Itália, sob o regime de Benito Mussolini, ao ser escolhido em 1932 o local para a colocação de um monumento, constituído de um morro de granito e uma placa, fundida em Turim, com um canhão que teria pertencido ao Seival, na base. Em 23 de junho de 1937 o Batalhão Escola de Tubarão colocou outra placa junto à primeira, reforçando em Tubarão a intenção de vincular o nome de Anita ao da cidade. Em 1985 o artista plástico Willy Zumblick construiu um mural com a imagem de Anita e Giuseppe Garibaldi numa fonte, dando maior destaque ao monumento.
Quem mais se preocupa com ele é dona Elza da Silva, natural de São Martinho, viúva há 22 anos e desde a década de 1960 residindo no local. Conforme a administração municipal o monumento recebe maior ou menor carinho. Quando não existem cuidados, "o mato acaba tomando conta e eu é quem tenho que cortar", explica dona Elza. Na enchente de 1974 em Tubarão, o marco de Anita foi o único ponto, num raio de muitos quilômetros quadrados, a permanecer fora da água. "Depois que a cheia terminou tive que tirar todo o barro", complementa a viúva.
Ela guarda com carinho um livro do escritor Wofgang Rau, não mostrando-o a ninguém. A senhora sabe quem foi Anita? "Se eu sei? Foi uma guerrilheira", responde, acostumada a receber turistas, curiosos e pesquisadores. "Não é todo dia que aparece gente, mas sempre tem alguém visitando, principalmente gente de fora", observa.
Homenagens
Na região onde a heroína pode haver nascido, ou pelo menos passado a infância, existem várias referências a ela, como a denominação de Anita Garibaldi dada ao bairro em 1906. No futebol é lembrada com um time e na parte social através do clube Garibaldino. A cooperativa de eletrificação que leva seu nome existe desde 1966. Em outros pontos de Tubarão também existem homenagens, como o aeroporto inaugurado em 1951 pelo então governador Aderbal Ramos da Silva. Na ocasião foi instalada no aeroporto uma herma da heroína, em bronze, do artista italiano Amleto Sammarco, doada pela empresa Irmãos Amin. Com a desativação do aeroporto a imagem foi transferida para a praça Osvaldo Pinto da Veiga, onde permaneceu por muito tempo até desaparecer há três anos, sendo reencontrada em 1998.
Vínculos
Dois importantes personagens contribuíram para consolidar o vínculo entre Anita Garibaldi e a cidade de Tubarão: os irmãos Walter e Willy Zumblick. Enquanto o primeiro pesquisou, escreveu artigos e lançou em 1980 o livro "Aninha do Bentão" (obra que está sendo reeditada), o segundo tratou de visualizar em telas os principais momentos da vida e das lutas de Anita. Hoje existe um projeto de desapropriação de toda a área do sítio onde Anita teria nascido em Morrinhos (Tubarão), num total de 52.240 metros quadrados, com "lagos, trapiche, bosques, churrasqueiras, jardins, palco, estacionamento, área coberta de 400 metros quadrados, museu, lanchonete e sanitários, enfim, um grande parque temático", explica o atual secretário de Indústria e Turismo, Roberto Tournier. O custo previsto do projeto é de R$ 322 mil.
Nesse espaço, o visitante poderá conferir uma galeria de telas do pintor Willy Zumblick, visualizando os principais momentos da vida de Anita. Também vão existir mapas, livros, quadro genealógico da heroína e seus parentes, fôlderes e outros materiais, além da construção de uma casa de pau-a-pique, coberta de palha e piso de chão batido. Ela será decorada com mobília rudimentar - cama, catre, baú, mesa tosca e bancos, cozinha com fogão e trempe, algumas panelas e colheres. Existirá também um poço, um forno de tijolos e privada externa. Na frente do lote, Zumblick vai erguer um monumento. Está sendo pensada a execução de um réplica do monumento a Anita existente no Gianícolo, em Roma.
Matrimônio com sapateiro não rende frutos
União com o desterrense Manoel Duarte de Aguiar, em agosto de 1835, não trouxe filhos nem alegrias para Aninha. Infeliz, não hesitou em acompanhar sua grande paixão
Celso Martins
Foto de Jane Hilgert
No dia 30 de agosto de 1835, Aninha vestiu uma saia de filó azul-claro com pregas e muito rodada, cheia de tiras escuras, estreitas e estampadas de espaço em espaço. Entre as tiras havia uns pontinhos bordados e retrós preto mercerisado. O corpete da mesma fazenda era guarnecido de barbatanas formando um bico na frente, mangas compridas com um grande fofo nos ombros. Calçou os sapatos de camurça branca, simples, lisos, cada um com um tufozinho de seda branca na frente e salto não muito alto e redondo.
Depois de estar vestida, Aninha dirigiu-se à Igreja Matriz de Laguna, onde se casou com Manoel Duarte de Aguiar, um sapateiro nascido na Barra da Lagoa ou Ingleses, em Desterro, hoje Florianópolis. O registro encontra-se no Livro de Casamentos de 1832 a 1844 da mesma igreja, assinado pelo padre Manuel Francisco Ferreira Cruz, atualmente sob os cuidados do Arquivo Episcopal de Tubarão.
As razões para o fracasso do casamento, apontadas pelos que escreveram sobre Anita, são diversas e muitas delas destinadas a justificar o fato de haver deixado Manoel Duarte para ficar com Giuseppe Garibaldi. A conclusão mais razoável é a de Wolfgang Rau. Primeiro, ela foi "gravemente negligenciada e mesmo abandonada por seu primeiro marido". Segundo, porque Manoel, "após o casamento, continuou com seu trabalho, limitado a bater solas, gostar de cachorros e de pescarias noturnas. Dificilmente se lhe via um sorriso; acanhado com as pessoas estranhas, provia, metódico e organizado, o difícil pão de cada dia".
Com o passar do tempo, ainda segundo Rau, o marido de Aninha passou a "demonstrar em casa o seu caráter conservador e ciumento. Avesso às mudanças de situação, era reacionário a todas as novidades. Viu-se, pois, Aninha trancada entre paredes, levando vida apagada e monótona, sem ao menos ter com quem expandir suas idéias ou a quem relatar seus sonhos, originados de exaltada imaginação, em procura permanente de horizontes mais dilatados. Em breve, compreendeu não estar realizada ao lado do pacato marido, o qual não lhe confirmou, sequer, fecundidade".
Introvertido, "era de todo e por tudo inadequado para esposo de Anita; passado o primeiro momento de vida em comum, revelou-se aos dois o erro desse matrimônio omisso de maturidade. Sem filhos e sem alegrias partilhadas, veio a ficar-lhes apenas o arrependimento de terem casado". Em resumo, um casamento "falho de prazer e de fruto", complementa Rau.
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